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Obra 'Kali'Obra 'Kali'

 

A partir desta quarta-feira (24/09), a Amparo 60 vai receber a exposição Animattack, do artista Bruno Vilela. A mostra, que tem curadoria de Moacir dos Anjos, é composta por 15 desenhos e uma pintura, inéditos no Recife, realizados pelo artista entre 2012 e 2014. Na abertura, será lançado o livro homônimo, que traz o registro de estudos e obras da série, com um texto do curador. Em conversa com a Revista Continente, o artista plástico pernambucano fala sobre as temáticas abordadas em suas obras, a técnica do pastel seco, processo criativo e seus artistas favoritos.

 

Revista Continente: Em Animattack, você discute e apresenta trabalhos com temáticas ligadas à psicologia e à religião, bruxaria. Queria que você falasse um pouco sobre sua relação com esses temas e fizesse também um comentário focado em como foi pensada/concebida a exposição.

Bruno Vilela: Em Animattack eu busquei apresentar minhas ideias estéticas enigmáticas e de suspense no aspecto visual. Uma espécie de fetiche pelo cinema sempre me leva para pesquisar e buscar inspiração em todo o meu trabalho de 2006 para cá. Minha busca é por um nível bem definido no espectro de latitude e de textura das imagens produzidas pela indústria do cinema americano e inglês, dos filmes de terror e suspense usando a técnica dotechnicolor. Dentro desse tema específico da história do cinema, terror e suspense de filmes dos anos 40 aos 70 coloridos em technicolor, descobri outro interesse, o tema do Orientalismo, movimento que existiu na pintura no século XVII e XVIII com nomes como Delacroix, Ingres e Moreau, e que nas produções da época do technicolor criaram clássicos como Narciso NegroO Ladrão de Bagdá que tem o mesmo tipo de interesse. Os temas e imagens que apresento já são fruto de um mergulho no inconsciente e uma tentativa de "fotografar" sonhos e sentimentos perdidos no passado, no fundo da mente, através da meditação da pintura e pesquisa de fotos de família antigas, nelas encontro memórias de infância, que são os primeiros estágios do mergulho no inconsciente.

 

Depois de aprofundar esse tema da família surge Ela. A Anima. Uma representação do inconsciente masculino representado por uma Deusa assustadora. Um arquétipo ancestral. A grande mãe é uma das esculturas mais antigas que se tem conhecimento. Esse encontro natural de um arquétipo tão antigo e poderoso me impulsionou na sequência de uma série longa de diversos trabalhos. A religião e a bruxaria são tipos de conhecimento onde seus símbolos e ritos são místicos e enigmáticos, por isso a semelhança estética com os trabalhos. Mas eu diria que nas obras mais próximas da memória, das fotos de família, do estágio inicial, temos sim a psicologia (sobretudo jungiana), mas no segundo momento, nos "olhos", mesmo com o surgimento da personificação da Anima, a motivação deixa de ser psicológica, ou de magia e bruxaria. O sentimento aqui está muito mais ligado ao primeiro princípio do Hermetismo encontrado no Kabalion: O todo é mente. O universo é mental.

 

R. C. : Qual o propósito da predominância da cor azul nos trabalhos de Animattack?

B.V. : Naturalmente o profundo, o sentimental, o espiritual é azul, mas não só azulado, é violeta. Essas são as duas cores dos desenhos. Com suas infinitas latitudes e gradações suaves nesse espectro. O fundo do mar é azul. Quando transbordamos de sentimento choramos e derramamos água nos olhos. É um processo natural. Kandinsky dizia que o azul era a cor da espiritualidade, e que quanto mais escuro, "profundo", mais expressa o desejo.

 

R. C. : Você fala que a ideia central para compreender seu trabalho é a mitologia pessoal, como você explica essa expressão?

B. V.: É simplesmente buscar os arquétipos do inconsciente e transmutar sentimentos, formas e cores, imagens pessoais e situações vividas na vida real e em sonhos em temas universais, nesse amalgama de influências visuais e experiências sensitivas, sejam elas do cinema, da relação com meus amigos, artistas ou não, da minha família antiga e atual. No meu desenho, a simples supressão dos olhos e o uso limitado da latitude de cores, transforma, transmuta, a foto banal de aniversário que todos temos, em tensão, em mistério e medo. A dimensão da mitologia pessoal está nisso: falar do privado mostrando o universal, e a profundidade do arquétipo, de maneira verdadeira e natural.

