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Cobertura

“A morte, para nós, é sagrada”

No Burkina Faso, no oeste africano, conversamos com o promotor de artes tradicionais e animador cultural Sié Siriwanè Kambou, do ramo Lobi. Aqui, ele fala sobre os sentidos da vida

TEXTO, TRADUÇÃO E FOTOS LAURA TAMIANA, DE GAOUA

20 de Abril de 2020

Sié Siriwanè Kambou no local da entrevista, na cidade de Gaoua

Sié Siriwanè Kambou no local da entrevista, na cidade de Gaoua

Foto Laura Tamiana

Em março passado, estive no Burkina Faso acompanhando o Festival Internacional dos Patrimônios Imateriais, organizado anualmente, no país africano, pelo contador de histórias burkinabé François Moïse Bamba. A cada edição, o evento se debruça sobre o patrimônio imaterial de uma das 65 etnias do país. Na primeira etapa do festival, artistas convidados e pessoas inscritas para vivenciar essa imersão se deslocam até o local onde vive a etnia homenageada; ao encontro do seu povo.

Este ano foi a vez do ramo Lobi, presente no sudoeste do país. Sié Siriwanè Kambou foi a pessoa responsável pelo festival no local. Organizou toda a programação, com diversas atividades na cidade de Gaoua e, sobretudo, em diversos vilarejos do entorno. Aí, as populações locais nos recebiam com enorme generosidade – certamente em resposta à relação construída por ele ao longo de muitos anos, atuando como promotor das artes tradicionais do seu povo, em estreita conexão com as comunidades.

Sempre em sua moto, e indo à frente para indicar os caminhos, com uma elegância, disponibilidade e tranquilidade peculiares, Siriwanè nos abria as portas de um riquíssimo universo cultural, ao qual dificilmente teríamos acesso sem alguém como ele. No último dia de nossa estadia, depois de uma semana por lá e já sabendo que teríamos que interromper o festival e retornarmos às nossas casas, devido à pandemia do novo coronavírus, pude fazer esta entrevista com ele. Nos fundos do hotel, encontramos uma área de natureza e ali colocamos nossas cadeiras. Aqui, faço uma breve partilha de uma conversa que poderia durar muitos dias.


Em sua moto, Siriwanè nos guia pelos caminhos, à descoberta da cultura do seu povo

CONTINENTE Siriwanè, eu gostaria de começar pedindo para você se apresentar. Dizer de que etnia é, falar do seu trabalho, da vida onde vive, do que faz aqui.
SIÉ SIRIWANÈ KAMBOU Eu sou Kambou Sié Siriwanè. Eu sou Birifor, que faz parte do ramo Lobi. No ramo Lobi, tem muitas etnias. Tem os Lobi, os Dagara, os Birifor, os Gan, os Pougouli, os Djan, os Dôgôssê. Em terras Lobi, toda criança que nasce, de acordo com a ordem do seu nascimento, recebe um nome, um nome de criança. É assim que o meu nome de criança é Sié. Sié é o primeiro filho da sua mãe. Siriwanè é meu nome de iniciação, meu nome de adulto. É assim… Como trabalho, eu faço a promoção cultural da dança tradicional, da música tradicional e um pouco de teatro de sensibilização também. Profissionalmente, eu trabalho com projetos, sou animador cultural. Não sei se isso basta...

CONTINENTE E como se chama sua associação?
SIRIWANÈ Minha associação se chama Associação Tout Pour Tous (Tudo Para Todos). Tudo para todos porque o que a gente faz é do interesse de todo mundo. Todos para tudo também, porque precisamos de todo mundo para fazer o que eu faço, o que a gente faz. É no contexto da mobilização social.


Em um dos vilarejos da região de Gaoua, apresentação de música e dança feita
pelas crianças

CONTINENTE Muito legal! Durante as visitas que fizemos no vilarejo, eu vi como sua relação é de proximidade com as pessoas. A cada vilarejo aonde chegávamos, a gente tinha a impressão de que você era de lá. Como é para você estabelecer essas relações? São pessoas que você já conhecia antes, que conheceu através desse trabalho? Como essa relação humana se estabelece?
SIRIWANÈ Bom, é preciso dizer que é toda uma construção, né? É toda uma construção porque eu trabalho no meio comunitário desde de 1989... Foi, de fato, em 1991 que comecei a entrar em contato com as comunidades. Em 1993, 1994, eu já estava na vida associativa. E, na vida associativa, a gente faz muita coisa, encontra muita gente, nos formam sobre muitas temáticas, até mesmo sobre a abordagem, a abordagem comunitária, e tudo mais. É assim. No contexto das atividades associativas, nós trabalhamos nos vilarejos, fazemos muitas atividades de animação cultural nos vilarejos, fazemos teatro... Isso faz com que eu conheça muitos, muitos vilarejos. E sou muito próximo da comunidade, porque é a minha comunidade. Somos da mesma etnia, eu os considero como meus parentes. Quando vou a um vilarejo, eu penso que, se encontro um homem, ele é meu pai. Se eu encontro uma mulher, ela é minha mãe. Se ela é um pouco mais jovem, é minha irmã. Se ele é mais jovem, é meu irmão, é meu tio, meu sobrinho, minha tia... Eu os considero assim. Então, é isso que faz com que o vínculo se crie ou, em todo caso, seja reforçado. E o fato de que eu tenha trabalhado muito junto às comunidades faz com que eu tenha a abordagem, então, se eu vou a um vilarejo, mesmo se eu nunca tenha estado lá antes, eu sei por qual porta entrar e como me aproximar deles para criar uma conexão.

