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Curtas

A menstruação de Valter Hugo Mãe

Carla Diacov publica série de poemas que pulsam segundo vivências pessoais, pinturas e leituras do escritor português

TEXTO Erika Muniz

01 de Julho de 2020

Carla Diacov

Carla Diacov

Foto Acervo pessoal

[conteúdo na íntegra | ed. 235 | julho de 2020]

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Desde sua capa encarnada, intensos estímulos surgem ao primeiro contato com a edição brasileira de A menstruação de Valter Hugo Mãe (Macondo, 2020), de Carla Diacov. Alerta, alento e aconchego são alguns dos estados que experimentamos diante daquele vermelho vibrante. No interior do livro, textos dividem as páginas com pinturas feitas pela própria autora, utilizando seu sangue menstrual sobre papel canson. Embora estejamos falando de um livro de poemas, começar pela potência que essas imagens rubras e vigorosas apresentam poderia soar pretensioso. Para a poeta, no entanto, trabalhos manuais costumam servir de pontos de partida para sua escrita. Justamente desses desenhos que ilustram o livro é que nasceram os poemas que o compõem.

“Acho incrível, de outro mundo mesmo, o que se pode fazer com linha e agulha! Tenho artes com folhas, pétalas, fotografias de fotografias mergulhadas em líquidos. Tenho muito material que não rendeu texto. Bem, rendeu prazer. Gosto de desenhar com nanquim, tintas a óleo, sangue e sangue menstrual. Com a menstruação, reproduzo algumas imagens que aparecem pela poesia, mas, na maioria das vezes, e também por motivos técnicos (oxidação), deixo a intuição guiar minhas mãos”, conta a artista, por e-mail.

As pinturas, aliás, parecem alinhavar os outros modos que ela se expressa artisticamente. Começou a pintar quando ainda estudava na Escola de Teatro de Londrina (PR). Atualmente, vive em sua cidade natal, São Bernardo do Campo (SP).


Em seu livro de poemas, Carla Diacov faz desenhos utilizando seu sangue menstrual. Imagem: Divulgação

Essa é a terceira vez que Carla publica pela Macondo, editora de Juiz de Fora (MG), pela qual havia lançado A metáfora mais gentil do mundo (2015) e Amanhã alguém morre no samba (2016). No catálogo da editora mineira também estão outros nomes da poesia contemporânea brasileira que merecem atenção, como Natasha Félix (SP), Adelaide Ivánova (PE), Tatiana Pequeno (RJ) e Ana Guadalupe (PR), para citar alguns.

Os 19 poemas de A menstruação de Valter Hugo Mãe foram escritos entre julho e agosto de 2017, “num inverno competente” de Itanhaém, litoral sul paulista. A partir do convite do escritor português – que, não por acaso, empresta seu nome ao título – para que ela publicasse alguns de seus inéditos pelas edições Casa Mãe, projeto que ele organiza. Por isso, o livro saiu primeiramente em terras lusitanas e, no primeiro semestre deste ano, chegou ao Brasil, com os cuidados de Otávio Campos, editor, que também assina o projeto gráfico.

Os textos evidenciam um período em que a poeta estava fortemente influenciada pelos caminhos que suas pinturas a levavam e também pelas leituras das obras Filho de mil homens (2011) e Homens imprudentemente poéticos (2017), ambos de autoria do escritor português. “Passei por questionamentos femininos, feministas, questões sobre minha pouca saúde emocional e a ligação que ‘invariavelmente’ é feita entre loucura e fertilidade etc. Bem, durante o processo da feitura do livro pude me responder, me reafirmar, me localizar, dar nomes a umas raízes dolorosas. Isso tudo não está explicitado no livro e nem deveria estar. É, sobretudo, um livro de poesias”, comenta.

Um livro de poesias, sim, porém A menstruação de Valter Hugo Mãe não se trata de um simples livro. São poemas prenhes de camadas, assim como as aquarelas de sangue. Ora essas superfícies apresentam-se mais profundas, ora mais epidérmicas. Há dores que atravessam a vida de muitas mulheres, por ali, mas de maneiras bastante distintas. E o modo como as palavras, seus sentidos e as normatizações linguísticas se embaralham acabam diluindo o que se espera socialmente de uma mulher.


Capa do livro de poemas A menstruação de Valter Hugo Mãe. Imagem: Divulgação

“Tem um tanto de ancestralidade nessas dores”, complementa Diacov. Nenhum dos poemas tem títulos ou estrofes bem-definidas, o que evidencia essa espécie de não determinação sugerida. Ao serem intitulados, classificações e catalogações poderiam vir junto e é justo o contrário do que se propõe.

a vênus de willendorf tem
a capacidade aberta e usada desde sempre
especialistas dizem
a vênus de willendorf
era usada em ritos de fertilidade
pequena usável

Cada um dos textos convoca seus referenciais, por assim dizer, mas sempre propondo novos olhares acerca de construções preestabelecidas, sejam elas sociais, semânticas, discursivas. Dedicado a Isaura, personagem de Filho de mil homens, de V. H. M., o poema que abre traz a Vênus de Willendorf como seu elemento central. Pequenina, volumosa, vermelha e cheia de mistérios, é um símbolo feminino encontrado no início do século passado. Porém, até então, a racionalidade científica não deu conta de definir os seus usos. Passeando pelos diversos períodos históricos, o texto elenca algumas das tentativas de defini-la. O que parece ser a única afirmação possível é a do último verso: “a vênus de willendorf jamais deixou de ser usada”. De que modo as mulheres vêm sendo usadas ao longo dos tempos? Mais ainda, como elas persistem em resistir? “É por aqui que falo todas as vezes/ da mulher que me pretende catalogada mulher”. Eis a poesia, então, como um dos caminhos para pensarmos.

ERIKA MUNIZ, jornalista e graduada em Letras.

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