Clique ao lado para visualizar o sumário da nova CONTINENTE.

Depoimento

"Com a inclusão, teremos um mundo com mais respeito"

Professora com Síndrome de Down e palestrante, Débora Seabra fala sobre sua trajetória para a conquista de uma sociedade mais inclusiva

TEXTO Débora Seabra

21 de Setembro de 2020

Débora Seabra com seus alunos

Débora Seabra com seus alunos

Foto Divulgação

[conteúdo exclusivo Continente Online]

Nasci com síndrome de Down no 15 de julho de 1981, em Natal (RN).

Naquela época não tinha nada de informação em Natal sobre o assunto nem a respeito da estimulação precoce. Por isso, no começo, meus pais se assustaram muito. Não foi fácil.

Então, fui muitas vezes a São Paulo, para meus pais aprenderem a fazer a estimulação em casa, na minha cidade, em Natal. Até a minha babá ajudava também a brincar estimulando. Quando nasci, eu já tinha meu irmão Frederico, um ano e meio mais velho do que eu. Que é meu amigo.

Meus pais souberam nos criar e aconteceu a inclusão na família, que é a mais importante de todas.

Só estudei em escolas regulares, comuns e a primeira era inclusiva de verdade. Nas outras, fizemos trabalhos pela nossa Associação Síndrome de Down e foi importante.

Fiz vários estágios procurando o meu futuro, a minha profissão, pelo Programa Ação Dignidade da Associação.

Fiz estágios em duas lojas, e também como recepcionista de eventos, muitas vezes.

E até desfilei duas vezes, em botique.

No ano de 2000, eu fiz um estágio na educação infantil, na pré-escola do Colégio onde eu estudei e terminei a oitava série, no Colégio Imaculada Conceição (CIC).

E vi que o meu futuro estava chegando porque me apaixonei pelo trabalho com crianças! E veio a vontade de fazer o curso de magistério no nível médio.

O meu curso começou em 2001 e foi até 2004. Durou quatro anos. Nos dois primeiros anos, eu tive dificuldades com algumas colegas, que me discriminavam e alguns professores que não entendiam nada de inclusão. E o diretor me pediu pra fazer carta para os professores. E eu fiz! E lutei pelos meus direitos pra estudar sem ser excluída e terminar o meu curso. Porque não desisto dos meus sonhos! Então me formei em magistério e me tornei professora.

Cheguei à Escola Doméstica de Natal, no ano de 2005, para estagiar. Como voluntária. Também pelo Programa Ação Dignidade.

Depois, fui contratada e, como todas os colegas, tenho a carteira assinada como professora auxiliar há 15 anos

Faço tudo que minhas colegas fazem: participo da semana pedagógica, das atividades pedagógicas e de toda rotina da turma.

Gosto das minhas colegas e amo as minhas crianças. E sou professora feliz.

Para ser professora é preciso estudar. Por isso tenho uma orientadora pedagógica e nos encontramos uma vez por semana, na segunda feira, e estudamos o planejamento do que vai acontecer na sala e outras coisas importantes.

Para divulgar mais a inclusão escrevi um livro Débora conta histórias. São fábulas inclusivas, para mostrar que não deve haver preconceito com nada nem com ninguém.

Além de ser professora, faço palestras na minha cidade e pelo mundo afora sobre muitas coisas: minha vida, meu trabalho, minhas conquistas e sobre o direito à inclusão e principais leis que protegem esse direito. Digo que sou caminheira da Inclusão. Tenho palestrado até para juízes e outras pessoas da área jurídica.

A inclusão deve estar presente primeiro na família, na escola, no trabalho, na saúde, na sociedade e na vida, em todos os lugares.

Com a inclusão, teremos um mundo onde existe mais respeito, mais amor e mais paz entre as pessoas.

No Brasil, temos a Federação Brasileira de Síndrome de Down, que trabalha junto às Associações de Síndrome de Down dos Estados para garantir os direitos das pessoas com Síndrome de Down. Nós temos grupo de autodefensores, da Federação, formado por jovens e adultos com a Síndrome de Down. Procuramos mostrar ao mundo que temos o direito de decidir nossos destinos, nossas vidas. Temos mediadoras e nos encontramos quinzenalmente pela internet e, uma vez ano, presencialmente. Trabalhamos e estudamos muito, sou secretária desse grupo. E estou gostando muito.

Dia 21 de março é o Dia Internacional da Síndrome de Down. Criado pela ONU. Em 2014, fiz palestra na ONU, em Nova York.

As comemorações do dia 21 de março mostram ao mundo a importância da inclusão e a autonomia das pessoas com síndrome de Down. Todo ano temos o lema do Dia Internacional da síndrome de Down. Neste ano o lema é “Nós decidimos”.

O meu sonho mesmo é ver todas as pessoas incluídas, participando, vivendo junto com os mesmos direitos e deveres porque nós podemos!

DÉBORA SEABRA é professora do Ensino Fundamental.

Publicidade

veja também

A construção de um verbete

‘Agora’: quando o abismo se apresenta

A faca, o queijo e a pandemia — Diário do isolamento

comentários