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Zeca Viana: A capacidade de se reinventar

Em 'Estância', seu 3º álbum, o multi-instrumentista Zeca Viana mantém um pé no erudito, mas se recria à medida que também abriga canções pop

TEXTO Fernando Athayde

01 de Setembro de 2015

Zeca Viana

Zeca Viana

Foto Saulo Diniz/Divulgação

[conteúdo vinculado à reportagem de capa | ed. 177 | set 2015]

No mundo da música é muito comum usar
a expressão viver o rock para designar os perrengues e situações inusitadas pelas quais os artistas independentes costumam passar para levarem seu trabalho ao mundo. Nascido em 1982, com várias bandas nas costas e cheio de histórias para contar, o cantor e compositor pernambucano Zeca Viana é quase a personificação da tal expressão. Do Bairro de Estância, na zona oeste do Recife, onde nasceu e mora até hoje, a turnês pelo Brasil, Estados Unidos e Canadá, o músico abraça uma obra que já completa mais de uma década, celebrada pelo lançamento de seu terceiro disco solo, Estância, disponibilizado virtualmente no último dia 1º de agosto.

Para Zeca Viana, estar envolvido com o ato de criar resulta numa condição indissociável de sua própria respiração. Multi-instrumentista, o artista parece dominar com certa maestria as voltas que a vida dá, sem nunca deixar que os desafios cotidianos o afastem da sua necessidade de se expressar. Para se ter uma ideia, em 2007, quando tocava bateria na banda pernambucana Volver, o músico conta que chegou a fazer uma turnê nacional sem abandonar o trabalho diário no Recife. “Eu trabalhava numa companhia aérea e, por isso, comprava as passagens de avião muito mais baratas. Aí o resto da banda saía em turnê de carro pelo país e eu viajava para encontrá-los só no dia do show, e depois voltava para trabalhar”conta Zeca.

Essa dedicação talvez seja um dos eixos fundamentais sob os quais orbitam a vida e obra do artista. Desde a década de 1990, quando ainda era um iniciante na música, Viana já pensava em caminhos alternativos capazes de suportar a vazão de suas vontades e anseios. Seu primeiro disco solo, Seres invisíveis, gravado em casa ao longo de vários anos e lançado em 2009, é o retrato de um músico aprendendo e experimentando como manipular o som pela primeira vez, intuitivamente. Em 2010, impulsionado pela sua experiência com a Volver e com o projeto solo, Viana deu início ao Recife Lo-Fi, uma coletânea musical anual que reúne artistas de todos os gêneros e partes do Brasil sob uma única regra: a adoção da estética lo-fi, termo que reduz a expressão low fidelity recording, ou seja, registros fonográficos cuja sonoridade está situada longe daquelas oriundas dos grandes estúdios e próxima à utilização de técnica artesanais de gravação.

Ainda assim, o músico não se diz propriamente um defensor ferrenho de tal forma de produção, mas acredita que, mais importante que seguir uma regra específica na hora de compor, é se expressar independentemente dos recursos técnicos disponíveis. Em 2015, foi lançada a quarta edição da coletânea, que hoje já conta com a participação de artistas até de fora do país.

Após o lançamento de Seres invisíveis e da primeira edição do Recife Lo-Fi, Zeca se mudou para São Paulo, onde chegou a integrar a banda paulista de post rock Labirinto. Dessa vez como baixista, o músico participou da primeira turnê internacional do grupo, que passou por países como o Canadá e Estados Unidos. Na capital paulista, retomou seu projeto solo e seguiu compondo uma série de canções que viriam dar a forma ao seu segundo trabalho, Psicotransa, de 2012.

Dessa vez gravado em estúdio e tocado por uma banda, o álbum se distingue de Seres invisíveis não só pelo tratamento dado ao áudio, mas pelo fato de ter sido produzido em uma semana. O lançamento marcou o final da estada de Zeca em São Paulo, pois no início de 2013 retornou ao Recife.

REDENÇÃO
“Em 2013, eu estava sem dinheiro, sem mulher, sem rock’n’roll e com metade das minhas coisas em São Paulo”, conta o músico, que ainda foi assaltado logo que regressou ao Recife e perdeu todos os arquivos de seus projetos e registros de canções. Nesse momento de crise, Zeca decidiu dar um novo rumo à vida e optou por cursar Filosofia (UFPE).

De volta à Estância, o músico pouco a pouco conseguiu trazer seus equipamentos de São Paulo. “Nos últimos anos, parei para aprender mixagem e masterização, coisas que eu já fazia intuitivamente, mas nunca tinha estudado pra valer”, conta o artista, que assina todo o processo de realização deEstância.

Etéreo, o recém-lançado álbum reúne composições estritamente ligadas à vida e às lembranças de Viana. O novo trabalho de Zeca mantém um pé no erudito, mas se recria à medida que também abriga canções pop.

Estância tem referências como Cocteau Twins e do My Bloody Valentine uma gama de timbres reverberados e acolhedores. Talvez por esse calor iminente, Zeca Viana, depois de dois anos sem fazer shows, retornou aos palcos. Apoiado pela banda recifense Verdes & Valterianos, o músico enxerga o futuro como algo que reserva boas surpresas. 

FERNANDO ATHAYDE, jornalista e músico.

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