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Curtas

Chama

Projeto idealizado pela artista Ana Lira atenta aos valores culturais negrodescendentes, afro-ameríndios e ‘ameafricanos’, com ações em diferentes linguagens diaspóricas para a ‘Bienal 12'

TEXTO Taynã Olimpia

26 de Maio de 2020

No projeto multiplataforma, Ana Lira (última à dir.) convida Marta Supernova, Suelen Mesmo e Ola Elhassan (esq. para dir.)

No projeto multiplataforma, Ana Lira (última à dir.) convida Marta Supernova, Suelen Mesmo e Ola Elhassan (esq. para dir.)

Imagem Divulgação

[conteúdo exclusivo Continente Online]

O novo
coronavírus chegou sem avisar. Cancelou planos, encontros, conexões. Nos trancou em casa, nos despiu de liberdade. A cultura foi a primeira afetada e deve ser a última a voltar, por ter geralmente como premissa a reunião de pessoas num mesmo espaço. Eventos foram cancelados, adiados, transferidos para meios digitais. Cada um buscando uma brecha de permanência sob o manto das medidas de segurança recomendadas pelos órgãos competentes de saúde. A Bienal de Artes Visuais do Mercosul, exposição internacional que acontece desde 1997 e já é parte do calendário cultural de Porto Alegre, também sentiu os efeitos colaterais da pandemia. Com mostra presencial adiada, agora a Bienal 12 é online. “Uma plataforma em processo, que seguirá crescendo com novas obras e proposições”, eis o mote da edição deste ano.

No site da bienal, encontramos uma série de trabalhos produzidos por artistas de diferentes nacionalidades. Além de proposições reflexivas com estímulo à interatividade, como a consulta “Quantas artistas mulheres você conhece?”, que nos convoca a listar nomes de mulheres artistas e a identificar quais delas não são brancas ou cis. Essa fisgada na nossa consciência relembra ao público o tema escolhido para este ano: Feminino(s). visualidades, ações e afetos. E não há como falar da diversidade do feminino na arte sem incluir as mulheres pretas. 

Ana Lira é uma delas. Desde 2017, a pesquisadora e artista visual semeia o projeto CHAMA, que este ano é um dos convidados da Bienal 12. Como o próprio nome do projeto anuncia, ela convida outras mulheres para construírem, juntas, a iniciativa. Baseada no Recife, Ana desenvolveu seu arcabouço sonoro sob influências do maracatu, do frevo e dos blocos carnavalescos, essas expressões tão pernambucanas, capazes de infiltrar até nos corpos mais alheios às festividades. Ao atestar a interferência do cenário na construção musical, seu olhar passou a transitar pelos bastidores do fazer artístico. E, ao investigar, ficou em evidência a importância de entender quais seriam as influências, origens e interferências do meio e das pessoas no resultado final de um produto cultural.


A artista Ana Lira é a idealizadora do projeto CHAMA. Foto: Jaime Quinones.

Desenvolvendo a pesquisa, emergiram questões de como a linguagem pode invisibilizar e oprimir um povo. A leitura do texto da escritora e pesquisadora Denise Ferreira da Silva, o "Sobre diferença sem separabilidade", serviu como base para escancarar as engrenagens de exclusão criadas na modernidade. “O pensamento moderno construiu uma gramática da exclusão muito competente. Sempre atribuiu a quem ele acha perigoso uma série de palavras e vocabulários que fazem com que tal país, cultura ou povo deixe de ser entendido como digno. E, dentro dessa dinâmica, existe quase uma autorização para se excluir e dizimar esse povo, essa cultura e essas pessoas”, explica Ana, em entrevista à Continente

Foi se aprofundando nesse debate que a artista plantou a primeira semente do CHAMA. “O objetivo é abrir uma conversa sobre como as poéticas da diáspora migraram para diversos lugares do mundo e encaminharam seus códigos por meio das diversas expressões criativas dos povos sobreviventes ao tráfico escravagista.”

O PROJETO
Passando por lapidações ao longo dos anos, o escopo do projeto atualmente comporta uma série de atividades multiplataformas. Mas sempre baseadas na premissa de trafegar sobre o tema das poéticas da diáspora negrodescendente, afro-ameríndia e ameafricana (africana das Américas) – e também de promover assentamento dessas produções artísticas com valorização da sua forma original, sem traduções ou adaptações engessadas. Para garantir representação mais fidedigna desses trajetos, foi preciso caminhar, de ouvidos e olhos abertos, pelos diferentes assentamentos da diáspora do Brasil e do exterior. A começar pelo sudeste brasileiro, de onde a DJ Marta Supernova, uma das convidadas do CHAMA, cresceu e construiu seu repertório permeado pela ritmação do samba do Rio de Janeiro. 


