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Artigo

O Mamam em si mesmo

O Museu de Arte Moderna Aloisio Magalhães completa 20 anos como um dos espaços mais importantes para as artes visuais do Recife, porém com grandes questões existenciais

TEXTO Bárbara Buril

29 de Dezembro de 2017

Detalhe da parte interna do prédio do Mamam, com a instalação da artista Adriana Varejão

Detalhe da parte interna do prédio do Mamam, com a instalação da artista Adriana Varejão

Foto Andréa Rêgo Barros/Arq. PCR

Em 1997, a Galeria Metropolitana de Arte Aloisio Magalhães, criada nos anos 1980 como espaço expositivo da Prefeitura do Recife, ganhava o status de museu e mantinha a sua homenagem ao artista plástico, designer e ativista cultural pernambucano Aloisio Magalhães. Naquele ano, o Mamam abria as portas no edifício histórico onde ainda hoje é a sua casa, com endereço na Rua da Aurora, número 265, no centro do Recife. Em ideia, tratava-se de um empreendimento com grandes pretensões: a galeria que passava a ser o Museu de Arte Moderna Aloisio Magalhães deveria se tornar um centro de referência para as artes visuais em Pernambuco, sintetizando a tradição pictórica do estado e as incursões pelas visualidades contemporâneas. Na época, as artes contemporâneas ferviam no Recife com a ascensão do Manguebeat e do coletivo Molusco Lama, a criação do Instituto de Arte Contemporânea (o IAC, vinculado à UFPE) e as formações promovidas pelo até então Instituto de Cultura da Fundação Joaquim Nabuco, a atual Fundaj.

“O museu foi criado para inserir o Recife no cenário nacional de exposições de grande porte e, com ele, também se incentivava uma produção reflexiva contemporânea”, explica a atual diretora do Mamam, Beth da Matta. A mudança de estatuto de galeria para museu fundamentou a constituição de um vasto acervo. Hoje, mais de 1.100 obras de diversas técnicas, datadas entre 1920 e 2016, integram a coleção. Nela, estão 151 artistas, como João Câmara, Vicente do Rego Monteiro, Vik Muniz, Alex Flemming, Rivane Neuenschwander, Paulo Bruscky e o próprio Aloisio Magalhães.


Mural Cartemas, de Aloisio Magalhães, no hall de entrada do museu.
Foto: Recife Arte Pública/Divulgação


Terceiro e segundo pisos do Mamam, com a expo Tomie Ohtake - Pinturas, gravuras e escultura, 2010. Foto: Reprodução

Em 2017 – 20 anos depois –, a grandeza do acervo e dos papéis assumidos pelo Mamam contrasta com a falta de recursos destinados à manutenção do museu, não só no que se refere à sua estrutura de funcionamento, mas também, e principalmente, àquilo que alimenta o museu de maneira simbólica. Alguns projetos curatoriais vêm evidenciando parte dessas fragilidades nos últimos anos, convidando o público a enxergá-las. Em 2010, por exemplo, após um período de reformas, o Mamam voltou com uma exposição que se propunha a analisar o seu acervo. A mostra contidonãocontido, com curadoria de Clarissa Diniz, Maria do Carmo Nino e do Educativo do Mamam, provocava os visitantes com o seguinte chamado em seu texto de apresentação: “A exposição contidonãocontido é a tentativa de estender a potência – e importância – dessa questão. Para simultaneamente exibir e problematizar a Coleção Mamam, a mostra convida o público a pensar não só as qualidades, mas também os limites e vazios desse acervo: o visitante-pesquisador é convidado a engajar-se numa contínua pesquisa sobre artistas que escapam ao alcance da Coleção”.

Entrava-se em questão, portanto, aquilo que estava “dentro” e “fora” do museu, o que estava “contido” e “não-contido”. Para isso, pastas do acervo eram dispostas ao público, que poderia acrescentar o dossiê de um artista/obra que ali deveria estar, mas não estava. A exposição viveu três recortes curatoriais a cada dois meses, durante os seis nos quais a mostra esteve em cartaz. Além disso, não só o público, mas ainda o Educativo do museu era convocado a pensar a curadoria e refletir sobre o acervo, propondo intervenções nessa história.


