Clique ao lado para visualizar o sumário da nova CONTINENTE.

Artigo

De Renato Russo para o Brasil de 2020

Nos 60 anos de nascimento do líder da Legião Urbana, repertório lançado há três e quatro décadas atrás permanece assustadoramente atual

TEXTO Débora Nascimento

27 de Março de 2020

O cantor e compositor Renato Russo

O cantor e compositor Renato Russo

Foto Ricardo Junqueira/Cedida por Legião Urbana Produções

[conteúdo exclusivo Continente Online]

O futuro não é mais como era antigamente

(Índios)

Quando a música Índios foi lançada em 1986, eram assustadores, no Brasil, os números da inflação, dos analfabetos, dos mortos por subnutrição... Um ano antes, o político maranhense José Sarney tinha assumido a presidência, após a inesperada morte de Tancredo Neves, que causou uma comoção de desesperança em um país recem-saído de 21 anos de ditadura militar. Em 1985, ano do primeiro Rock in Rio, o rock nacional já desfrutava da liberdade imberbe da reabertura democrática. Todas as principais bandas brasileiras da década já tinham surgido, faziam sucesso, o que significava, na época, tocar em rádio, aparecer na TV, vender uma quantidade considerável de discos e realizar shows frequentes para plateias animadas. Naquele mesmo 1985, despontou de Brasília, e não do preponderante eixo Rio-São Paulo, uma nova banda que se destacou das demais. Não tinha o humor e a leveza da Blitz, Ultraje a Rigor, Os Paralamas do Sucesso, Titãs, Kid Abelha e Barão Vermelho. Trazia, em suas letras, uma temática realista, confessional, menos ensolarada.

O grupo apresentava, em sua formação, um grande trunfo: um letrista com uma capacidade narrativa e poética extraordinária, que levou, para toda aquela festa colorida do rock nacional, letras que encaravam seriamente os problemas políticos e existenciais. Depois do rock brasileiro ter passado pela Jovem Guarda, Tropicália, Mutantes, Raul Seixas e pelas bandas dos anos 1970 e da primeira metade dos anos 1980, agora, com a Legião Urbana, passava a escancarar assuntos como solidão, suicídio, mortes de indígenas, entraves familiares, amores fracassados, bissexualidade, emancipação feminina e problemas políticos. Autor delas, o carioca (que viveu parte de sua juventude em Brasília) Renato Russo possuía o raro dom de traduzir, em estrofes, as principais questões de sua geração. Eram letras pessoais que conseguiam se conectar, de maneira profunda, com seus ouvintes. “Como eu faço letras sempre em primeira pessoa, há uma identidade paradoxal, entre a música e o ouvinte”, avaliou. Sua figura era como a de um amigo um pouco mais velho e sábio da juventude oitentista. Ele tinha 25 anos no ano do lançamento do primeiro álbum da banda.

A chegada de Renato Russo ao cenário musical da década transformou a temática do rock brasileiro. Será coincidência que, a partir de 1986, bandas como Titãs e Paralamas ficaram mais engajadas em questões sociais? Cazuza, em entrevista a Marília Gabriela, revelou: “Quando o Renato Russo pintou, eu fiquei com uma inveja, sabe? Pensei: ‘Esse cara é melhor que eu. Que loucura, ele tá fazendo uma coisa que eu quero fazer’. Aí comecei a compor coisas diferentes. O Bernardo Vilhena chama isso de inveja criativa. Você fica com inveja de um trabalho que é tão bom quanto o teu ou melhor, e você quer fazer melhor, entendeu? E o meu trabalho cresceu tanto a partir dessa inveja, que comecei a fazer coisas diferentes. Saí daquela dor de cotovelo, daquele nhén-nhén-nhén, como diz a Rita Lee. Saí pra uma outra coisa, comecei a ver que o Renato falava muito para a geração dele, e eu pensei: vou falar da minha geração também, eu vou falar do Brasil também”. Em outra ocasião, Cazuza contou ao novo ídolo que escreveu Brasil por causa de Que país é este?

Além do potencial literário, originário não somente da sua sensibilidade, mas do fato de ser um leitor voraz desde criança, Renato Russo era um rockstar diferente. Não era um cara que poderia ser enquadrado dentro dos padrões de beleza, como o “menino do Rio” Cazuza. Era franzino, pálido, relativamente baixo, tinha barba e cabelos cacheados desgrenhados (hoje modinha), usava óculos e emanava aquela aura de CDF ou nerd. Era um autor muito interessado pela história da música pop, sabia de cor datas de lançamentos e a cronologia de fatos musicais. Adorava falar em entrevistas e ser muito engraçado para divertir as pessoas. Sua timidez diante de desconhecidos, no entanto, era vencida pelo ímpeto artístico e a força magnética que assumia no palco. Embora fosse ladeado por Marcelo Bonfá (bateria) e Dado Villa-Lobos (guitarra), dois caras bonitos, o vocalista atraía os olhares dos fãs, que acompanhavam palavra a palavra suas letras, interpretadas com seu vozeirão que trafegava entre o barítono e o tenor.