A DJ Marta Supernova é a primeira convidada do CHAMA.
Foto: Divulgação

Por meio do workshop Reverbe, realizado em março, pouco antes da quarentena se instaurar, Ana e Marta reuniram artistas negrodescendentes, afro-ameríndies e ameafricanes para trocar experiências sobre criação, articulação e compartilhamento de produções culturais, valorizando sempre a ligação com as origens do processo criativo. 

A segunda iniciativa, desta vez em plataforma online, foi a estreia do programa da rádio CHAMA. Os episódios, já disponíveis em streaming, são para quem quer aprender a escutar além de uma seleção musical. Neles, através das entrevistas e da pesquisa musical presentes, ouvimos as entrelinhas dos versos e o silêncio audível entre uma batida e outra.

O episódio de estreia traz outra vez a DJ carioca Marta, cujos sets são montados a partir do seu diálogo com o público. "É relevante construir essa noção de diáspora como algo constante e unificadora de muitas ideias, movimentos estéticos, trabalhos e economias. É positivo estarmos na Bienal 12, pois é um espaço interessante para legitimar a nossa estrutura de trabalho", ela pontua à Continente. O programa com sua participação é o precursor de uma série que pretende se estender além da Bienal 12, oportunizando a partilha de saberes das mulheres artistas da diáspora do país – como a próxima convidada confirmada, a DJ Libra, do Recife.

Os programas estão disponíveis em streaming gratuito na plataforma Mixcloud. Imagem: Reprodução

Já de Porto Alegre, onde ainda se pergunta “tem preto no Sul?”, a DJ Suelen Mesmo vem responder que sim. Ela é a segunda convidada da rádio online e compartilha a sua resistência como artista negra numa região onde pretos e pretas são deslegitimados nas várias esferas, inclusive nas artes. Com seus sets funcionando como narrativas, ela carrega mensagens sobre a existência da negritude para o ambiente da pista: “Nossa existência já é uma luta o tempo todo. Logo, quando tu consegues se divertir e refletir sobre essas questões, tu te empodera”, declara Suelen, em conversa com a Continente. Sua atuação política como DJ é fortificada pela sua participação, há mais de três anos, no coletivo Turmalina, reunido em resposta à invisibilização, ao tradicionalismo e ao racismo do seu estado – o propósito do grupo é promover as produções musicais do povo negro sem passar pelo olho branco de avaliação.


DJ Suelen Mesmo (à esq., de óculos de sol) e o coletivo Turmalina.
Foto: Fábio Alt/Divulgação

Cada episódio do programa radiofônico recebe como título um verso escrito por Ana Lira. Essa é uma deixa para mais um desdobramento do CHAMA: a poesia. Dividindo a escrita com Ola Elhassan, poeta sudanesa residente em Londres, poemas sobre as dinâmicas de migração estão sendo produzidos em quatro línguas diferentes. A intenção é criar uma instalação sonora, quando a Bienal 12 puder efetivamente abrir as portas, com a leitura interpretativa dos poemas, sem tradução, para os ouvintes sentirem, de diversas formas, o poder de atravessamento das sonoridades. 

Uma série de outras atividades presenciais ainda estão adormecidas na espera da era pós-pandemia. Por enquanto, a arte vem nos resgatar, funcionando como ferramenta de escape, uma brecha para além muros. “Cada rasgo no horizonte avis(t)a um sinal de liberdade”, anuncia Ana Lira em verso. Ao sermos invadidos pelas sonoridades propostas pelo CHAMA, somos transportados para o trajeto daqueles e daquelas que, num passado ainda presente, construíram as músicas e poéticas da diáspora ao deixarem suas moradas, forçadamente ou em busca de oportunidades, para se assentar em outros locais – muitas vezes carregando pouco, ou nada, mas sem abrir mão da bagagem cultural dos seus povos de origem. Seus caminhos avançam fronteiras e continentes. Só no Brasil, os efeitos e nuances desse fenômeno são inúmeros, plurais e em constante expansão.

O mosaico dessas criações feito pelo projeto CHAMA é a reafirmação desses povos. É o entendimento de que não é necessário gerar arte sob os moldes de produção dos colonizadores. Não é preciso soar “artístico”, quando esse “artístico” é definido por hegemonias racistas. “Precisamos pontuar um local de reconquista a partir de nossas próprias formas e vocabulários. Não devemos olhar para uma obra de arte sem ser feita uma conexão com o contexto. Pois é nesse contexto de produção onde toda a potência está localizada”, resume Ana. 

É a oportunidade de reconhecer as diversas narrativas. Um convite para acender a chama.

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Extra:
Programa de rádio Todo mundo cogita, de Marta Supernova e Jéssica Senra.

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TAYNÃ OLIMPIA é jornalista em formação pela UFPE e estagiária da Continente.

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