 

Obra 'Hanuman'Obra 'Hanuman'

 

R. C. : Como você chegou ao desenvolvimento desta técnica do pastel seco, que fica em uma fronteira entre o desenho e a pintura?

B.V. : Graças há 4 anos de estudos com um mestre japonês que apareceu em Recife no ano de 2000, eu me dediquei aos estudos clássicos do desenho com anatomia. Em um curso anterior, entre 1993 e 1994, eu já havia descoberto o pastel seco, justamente neste momento de transição, clássico, do desenho de observação com carvão, borracha e papel jornal, para o uso das cores, uma espécie de preparação para a tinta óleo e a tela. Quando surge a pintura a óleo e a tela, a grande maioria dos alunos é absorvida pela técnica do óleo. Mesmo que na sua formação opte por outros meios no futuro. Então o pastel seco fica esquecido nessa fronteira. O mestre japonês, Sunishi Yamada, responsável por toda a minha formação como pintor, incentivava bastante o uso do pastel seco sobre papel. Mostrava como o fato de ser técnica seca sobre papel não implicava desenho, mas, ao mesmo tempo, não implicava pintura. Era justamente a fronteira. E é nessa fronteira que trabalho até hoje. O pó do pastel, a qualidade viva de seu pigmento orgânico me permite pintar com uma espécie de fumaça no papel. Me ajuda a chegar perto desse Orientalismo que vem, inclusive, do mestre Yamada.

 

R. C. : Queria que você falasse um pouco como e quando surgiu seu interesse pelas artes plásticas e quais artistas você admira.

B.V. : Como toda criança eu sempre desenhei. Mas, eu insisti nisso mesmo quando os outros meninos perderam o interesse. Era algo natural. Nunca fui virtuoso, mas sempre gostei de desenho de observação e decalques desde muito cedo. Na adolescência, eu grafitei alguns anos profissionalmente. Entrei no curso de artes plásticas da UFPE, mas foi mesmo os anos com o mestre Yamada que me formaram. Lembro de passar alguns recreios, no segundo ano científico, vendo Os Grandes Mestres da Pintura na escola. Foram meus primeiros ídolos. Os clássicos. Gericault, Da Vince, Caravaggio. Mais velho, me apaixonei por Basquiat e Rauchenberg. O primeiro me levou ao grafite e o segundo as colagens. Atualmente eu admiro e me influencio pelos meus amigos artistas mais próximos, como Rodrigo Braga, Kilian Glasner, Nicolas Robbio e meu irmão, o artista Márcio Vilela.

 

R. C. : Como se desenvolve seu processo criativo? Você possui algum método de trabalho?

B.V.: Meu método é nunca parar. Sou compulsivo, workaholic. O encadeamento de ideias faz as séries. Um trabalho "puxa" o outro. É como o encadeamento de fotogramas num filme. Cada fotograma isolado não tem sentido, a inter-relação entre esses frames é que dão vida e mistério ao cinema. A pesquisa e as viagens, as conversas com os amigos artistas e pesquisadores, as leituras e os filmes me alimentam de tanta referência que decidi registrar elas de maneira livre em cadernos. Esses registros e projetos aqui e alí são usados para criaras obras. Mas a vontade de ver o próximo é o verdadeiro método. No aspecto prático acho que sou um artista tradicional. Abro as portas do ateliê as 10h e fecho as 19h de segunda a sexta, uso materiais clássicos como óleo, pastel seco, telas e rolos de papel. O isolamento no ateliê e a disciplina são métodos que faço uso há muitos anos, pois creio que, como eu li em algum lugar que não vou lembrar agora: “a pintura é como um barco, não podemos deslocá-lo de uma ilha a outra de um dia para o outro, é importante manter a pintura em um bom rumo.”  Essa disciplina é o grande método.

 

capa 198
CONTINENTE #198  |  Junho 2017

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