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Entrevista

"Tudo o que indica feminilidade é deturpado"

A MC Linn da Quebrada, uma das atrações do festival Coquetel Molotov, no Recife, fala com exclusividade sobre a importância da música como forma de resistência

TEXTO Eduardo Montenegro

25 de Setembro de 2017

Performer, cantora, atriz e dançarina se intitula como “terrorista de gênero”

Performer, cantora, atriz e dançarina se intitula como “terrorista de gênero”

FOTO Vivi Bacco/Divulgação

“Bicha estranha, louca, preta, da favela/ Quando ela tá passando, todos riem da cara dela”. Assim canta Linn da Quebrada, não somente se definindo, mas parecendo também catalogar toda sua “gig”, como ela mesma define sua equipe e também toda sua performance ao vivo – a palavra deriva do inglês, remetendo a apresentações de rock, pop ou jazz. No entanto, não são esses estilos musicais que fazem Linn da Quebrada conhecida e um dos fortes nomes da música queer. Ela transita entre o funk, o trap e o rap, como a nova versão de Bixa preta – faixa que recebe os versos acima –, que em sua primeira gravação, recebeu as batidas já tradicionais do funk. A composição veio para Linn num momento em que, entalada de coisas para serem ditas, não sabia como soltá-las.

Quando se observa Linn da Quebrada, compreende-se um corpo em movimento e transformação, um corpo transgressor, atípico: com um batom de glitter, roupas curtas e coladas, emoldurando sua resistência, os cabelos rosa e um colar feito de restos mortais de uma boneca. Nasceu do ventre de São Paulo, do interior, mas migrou para Santo André aos 20 anos para adentrar a Escola Livre de Teatro.

Movida por mudanças, internas e externas, desde muito cedo, a artista, performer, cantora, atriz e dançarina também se intitula como “terrorista de gênero”. Já contribuiu, por exemplo, com o Coletive Zoooom, que trabalha com questões da sexualidade, da diversidade e do gênero em São Paulo. Colaborou, com eles, na periferia da Fazenda da Juta, desenvolvendo atividades com adolescentes a partir desses temas. Além disso, ajudou na realização de performances de rua com Coletive Frioccional. No cinema, sua rotina e suas lutas foram vistas no documentário Meu corpo é político, de Alice Riff, que também relata o cotidiano de mais três militantes do movimento LGBTT: Fernando Ribeiro, Giu Nonato e Paula Beatriz.

Toda sua militância, naturalmente, migrou para a música. Em Talento, por exemplo, um hino de empoderamento contra os “machões” que têm vontade de se relacionar sexualmente com outros homens, desde que eles sejam discretos, não afeminados etc. Aqui, Linn rima: “Vou te confessar que às vezes nem eu me aguento / Pra ser tão viado assim precisa ter muito mais, muito talento”. Suas letras explícitas, não só nessa música, mas como em seu repertório, revelam seu lado transgressor, um tanto rebelde: letras que, sem dúvidas, os “cidadãos de bem” e a classe média classificariam como imoral. No entanto, como a própria canta: “ser bicha não é só dar o cu, é também poder resistir”.

Prestes a lançar seu primeiro álbum de estúdio, Pajubá, construído aos poucos através de financiamento coletivo, e nas fases de seu projeto audiovisual blasFêmea, Linn da Quebrada se apresenta pela primeira vez no Recife, durante o festival No Ar Coquetel Molotov, no dia 21 de outubro, no Palco Velvet. Ela nos concedeu a entrevista abaixo via e-mail.

CONTINENTE Por que “Linn da Quebrada”? De onde vem essa quebrada?
LINN DA QUEBRADA Vem de onde eu venho, da quebrada. E para quem eu quero falar, para a quebrada. Vem das que são marginalizadas, daquelas que a própria vida já é uma resistência por si só. Vem de mim e das que estão comigo, "(r)existindo".

CONTINENTE Vamos falar um pouco da sua história. Por que você começou a cantar? De onde surgiu a necessidade de criar músicas que falassem sobre a realidade a sua volta?
LINN DA QUEBRADA A música me encontrou num momento em que eu tinha muita coisa entalada e não sabia como soltar. Veio da influência da Liniker, minha amiga, que já era cantora e me apresentou essa criação artística e que eu, vinda do teatro, ainda não tinha pensado. Era muita coisa pra falar e eu não sabia como, então comecei a me envolver mais e encontrei no funk essa base, essa força que eu buscava pra fundamentar tudo isso.

