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“Objetivos de mágicos e trapaceiros são distintos”

TEXTO Marina Suassuna

01 de Janeiro de 2016

Cláudio Décourt

Cláudio Décourt

Foto Divulgação

[conteúdo vinculado à reportagem de capa | ed. 181 | jan 2016]

Colecionador e estudioso das cartas de baralho por mais de 40 anos, Cláudio Décourt presidiu, de 2004 a 2008, a International Playing Card Society – IPCS, entidade com sede na Inglaterra que reúne colecionadores e pesquisadores sobre baralhos de todo o mundo. Entre os seus temas de interesse, está a cartomagia, tendo se formado no CEMA – Centro de Estudos Mágicos, uma das mais importantes sociedades mágicas que existiram no Brasil, nos anos 1960. Há cerca de oito anos, é integrante do Grupo de Estudos Mágicos Misdirection, em São Paulo. Desde o final da década de 1960, iniciou uma coleção de baralhos que não se esgota, com lugar especial para as cartas de mágica. Atualmente, possui uma biblioteca particular com uma média de 400 livros sobre o tema.

CONTINENTE Em que contexto as cartas de baralho passaram a ser utilizadas para truques de mágica?
CLÁUDIO DÉCOURT Como é sabido, baralhos foram inventados para a prática de jogos. Nesse universo, temos jogos ditos “de salão” e os jogos “de aposta” ou “de azar”. Esses últimos envolvem o ganho financeiro dos vencedores das partidas jogadas. Em ambas as práticas, parte do sucesso em sair vitorioso depende da sorte de cada jogador conseguir cartas que possibilitem sua vitória. Por essa razão, jogadores/ apostadores desenvolveram prontamente métodos para “corrigir a sorte”. Em palavras mais diretas e menos elegantes, passaram a desenvolver métodos de trapaça, fazendo com que cartas passassem a ser dirigidas a eles não de forma aleatória, mas viciada, conveniente à sua vitória. As técnicas usadas pelos trapaceiros nesses jogos passaram, em pouco tempo, a ser utilizadas para produzir feitos extraordinários com as cartas, em que o efeito “mágico” é que encantava as pessoas, sem nenhuma ligação com qualquer jogo. A semelhança de técnicas, no entanto, é notável. Logo, esses pioneiros ilusionistas com cartas de jogar perceberam que o baralho, além de ser um instrumento ideal para trapaças, pelo tamanho e por outras características físicas, também era excelente objeto para magias. Pode-se dizer que o baralho se tornou uma ferramenta para mágicas quase simultaneamente ao seu surgimento como instrumento de jogo. Uma diferença fundamental entre as duas aplicações é que, nas mágicas, o efeito é visível, ou seja, os espectadores veem que uma carta trocou de valor por outra. Enquanto, em jogos, os adversários do trapaceiro não podem perceber a troca de cartas, sob pena de ter que pagar de forma exemplar, o que em várias oportunidades significou a própria vida. Mas, em ambos os casos, o procedimento usado para transformar as cartas é desconhecido do público e dos outros jogadores. São utilizados praticamente os mesmos meios, nas duas aplicações. Primitivos livros de mágica com baralho – como Giochi di carte bellissimi di regola e di memoria, escrito por Horatio Galasso e editado em Veneza em 1593 – incluíam tanto números de mágicas como manobras de “correção de sorte”, eufemismo que significa simplesmente trapaça. Iniciou-se, dessa forma, uma permanente “transferência de tecnologia” entre trapaceiros e mágicos, prática que persiste até hoje.

CONTINENTE Em algum momento da história a associação entre mágica e trapaça comprometeu o prestígio e a credibilidade da cartomagia?
CLÁUDIO DÉCOURT De fato, essa é uma questão delicada. Mas a troca de técnicas e informações é um fato. Na minha visão, não há nenhum comprometimento aos mágicos, porque estamos falando de métodos, não de objetivos. Os objetivos dos mágicos e dos trapaceiros com cartas são muito distintos. O primeiro leva diversão, divertimento às pessoas; o segundo usa de artifícios para ter vantagens fraudulentas em jogos. O primeiro tem uma atividade digna. O segundo, não. Assim, embora sejam utilizados métodos muito semelhantes nas duas, parece-me que o julgamento moral que poderíamos fazer delas é muito diferente. Uma comparação que me ocorre se relaciona com a tecnologia aeronáutica, por exemplo. Muito da tecnologia militar, que sempre pode ser criticada por seus efeitos nefastos, é aplicada no desenvolvimento de aviões civis, usados no transporte de pessoas, na assistência médica e social em lugares de difícil acesso, enfim, em várias atividades nobres. A tecnologia de produção é a mesma, mas os objetivos de utilização são diametralmente opostos. Parece-me difícil distinguir algo que seja puramente politicamente correto em todos os seus aspectos. Sempre algo bom pode ser usado para o mal. Ou vice-versa, como no caso de magia e trapaça. A origem foi a trapaça, mas as mesmas técnicas acabaram criando um tipo de divertimento que traz alegria às pessoas. A visão genérica de que o mágico pode ser um trapaceiro é usada em alguns casos. Há, por exemplo, filmes classe B nos quais o mágico é o bandido ou assassino. Mas outros tipos de personagens também personificam bandidos e assassinos. Sempre algo intrinsecamente bom pode ser usado para o mal ou como imagem dele. Mágicos não são exceções.

CONTINENTE Como identificar se um baralho é apropriado para a mágica?
CLÁUDIO DÉCOURT Mágicos utilizam baralhos comuns, comprados em qualquer loja e usados para jogos. Como característica principal, é importante que sejam de boa qualidade, com cartas não transparentes, bom deslizamento, espessura adequada, identificação de valores de fácil distinção, bem-impressas, com dorsos bem-centralizados, armazenados em estojos também de boa qualidade, além de outros detalhes de fabricação. Atualmente, o baralho mais popular usado por mágicos em todo o mundo é da marca Bicycle, criada no final do século 19 e fabricada até hoje pela United States Playing Card Co., um dos maiores fabricantes de baralhos do mundo. O dorso conhecido como Rider Back, mostrando anjos em bicicletas é a marca registrada de praticamente todo mágico contemporâneo especializado em baralhos. Vários fabricantes e editores de baralhos têm tentado, ainda sem sucesso, substituir o famoso Bicycle Rider Back por suas marcas tradicionais. No entanto, na prática, a maioria dessas outras marcas pode ser utilizada sem problemas e com absoluto sucesso em números de mágica.

CONTINENTE O que leva as pessoas leigas a confundirem mágica com tarô? Como elas podem diferenciá-los?
CLÁUDIO DÉCOURT A prática de leitura de sorte e outras aplicações esotéricas do tarô, que poderiam ser associadas à mágica em seu sentido místico, nada tem a ver com a mágica como arte de espetáculo, baseadas em artifícios, artimanhas e subterfúgios usados habilmente com o objetivo exclusivo de criarem em seus espectadores a ilusão de se fazer coisas impossíveis. Trata-se aqui de uma ilusão, embora existam alguns poucos mágicos que utilizam baralhos do tipo tarô para suas apresentações. Mas isso é muito raro.

MARINA SUASSUNA, jornalista com especialização em Estudos Cinematográficos. Foi repórter de cultura da FPE, escreve para Outros críticos.

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