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Curtas

Ouro do meu peito

Disco de Sérgio Magalhães passeia por temáticas como os encontros e desencontros do amor, além de refletir sobre a importância do samba na vida de quem o vive intensamente

TEXTO Erika Muniz

01 de Janeiro de 2019

O músico Sérgio Magalhães

O músico Sérgio Magalhães

Foto Guto Martins/Divulgação

[conteúdo na íntegra | ed. 217 | janeiro de 2019]

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Na fotografia de Ouro do meu peito, álbum de estreia de Sérgio Magalhães, a camisa estampada, os colares de contas simbolizando os orixás e a mão ancorada no peito aludem a três elementos fortes para o artista: o samba, a religiosidade e sua profissão de origem, que é de mestre de obras. Nascido e criado na Baixada Fluminense, vive em Brasília há quase 20 anos. Por isso diz ter o coração dividido entre as duas cidades. Enquanto o Rio de Janeiro lhe deu régua e compasso e é onde os laços familiares vibram, a capital federal, por sua vez, abraçou-o, trouxe tranquilidade e o presenteou com vários amigos relacionados à música, inclusive, o violonista Fernando César, que assina a produção e direção musical desse disco.

Com 13 faixas de composições autorais, Ouro do meu peito passeia por temáticas como os encontros e desencontros do amor, reflexões sobre a importância do samba na vida de quem o vive intensamente e uma homenagem a seus companheiros da construção civil, na canção Todo tempo é pouco. Dono de uma voz marcante, característica de quem carrega o samba no próprio timbre, Sérgio Magalhães demonstra total familiaridade com o ritmo brasileiro, mas também com outro gênero bem nosso, o choro. Em conversa com a Continente, ele diz ter um processo de composição bastante intuitivo, o que relembra as vivências das rodas de samba na Baixada. Tudo isso foi sendo aperfeiçoado em aulas de canto e de percepção musical na Escola de Música de Brasília, onde conheceu o musicista Jaime Ernest Dias. O amigo o apresentou a figuras que compunham a cena musical da cidade.

Herdeiro do veio musical, Vinícius Magalhães, filho de Sérgio, participa como violonista sete cordas e arranjador desse álbum da carreira do pai, aliás, tanto as cordas como a sensibilidade apresentada pela percussão chamam a atenção, sobretudo pelas estruturas harmônicas sofisticadas e melodias trabalhadas. Outros musicistas que integram os arranjos são Lucas Campos, o próprio Jaime Ernest Dias e Rafael dos Anjos. Entre as faixas, os destaques são o chorinho Guardião, única do álbum que Sérgio compôs em parceria com Clodo Ferreira, a canção Só nós dois, de cadência mais lenta que as demais e belíssima letra, além da faixa de abertura que (quase) dá título ao disco, O ouro do meu peito. Nessa última, versos como “Morrer é tão banal/quando o samba há de viver eternamente” demonstram o envolvimento vital do compositor com o gênero.

Cada vez mais próximo do candomblé, Sérgio é filho de santo da ialorixá Mãe Dora de Oyá, do Ilè Asé Tojú Labá, “a quem eu tenho profundo respeito e admiração” e que vem contribuindo muito em sua formação espiritual. A escolha do título do álbum não aconteceu por acaso, veio a partir de um sonho espiritualizado. Tal experiência o deixou tão inquieto – era como se quisessem impedi-lo de cantar –, que, na manhã seguinte, chegando ao serviço, escreveu toda a letra em um saco de cimento para não esquecer. Ouro do meu peito está disponível no Youtube e nas plataformas digitais Deezer e Spotify e é o resultado criativo de alguém cujo coração tem duas cidades, muita amizade e parcerias com grandes músicos.

ERIKA MUNIZ, estudante de Jornalismo e colaboradora da revista Continente.

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