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Curtas

As Bahias e a Cozinha Mineira

Trio indicado ao Grammy Latino, na categoria de Melhor Álbum de Pop Contemporâneo em Língua Portuguesa, está na programação do 'Janeiro de Grandes Espetáculos'

TEXTO Thaís Schio

02 de Janeiro de 2020

Assucena, Rafael e Raquel integram o grupo, formado em 2011

Assucena, Rafael e Raquel integram o grupo, formado em 2011

Foto JR Franch/Divulgação

[conteúdo na íntegra | ed. 229 | janeiro de 2020]

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Durante a ditadura militar, tinha início no Brasil um movimento cultural cuja revolução estética e comportamental viria influenciar várias gerações, até os dias atuais. Seu álbum-manifesto Tropicalia ou Panis et circencis, lançado há mais de 50 anos, configurava-se como marco inicial dessa movimentação tropicalista, que vislumbrava a visão do país além dos estereótipos estéticos e da separação entre guitarras elétricas e música popular.

Entre os rostos que “passeavam na floresta escondida” e posavam para a capa do disco, registrada pelo fotógrafo Oliver Perroy, estava o da baiana Gal Costa. Em sua interpretação, canções como Baby e Mamãe, coragem seriam imortalizadas e, logo, a Musa da Tropicália se tornaria também uma “escola de interpretação e de escolhas corajosas” para diversos artistas contemporâneos.

Assim aconteceu com As Bahias e a Cozinha Mineira, não somente pela voz doce e voraz de Gal, mas pelo “divino maravilhoso” de ser, como disse Paulo Leminski, “exatamente o que se é”. Com apresentação confirmada na programação do 26º Janeiro de Grandes Espetáculos, que acontece de 8 de janeiro a 3 de fevereiro, o grupo musical formado por Assucena Assucena, Raquel Virginia e Rafael Acerbi desembarca na capital pernambucana após um ano de intensas movimentações.

Além de ter assinado contrato com a Universal Music, lançado o terceiro álbum de estúdio Tarântula (2019) e estreado no Rock in Rio, o trio foi indicado ao Grammy Latino, na categoria de Melhor Álbum de Pop Contemporâneo em Língua Portuguesa, sendo a primeira vez que mulheres trans, junto a Liniker (indicada a Melhor Álbum de Rock em Língua Portuguesa), ocupam essa posição.

A paixão pela discografia de Gal Costa, especialmente durante o período que compreende Domingo (1967), álbum com fortes influências de João Gilberto, até Baby Gal (1983), nos últimos anos de regime militar, não foi o único elemento em comum aos integrantes do grupo.

O próprio nome As Bahias e a Cozinha Mineira indica as coincidências que marcaram esse encontro, como explicou Assucena, em entrevista à Continente: “Sou baiana de Vitória da Conquista, Rafa é mineiro, Raquel é paulista, mas morou dois anos na Bahia para estudar Jornalismo e ser cantora de axé. No retorno a São Paulo, volta com influência baiana muito forte, tanto cultural, quanto de sotaque, e ganha o apelido de ‘bahia’, assim como eu”.

A convergência do trio aconteceu no curso de História da Universidade de São Paulo, onde se conheceram e formaram, em 2011, uma banda em homenagem a Amy Winehouse. Tempo depois, graças à química e às descobertas artísticas, As Bahias e a Cozinha Mineira teceram uma identidade heterogênea. A breve discografia flutua entre sonoridades como baião, ijexá, samba e rock em Mulher (2015), adquirindo pequenas injeções de música eletrônica dentro do universo pop de Bixa (2017), até chegar à mais comercial Tarântula (2019).

Além da Tropicália, do sertão de Assucena (também de Glauber Rocha, como faz questão de lembrar, em diversas entrevistas) e do axé de Raquel, a cozinha mineira, representada por Rafael, nascido em Poços de Caldas, traz o Clube da Esquina para o amplo repertório das Bahias. Soando autêntico e inovador, como também acontecia no movimento “liderado” por Milton Nascimento, mas indissociável de Fernando Brant, Lô Borges, Toninho Horta, entre tantos outros expoentes.



O último álbum de As Bahias e a Cozinha Mineira carrega um forte simbolismo. “Tarântula é uma palavra muito bonita, musical e sonora. Só que, além disso, carrega historicamente um sentido muito violento para a comunidade LGBT brasileira. Em 1987, a polícia militar institucionaliza uma perseguição sistemática à comunidade, com pretexto de controlar o vírus HIV. Muitas travestis, homossexuais e lésbicas morrem nesse período, no fim da ditadura militar. Essa violência já acontecia, mas a questão é que havia sido autorizada pelo Estado. Então, tivemos a ideia de rememorar seu significado e nos reapropriarmos desse conceito”.

Em seu processo de composição, a banda não elege uma única inspiração, como conta Assucena: “Eu olho para a vida, para o cotidiano, para as minhas qualidades, defeitos, relações sociais e contexto político. A inspiração se relaciona com meu estado de espírito e humor”. Nesse sentido, As Bahias e cozinha mineira é política simplesmente pelo fato de ocupar espaços e cantar sobre afetos historicamente negados para corpos transexuais, e tantas outras minorias sociais.

MAIS DE 100 ATRAÇÕES
Além do grupo, a baiana Belô Velloso e a pernambucana Alessandra Leão também passam pelo palco do festival, cuja grade de programação é composta por mais de 100 atrações. A 26ª edição do Janeiro de Grandes Espetáculos acontecerá em teatros espalhados pelo Recife e em mais seis cidades pernambucanas. Neste ano, apesar da música e da dança terem conquistado mais espaço, o “carro-chefe” do festival continua sendo as artes cênicas.

Entre os destaques está o projeto Trilogia Vermelha, desenvolvido pelo Coletivo Grão Comum. Nele, três espetáculos colocam em cena personalidades nordestinas que tiveram papel imensurável na História. A primeira é h(EU)stória – O tempo em transe, sobre o cineasta Glauber Rocha, pa(IDEIA) – Pedagogia da libertação, sobre Paulo Freire, e Pro(FÉ)ta – O bispo do povo, sobre Dom Helder Câmara. Para conferir todas as atrações, acesse o site www.janeirodegrandesespetaculos.com.

THAÍS SCHIO é jornalista em formação pela Universidade Católica de Pernambuco e estagiária da Continente.

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