CONTINENTE A sociedade atual é intolerante, na verdade, sempre foi. Você acha que o papel dos artistas é de resistência, mas também despertar esperança?
LINN DA QUEBRADA Acho que a própria questão de estar ali no palco, na TV, na internet, enfim, de estar em todos esses lugares já traz uma renovação, estamos reinventando narrativas e ocupando espaços que até então não nos eram acessíveis. Colocando nossos corpos onde não eram vistos. E isso, por si só, já é resistência, já vai contra a lógica do machismo, já denuncia esse culto ao falo que fundamenta a sociedade atual. Ao cantar minha vida, eu me fortaleço e faço isso por mim, foi o modo que encontrei de me fortalecer e fortalecer este corpo. E o público entende minha música e a incorpora como uma possibilidade para seus próprios corpos também.

CONTINENTE No filme Meu corpo é político, acompanhamos um pouco de sua rotina e de mais três militantes LGBTT. Em certo momento, vimos a criação de Bixa preta. Como é ser bicha na favela?
LINN DA QUEBRADA É subverter a ordem, é assumir seu corpo e as potências que estão dentro dele e se permitir, se possibilitar ser quem é. É encontrar na transformação uma tradução pessoal, no corpo, sua voz. É resistir e exaltar sua essência. E principalmente é não abaixar a cabeça pro machismo, desconstruir para construir. Ou como gosto de dizer, é dar nome aos "boys".

CONTINENTE Suas letras chamam atenção pela forma “explicita” que são escritas e cantadas. Você considera sua arte como transgressora, se observarmos o contexto social e político do Brasil?
LINN DA QUEBRADA Quando a gente ouve "transgressora", a impressão que rola de primeira é de algo furioso, cortante, né? E por isso, talvez, minha música seja entendida como transgressora mesmo, mas não no sentido de ir contra algo, de "combater o sistema" ou apontar o dedo pra um alvo único. Mas, justamente, por celebrar e contar a minha vida, das minhas amigas, das "bixas" afeminadas, das lésbicas, das travestis, das drags... A gente transgride porque a gente afirma nossa existência e nosso ponto de vista numa sociedade que sempre nos manteve à margem. E agora estamos criando, cantando, estudando, enfim, estamos nos expressando. E acredito que isso, por si só, acaba sendo transgressor.

CONTINENTE Em Enviadescer, você canta sobre as bichas afeminadas, que não têm vergonha de usar salto, se maquiar, usar roupa curta etc. Você enxerga um certo preconceito contra afeminados dentro da própria comunidade LGBTT?
LINN DA QUEBRADA Nossa sociedade, no geral, foi construída sobre uma cultura patriarcal e falocêntrica, que nos mantém numa lógica machista opressora e perversa. A partir daí, tudo que remete ao feminino é menor, não é válido. Tudo o que indica e se aproxima da feminilidade é deturpado. E isso está impregnado em todos os grupos sociais, ambientes, dentro de casa, na escola... Na minha arte, no meu fazer artístico, a noção de me conectar e me fortalecer com e entre as mulheres é o que dá sentido pra tudo. É o feminino como ele é, independente do corpo no qual ele se apresenta. Em Mulher, eu falo muito disso, de nós, mulheres, estarmos conectadas por uma rede de proteção, fortalecimento e cumplicidade. As bixas afeminadas não caem nessas "falocias", por isso eu canto sobre elas, para elas.

CONTINENTE Como aconteceu o seu processo de afirmação e de empoderamento como bicha, preta e favelada, como você mesmo canta?
LINN DA QUEBRADA É algo que ainda está acontecendo, é uma transformação constante e importante. Na adolescência, eu não me entendia, não entendia meu corpo. O tempo passou e eu fui me descobrindo, percebi minhas potências e como meu corpo reagia a elas. Acho que veio disso, de ir me utilizando dessas possibilidades todas para ir me entendendo aos poucos. A Linn da Quebrada vem daí também: ela nasceu da minha vontade de seguir falando e criando tudo isso.

CONTINENTE Quem te inspira?
LINN DA QUEBRADA As bixas. As lésbicas. As translesbixas. As afeminadas. As travestis. As drags. Enfim, todas as que são o que são.

CONTINENTE Pajubá é a linguagem popular feita da junção da linguagem portuguesa com outras linguagens africanas, e soube que é usado também pela comunidade LGBTT, mas também é o nome do seu primeiro disco. Para você, o que é pajubá? E o que podemos esperar desse álbum?
LINN DA QUEBRADA Pajubá é reinvenção de narrativa, é idioma de resistência e uma forma de conexão muito forte e real. Nesse disco, venho com tudo que tenho a dizer e não venho sozinha! É um disco que nasceu de um financiamento coletivo, então é um trabalho que não é só meu, é de todas que me apoiaram. Tá ficando incrível e estou ansiosa demais pra soltar pro mundo. Recife vai ter novidades no show também, podem aguardar e se preparem: a Gig da Quebrada tá chegando!

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