Mostra contidonãocontido propunha um olhar para o acervo, em 2010.
Foto: Reprodução


Parece que o caráter metalinguístico de diversas exposições recebidas e promovidas pelo Mamam nos últimos anos denuncia uma certa necessidade, sentida por artistas e pelas pessoas que integram o funcionamento do museu, de repensar o espaço que outrora fora um centro sinérgico de acontecimentos, sobretudo em seu início, quando a circuito de artes visuais da cidade vivia dias mais otimistas. O museu que vive hoje tempos difíceis já recebeu, por exemplo, obras do célebre escultor francês Auguste Rodin em 2000, com um recorde de público de 55 mil visitantes, e alcançou visibilidade nacional durante a gestão de Moacir dos Anjos entre 2001 e 2006, no breve período em que o setor da cultura representava mais do que a cereja do bolo dos investimentos municipais.

***

A despeito das restrições orçamentárias atuais, vê-se que um dos setores que mais resistem no museu é o seu Educativo, dedicado justamente a pensar o espaço em diálogo com o seu público, por meio de um certo movimento metalinguístico bastante produtivo, como se viu na exposição contidonãocontido e como se observa atuamente em ações coordenadas pelos arte-educadores, como o Mamam na Estrada, um projeto de circulação de atividades de arte-educação pelo estado de Pernambuco.

Além disso, é interessante perceber que, hoje em dia, a metalinguagem parece orientar as exposições mais questionadoras promovidas pelo Mamam. Como figura de expressão, ela evidencia que, mais provocativo do que falar de algo, é falar de si mesmo. Denuncia um certo incômodo no próprio existir, que, só a partir de uma retomada para dentro, pode ser aliviado. Quando foi convidado pela diretora Beth da Matta, para realizar alguma exposição sobre o acervo, a história ou a memória do Mamam, no início deste ano, Bruno Faria resolveu retomar “a exposição que não aconteceu”, de Arthur Omar, na sua Onde estão as minhas obras?. O seu projeto inaugurou os 20 anos do Mamam, em janeiro passado.

Como nos conta o artista, em 26 de agosto de 1999, o espaço iria receber a exposição Antropologia da face gloriosa, do artista mineiro Arthur Omar, mas, no dia da abertura, nenhuma obra havia chegado porque a empresa contratada acabou terceirizando o seu trabalho para outra empresa, que, por sua vez, levou todas as obras para Fortaleza. “Quando a gente chegou na abertura da exposição, não tinha obra alguma. Até que, de repente, chega o Arthur Omar todo vestido de preto com um spray. E, então, ele picha na parede, em ato de protesto, a frase: ‘Onde estão as minhas obras?!’ . Foi muito marcante aquele acontecimento”, conta Bruno Faria, que, na ocasião, tinha 16 anos. Assim como aconteceu com Omar, na hora do vernissage da exposição de Bruno, havia público e jornalistas, mas nenhum trabalho. Até que, horas depois, surge uma equipe de cinco homens para derrubar, com martelo, uma falsa parede branca. Por trás dela, o ato deixava à mostra uma reprodução exata da pichação de Arthur Omar, criada por uma restauradora, um designer e dois pichadores. Depois disso, a equipe de museologia do Mamam apareceu com quatro vitrines de documentos da época narrando os detalhes do acontecimento: a indignação de Arthur Omar, os maus lençóis em que ficou o então diretor do museu, Marcus Lontra, os trabalhos que só chegaram cinco dias depois, o escândalo em um cenário das artes ainda muito vivo.


Imagem da instalação-performance Onde estão as minhas obras?, de Bruno Faria.
Foto: Divulgação


“O trabalho que desenvolvi é uma crítica e fala justamente do cuidado e da busca pela preservação de um acervo imaterial, ligado à memória dos acontecimentos. Ele fala muito sobre o Mamam”, explica Bruno Faria, que, para driblar a falta de recursos dedicados às artes visuais através de políticas públicas planejadas, realizou Onde estão as minhas obras? a partir de uma parceria com um colecionador particular, que comprou um dos trabalhos do artista e doou para o Mamam. Com o recurso da venda, Bruno bancou a sua exposição. “Hoje em dia, como artistas, precisamos pensar criativamente de modo que não dependamos tanto de recursos públicos”, defende.

A tarefa de pensar o Mamam, aliás, já tinha sido atribuída anteriormente por Beth da Matta a outros artistas, como Marcelo Silveira e Gentil Porto Filho. Em 2014, Silveira levou ao museu a exposição O guardião das coisas inúteis, na qual “objetos coadjuvantes” do Mamam assumiram o centro da mostra, como cadeiras, ferramentas de iluminação e suportes metálicos. No mesmo ano, Gentil Porto Filho apresentou Entretanto, uma reunião de todas as obras adquiridas pelo museu entre os anos de 2000 e 2001.