Mais que um ídolo da música, era uma figura messiânica, uma espécie de profeta musical que dava aos seus seguidores as respostas para as aflições juvenis, fossem fãs ricos, classe média ou pobres – o alcance da Legião Urbana na periferia só pode ser comparado ao que teve a Jovem Guarda. Por conta de toda sua amplitude, a banda se tornou um fenômeno de vendas no Brasil, ao mesmo tempo em que quebrava paradigmas, conseguindo emplacar, nas FMs, composições absolutamente improváveis, como Pais e filhos, que começa falando em suicídio, culmina com o refrão preferido dos fãs, “É preciso amar as pessoas como se não houvesse amanhã”, e termina com o conselho de ouro: “Você culpa seus pais por tudo/ Isso é absurdo /São crianças como você/ O que você vai ser/ quando você crescer (?)”.

Seu maior feito, nesse quesito de hits improváveis, foi conseguir a proeza de tocar nas rádios uma música de nove minutos (!), Faroeste caboclo (lançada em 1987), que sequer tinha um refrão. A narrativa cinematográfica deu origem a um filme em 2013. A propósito, ser cineasta era uma das suas ambições. Ser escritor também. Mas acabou se formando em Jornalismo e trabalhando, por um curto período, na área. Aquela longa composição, feita em estilo de repente (alguma influência de sua mãe pernambucana?), tinha sido composta no período em que ele era o Trovador Solitário, quando tentava imitar o ídolo Bob Dylan. Os Paralamas do Sucessos apadrinharam o tal trovador e fizeram a ponte com a gravadora EMI. Mas ele já chegou com o pacote completo da Legião Urbana, que, na época, incluía o baixista Renato Rocha – por falta de compromisso no estúdio, foi expulso da banda durante as gravações do disco arrasa-quarteirão As quatro estações (1989).

O sucesso estrondoso da Legião Urbana fez com que a banda alcançasse o recorde de 25 milhões de cópias vendidas de sua discografia. No Spotify, é um dos nomes mais ouvidos no ranking brasileiro, entre sertanejos e artistas internacionais do pop. A mais acessada é Tempo perdido, com 73 milhões de audições. Além disso, Renato Russo também teve êxito em seu trabalho solo – que abrange o surpreendente The stonewall celebration concert (1994), com parte da renda da venda de 250 mil cópias revertida para instituições LGBTs, e o álbum em italiano Equilíbrio distante (1995), com venda de 1 milhão de unidades.

O furacão Renato Russo foi tão impactante, que pouca gente se dá conta que durou tão pouco: 11 anos de carreira fonográfica e 36 de vida. Ele morreu em 11 de outubro de 1996, em decorrência da Aids, agravada por uma profunda depressão que o fez abandonar os remédios. Naquele ano, o Brasil já não tinha uma inflação galopante, o Plano Real começava a dar um certo ordenamento nos preços das mercadorias. As questões começavam a ser discutidas mais amplamente. A juventude estava mais organizada, querendo mudar o estado das coisas. Mas Renato não tinha mais forças.

MUITO ATUAL
Vinte e quatro anos após a morte do artista, o Brasil ainda precisa de suas canções, que permanecem atuais, não por ele ter sido um profeta, mas porque o país, de fato, não conseguiu resolver seus problemas estruturais. Não é difícil encontrar semelhanças entre aquele Brasil descrito por ele, há três, quatro décadas atrás, e o de hoje. Ainda temos: imperialismo norte-americano (Geração coca-cola), agricultores mortos (Petróleo do futuro), trabalho escravo (Fábrica), tentativa de instalação de usina nuclear (Angra dos Reis), desrespeito à Constituição (Que país é este?), chacinas de adolescentes negros e indígenas (Mais do mesmo), misoginia (A dança), ataque à soberania nacional (Se fiquei esperando meu amor passar). Teatro dos vampiros, de 1991, retrata nossa realidade atual e parece ter sido lançada nesta semana: “Ninguém vê onde chegamos/ Os assassinos estão livres, nós não estamos/ Vamos sair, mas não temos mais dinheiro/ Os meus amigos todos estão procurando emprego”.

