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Curtas

A 'Estesia' de Cida Pedrosa

Em meio à pandemia, pernambucana publica seu décimo livro, que foi alvo de ataques da extrema direita

TEXTO Augusto Tenório

15 de Setembro de 2020

Cida Pedrosa lança seu décimo livro, 'Estesia'

Cida Pedrosa lança seu décimo livro, 'Estesia'

Foto Andrea Rego Barros / Divulgação

[Conteúdo exclusivo Continente Online]

A contemplação ocupa um espaço diferente na vida de Cida Pedrosa. Natural de Bodocó, deixou o interior Pernambucano no final da década de 1970, aos 14 anos, e partiu rumo ao Recife para estudar. Ao chegar na capital pernambucana, trouxe consigo o hábito de contemplar, de forma que locais como as pontes que cruzam o Rio Capibaribe se tornaram lugares de observação. Das paisagens da cidade colheu seus primeiros poemas até se reconhecer como poeta. Décadas depois, durante a pandemia do novo coronavírus, ela fez dos seus passeios diários com o cachorro Bob Marley um momento de observação da metrópole que dormia. Agora, seus escritos e fotografias que registram este momento singular dão forma à Estesia, seu décimo livro. O lançamento, porém, foi alvo de ataques tipo zoombombing (invasão de eventos virtuais), organizados pela extrema direita.

A obra, até o momento disponível somente em versão digital (e-book), reúne 40 haikais, que são acompanhados, cada um, por uma fotografia. Inicialmente, o projeto tomou forma no Facebook de Cida. Ao acompanhar o engajamento das publicações, percebeu que os poemas curtos e suas fotografias poderiam dar vida a um novo título. Das 40 imagens, nove foram tiradas em seu apartamento. O restante mostra o abandono, o vazio e a vida que se transforma no microcosmo urbano existente no raio de 2km e meio da residência da poeta, que fica no bairro das Graças, Zona Norte do Recife.

“Eu tinha me afastado do meu emprego na Secretaria da Mulher e me encontrei meio estabanada. Acho que é normal após sair de um trabalho para o qual dedicava cerca de 15 horas diárias e, do nada, ficar parada em casa, vendo notícias de morte. Em paralelo, estava lendo um livro de haikai, que eu amo, pois sou apaixonada por poema metrificado. Mesmo assim, tive que sair para passear com meu cachorro, Bob Marley, que não consegue fazer suas necessidades em casa. Quando saí, encontrei uma cidade parada. Então o livro é o meu olhar sobre a cidade e suas felicidades e tristezas”, comenta Cida Pedrosa.

Bicicletas voam
Na cidade que não vê.
Dor no app.

O verso acima é acompanhado por uma fotografia despretensiosa — como todas do livro — que mostra dois entregadores de aplicativo descansando em uma calçada. Antes, também causa espanto a fotografia de um casal dormindo na rua.  “Quando saí, foi isso o que encontrei na rua. Muita gente com fome, muitos entregadores fazendo corridas para os apps e uma cidade paralisada. Na Rosa e Silva, tinha uma igreja vazia e sinal de trânsito que, quando esverdeia para o pedestre, ninguém atravessava. Ao mesmo tempo, comecei a ver pássaros, lagartixas e flores. É uma cidade que começou a renascer com o afastamento dos homens. Na calçada da Rua Amélia, encontrei um formigueiro, o que era impossível em outros tempos. Isso foi me espantando. Comecei olhando pro chão, depois para minha altura e, por último, para o que estava acima de mim”.

Questionada sobre a origem do seu hábito de contemplar os detalhes da cidade, Cida Pedrosa recorda de quando chegou ao Recife e ficava nas pontes, “abestalhada”, como ela se descreve, observando o Rio Capibaribe passar. Ela conta que o hábito foi trazido consigo do interior, onde as pessoas costumam dedicar-se mais à contemplação dos seus arredores. “Mas teve um momento, por volta dos meus 30 anos, que a cidade me engoliu. Eu não continuava contemplando no meu dia a dia. Nesse momento de pandemia, eu vi que precisava voltar a contemplar a cidade, pois eu passei a funcionar no automático, como muitos. Minha literatura rompe com esse estado automático e tem muito a ver com o Recife, uma cidade que está impregnada na minha alma. Por isso eu não quero somente contemplar a dor, quero contemplar o belo também. As geografias estão fortes na minha poesia, pois eu sou de territorializar muito. Tem poeta que viaja pra dentro, eu viajo para fora”.

O lançamento do livro foi realizado, assim como tantos outros eventos neste ano, através de um encontro virtual. Cida não imaginava, porém, que seria alvo de invasores virtuais de extrema direita. É que, além de poeta, cida é feminista e pré-candidata à vereadora do Recife pelo PCdoB, o que a coloca com o perfil dos alvos favoritos dos ataques tipo zoombombing, que têm “sequestrado” lives de mulheres de esquerda que concorrem a cargos públicos. Invasões semelhantes ocorreram, por exemplo, no fórum La Política es Cosa de Mujeres e com Giovana Mondardo, pré-candidata a vereadora na cidade de Criciúma (SC) pelo PCdoB.

“A reunião começou e eles já estavam dentro da sala. É que eu divulguei o link, pois acredito que os lançamentos de livros devam ser públicos. Depois eles conseguiram desligar meu microfone e o dos coordenadores. Começaram a gritar palavras de ordem, colocar sons de metralha, conseguiram remover o vídeo da campanha, gritavam pelo presidente Bolsonaro e ainda tocaram músicas do Exército. Tinha uma mulher com eles e eu consegui falar pra ela: ‘teu lugar não é ai, é aqui, do lado de cá'. Depois disso ela parou… Fiquei feliz com esse momento de esperança numa situação adversa. A gente criou uma alternativa em um outro link para os palestrantes, de forma a exibir o debate pelo YouTube”, conta a poeta.

Em tempo, a renda obtida com com a venda do e-book, que é feita exclusivamente através da Amazon, será destinada para a União Brasileira de Mulheres, entidade feminista do movimento social brasileiro que atua na promoção e defesa dos direitos das mulheres, para fomentar a campanha “distribua amor, doe alimentos”.

AUGUSTO TENÓRIO, jornalista.

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