Artista, curador e pesquisador, Gentil explica: “Procurei mostrar a capacidade que a instituição teve de formar uma coleção, bem como os critérios implícitos da seleção de obras num dado momento histórico. A exposição convidava o público, assim, a refletir tanto sobre a escolha de linguagens, temas, suportes e artistas, quanto sobre os valores ideológicos e às próprias modalidades de aquisição que dirigiram a formação daquele fragmento do acervo”. Embora tenha sido comissionado para realizar um trabalho de curadoria, ele acabou transformando a exposição em trabalho artístico, devido aos processos criativos envolvidos e ao próprio resultado final. Assim como se via na exposição de Marcelo Silveira, também era possível encontrar “objetos coadjuvantes” na mostra de Gentil, como gaveteiros de metal, utilizados como dispositivos de conservação de certas obras.


Imagem da mostra de Gentil Porto, em 2014. Foto: Divulgação

Nas exposições de Bruno Faria, Gentil Porto Filho, Marcelo Silveira e na mostra contidonãocontido, o que se vê é justamente uma certa necessidade de colocar o próprio museu em pauta – suas aquisições, suas obras esquecidas no acervo, suas fichas catalográficas, sua memória, seu arquivo ainda vivo.

EXPECTATIVAS X REALIDADES
Além da constituição do acervo e da sua função primordial de exibir obras de arte em exposições de médio e grande porte, o Mamam passou a assumir papéis paralelos, algo esperado para uma instituição que busca dialogar com um cenário cultural mais amplo. Por conta disso, o museu acabou cumprindo outras funções importantes, como formar artistas, críticos e curadores; criar e fortalecer uma classe artística; e aprofundar os trabalhos de criadores cujas trajetórias já gozavam de certo amadurecimento. Ao longo dessas duas décadas, o equipamento cultural se constituiu, portanto, como um espaço de encontro entre artistas visuais e outros agentes do circuito, um lugar de formação para jovens estudantes e um centro de convergência entre as produções locais, nacionais e internacionais. Todo esse potencial, contudo, está ameaçado.

O desde sempre demandado elevador de acesso aos pisos superiores do prédio, capaz de tornar o edifício acessível para deficientes físicos e pessoas com dificuldade de locomoção; a capacidade de propor exposições, de reunir a classe artística em Pernambuco, de formar público, de ser um centro de encontro para jovens artistas; a possibilidade básica de ter uma agenda definida antecipadamente e ter recursos para arcar com determinados custos que concedam mais dignidade às parcerias do museu com instituições privadas. Tudo isso evidencia que há, hoje, uma distância entre expectativa e realidade. Vê-se, assim, um descompasso entre o que o museu deveria ser – e o que representa para as artes visuais em Pernambuco –, e o que ele de fato é.

Diego Rocha, atual presidente da Fundação de Cultura do Recife, ressalta: “Equipamento fundamental para a arte contemporânea na capital que protagoniza a região metropolitana mais cosmopolita do Nordeste, o Mamam é considerado pela gestão como um dos mais importantes museus da cidade, com um acervo permanente único e precioso”. Apesar dessa riqueza, não há como negar que há distâncias entre a relevância simbólica e a importância prática dada ao equipamento. Os recursos dedicados à manutenção do Mamam ainda são ínfimos. A agenda de 2018 do museu, por exemplo, só tem programação definida para janeiro/fevereiro, com exposições do fotógrafo Beto Figueiroa e a mostra Manifesto 30 anos do Devotos. A precaridade é evidente e precisamos tomar pé disso.

Atualmente, o Mamam e os demais equipamentos culturais municipais deixaram de estar diretamente vinculados à Secretaria de Cultura do Recife para ficarem sob a administração da Fundação de Cultura do Recife, devido a uma “reestruturação para otimização dos processos e adequação ao momento de crise que o país atravessa”, como justifica o gestor.

Em 2017, estiveram em cartaz no Mamam exposições de Márcio Almeida, José Cláudio, Daniel Santiago e Raul Córdula. A última exposição dos 20 anos, ainda em cartaz, é dedicada a Aloisio Magalhães, em comemoração aos seus 90 anos, também celebrados em 2017. Intitulada Olinda nos quatro cantos do mundo — e no coração de Aloisio Magalhães, a mostra conta com 11 litogravuras do álbum Olinda, produzido em 1981. A mostra, cujas obras fazem parte do acervo do Mamam, também não foge da metalinguagem, ainda quando fala de Olinda. Pelo visto, para superar a sua crise, o Mamam precisará, além de muita metalinguagem, de uma boa dose de recursos, cuidado e atenção.


Fachada do Mamam durante o 47º Salão de Artes Plásticas
de Pernambuco, em 2011/2012. Foto: Reprodução

BÁRBARA BURIL, jornalista e mestre em Filosofia pela UFPE.

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