CONTINENTE Uma grande família! 
SIRIWANÈ Sim!

CONTINENTE Você me falou um pouco quando nos conhecemos, e eu acabei tendo a oportunidade de ver e vivenciar um pouco também, sobre a relação de vocês, forte, com os funerais; a maneira com vocês veem a morte e fazem os funerais... Gostaria que me falasse um pouco mais sobre isso. Então, como é que vocês do ramo Lobi veem a morte?
SIRIWANÈ Bem, a morte para nós é sagrada. Sabemos que, quando nascemos, a gente deve viver e necessariamente deve morrer. Mas, para os Lobi, a morte natural é a morte das pessoas de bastante idade. Se você nasce, você deve viver até envelhecer para poder morrer. Se você morre antes desse tempo, é que você infringiu as regras da vida, infringiu as leis estabelecidas pela sociedade e também pelas almas. Porque nós acreditamos muito na alma, acreditamos nos nossos parentes que não estão aqui mais, mas, para nós, eles continuam a estar, eles vivem aqui conosco, de uma outra maneira. E temos a obrigação de respeitá-los, então é isso que faz com que, quando alguém morre, a família fique realmente triste, em função da situação da morte. Se é uma pessoa já velha, não tem problema, nesse caso se torna como uma festa, porque consideramos que é um retorno para junto dos ancestrais. Aí não tem problema. Mas se é uma morte por acidente, por mordida de serpente, enfim, uma morte qualquer, nós interrogamos o corpo. Antes de partir, é preciso que você diga aos que ficam em vida o que foi que te matou. Alguns revelam, alguns dizem por que foram mortos. Outros não revelam, mas, através das consultas, conseguimos saber de que morte eles morreram. É por isso que nos mantemos conectados à nossa cultura, à nossa tradição, é o que dá sentido à nossa vida. Você deve ter visto no vilarejo, quando alguém falece, nós o exibimos. Antes, a gente colocava o corpo numa esteira, a gente amarrava e carregava acima da cabeça, para caminhar por todo o local dos funerais, para perguntar ao corpo se aquele que causou sua morte ainda está presente lá.


Descobrindo a música e a dança dos povos do ramo Lobi


Entrada de um mercado ao ar livre em um dos vilarejos Lobi

CONTINENTE No Museu do Poni, aqui em Gaoua, nos mostraram uma foto de uma criança com os cabelos trançados, como dreads, e nos explicaram que isso era feito quando a mãe morria deixando a criança pequena, como uma forma de proteger a criança para que a alma da mãe não quisesse buscá-la...
SIRIWANÈ Sim... E uma mulher que morre deixando seu bebê, é preciso interrogar o corpo durante os funerais para saber a quem podemos entregar o bebê, para que ele sobreviva. Se interroga o corpo para que ele mostre qual a mulher que vai poder cuidar do seu bebê.

CONTINENTE Eu ouvi que, para os Lobi, quando alguém morre, ele atravessa o rio. O que isso simboliza?
SIRIWANÈ Para os Lobi, quando a gente morre, a gente atravessa o rio para retornar aos ancestrais. É o rio que nossos ancestrais tiveram que atravessar para vir se instalar aqui nessas terras. E os canoeiros que ficam no rio ajudam a atravessar as almas. Às vezes, eles vêm avisar que alguma alma não está conseguindo atravessar... Quando isso acontece, a gente precisa consultar e fazer os sacrifícios necessários.

CONTINENTE Você falou que, quando a pessoa morre e é mais velha, é como uma festa. Eu vi que os funerais têm muita música e dança. E quando a pessoa é jovem?
SIRIWANÈ Quando a pessoa é jovem, são os jovens da sua geração que podem vir para se manifestar uma última vez. Porque pelo fato de ela ser jovem, eles provavelmente faziam coisas juntos, talvez fossem plantar juntos, dançar juntos, talvez fossem à feira, aprendessem a dançar juntos, fizessem muitas coisas... Então, eles vêm para fazer isso tudo uma última vez com o defunto, porque não vão vê-lo mais; eles vêm para dizer adeus, para fazer isso. Mas sempre na dor, nesse caso, porque a pessoa é jovem e nós pensamos que não era seu momento de morrer. Eu, que estou aqui atualmente, se eu morrer com a minha idade, não é normal. Porque eu devo envelhecer. E se eu seguir as regras tradicionais e tudo mais, não tem razão para que isso aconteça. Na nossa tradição, nós reconhecemos Deus também. Tradicionalmente é Deus primeiro, seu papai, sua mamãe e a sua pessoa em si. Você vai honrar Deus, vai honrar seu pai, sua mãe e a sua pessoa também é sagrada para você. Nesse sagrado, tem a sua dignidade, que você deve respeitar, que você deve salvar. E é assim que você não vai roubar, não vai matar... É por respeitar sua própria dignidade.


Garoto nos presenteia com um fruto de baobá

LAURA TAMIANA é artista, produtora cultural e terapeuta.

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