Hoje, neste 27 de março de 2020, ele faria 60 anos e faz muita falta ao Brasil, principalmente à juventude, pois encarnava o tipo raro de artista que gosta de ensinar seu público, porque sabia que havia muitos jovens nas suas plateias: era o porta-voz e o maior influencer de sua geração, o pastor da chamada Religião Urbana. Em um show, realizado três décadas atrás, parecia falar aos brasileiros de 2020. Fez um alerta: “Fascistas são pessoas que não deixam vocês pensarem do jeito que vocês querem. Cuidaaado com esse povo que fala em nome de Deus e quer o seu dinheeeiro... Jesus não cobra ingresso! A Legião cobra!”.

Três décadas depois, o atual presidente do país, que foi eleito usando o slogan “Brasil acima de tudo, Deus acima de todos”, é inimigo das causas negra, LGBT, indígena, defendidas por Renato Russo. O político profere as maiores bizarrices, como pedir, em cadeia nacional de TV, o fim da quarentena para os jovens e o comércio, durante esta gravíssima pandemia do novo coronavírus. Para ele, a economia não pode ser prejudicada. E terminou sua fala desumana, claro, mencionando “Deus”.

Neste mesmo país repleto de falsos profetas, Renato Russo, num passado nem tão distante, era considerado um messias, título que ele recusava. Era o mito daquela época. Se estivesse vivo, provavelmente seria uma dessas pessoas que dizem verdades que precisam ser ditas no Twitter e seria bastante compartilhado – aliás, suas frases podem ser lidas com frequência na internet. Ele, que teve muitos seguidores analógicos, certamente teria muitos virtuais. Mas será que conseguiria tantos como antigamente? Afinal, a música já não tem mais tanto apelo para essa geração, como nos anos 1980 e 1990. Boa parte da juventude brasileira está mais interessada em redes sociais, passinho, bebedeira sertaneja, memes, tretas, jogos e séries.

Três anos antes de partir, o artista escreveu, para o álbum O descobrimento do Brasil, uma letra que disputava com Faroeste caboclo o título de sua obra-prima: Perfeição. Ela parece ter sido escrita hoje, nesta sexta 27. Descreve, estrofe a estrofe, o país que vemos no noticiário e nas redes sociais. Renato Russo, assim como seu personagem João de Santo Cristo, se foi muito cedo e “Não conseguiu o que queria/ Quando veio pra Brasília, com o diabo ter/ Ele queria era falar pro presidente/ Pra ajudar toda essa gente que só faz sofrer”.

Perfeição

Vamos celebrar a estupidez humana
A estupidez de todas as nações
O meu país e sua corja de assassinos
Covardes, estupradores e ladrões
Vamos celebrar a estupidez do povo
Nossa polícia e televisão
Vamos celebrar nosso governo
E nosso Estado, que não é nação
Celebrar a juventude sem escola
As crianças mortas
Celebrar nossa desunião

Vamos celebrar Eros e Thanatos
Persephone e Hades
Vamos celebrar nossa tristeza
Vamos celebrar nossa vaidade

Vamos comemorar como idiotas
A cada fevereiro e feriado
Todos os mortos nas estradas
Os mortos por falta de hospitais
Vamos celebrar nossa justiça
A ganância e a difamação
Vamos celebrar os preconceitos
O voto dos analfabetos
Comemorar a água podre
E todos os impostos
Queimadas, mentiras e sequestros
Nosso castelo de cartas marcadas
O trabalho escravo
Nosso pequeno universo
Toda hipocrisia e toda afetação
Todo roubo e toda a indiferença
Vamos celebrar epidemias
É a festa da torcida campeã

Vamos celebrar a fome
Não ter a quem ouvir
Não se ter a quem amar
Vamos alimentar o que é maldade
Vamos machucar um coração
Vamos celebrar nossa bandeira
Nosso passado de absurdos gloriosos
Tudo o que é gratuito e feio
Tudo que é normal
Vamos cantar juntos o Hino Nacional
A lágrima é verdadeira
Vamos celebrar nossa saudade
E comemorar a nossa solidão

Vamos festejar a inveja
A intolerância e a incompreensão
Vamos festejar a violência
E esquecer a nossa gente
Que trabalhou honestamente a vida inteira
E agora não tem mais direito a nada
Vamos celebrar a aberração
De toda a nossa falta de bom senso
Nosso descaso por educação
Vamos celebrar o horror
De tudo isso com festa, velório e caixão
Está tudo morto e enterrado agora
Já que também podemos celebrar
A estupidez de quem cantou esta canção

Venha, meu coração está com pressa
Quando a esperança está dispersa
Só a verdade me liberta
Chega de maldade e ilusão

Venha, o amor tem sempre a porta aberta
E vem chegando a primavera
Nosso futuro recomeça
Venha, que o que vem é perfeição

Publicidade

veja também

Artistas têm fome

Clarice, essa eterna esfinge

Vem ver o vento que é o verso das poetas do Pajeú

comentários