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O Circo, a Banda e o Soldado

TEXTO Karina Buhr

14 de Setembro de 2020

Ilustração KARINA BUHR

Não tenho a menor ideia do significado dessa coreografia militar ser feita agora aqui, por que soldados a uma hora dessas?

Foi o circo que a gente veio ver.

E também a banda e os bichos no mato verde, verde, depois o chororô e velório.

Você aí fotografando, tá achando bonito, você?

A ideia aqui é enxugar lágrima de enterro, ver desfile colorido, rir de besteira, comer pipoca doce, que o carrinho vem guiado mesmo em dia sem ingresso à venda e que a gente fica só aqui fora mesmo, sem espetáculo e também sem mortos.

“Urubu!”. Não foi assim que gritaram pra você na pauta no cemitério, do assassinato do menino?

Agora está igual, é nosso dia de caixão descido, vire sua câmera pro outro lado, mesmo que sobre você, veja o que revela e o que queima.

Por favor, não me faz ter que elaborar qualquer coisa pra falar na frente desse povo todo. Deixe essas pessoas se assustarem, não faz o menor sentido elas acharem normal. Sua figura, com certeza, está fazendo sombra na pessoa de trás, deixe ela brilhar, dê meia volta enquanto nossa procissão passa.

Que canseira um dia assim. Ela queria era esse chapéu da pessoa da sombra, ele ajudaria no disfarce simples, só pra não precisar soltar o bom dia e daí se desenrolar uma conversa e o pessoal descobrir que ela não sabe conversar, não se interessa pelo próximo, nem pelo distante, muito menos pelo distante, só responde perguntas, como numa entrevista.

Mas não era o circo que ia chegar agora?

O que tem no gene da farda que precisa atropelar, ou pior, chegar antes, entupir a ideia, sufocar o impulso, pausar o cortejo antes mesmo dele começar?

Vou me abaixar aqui, me acocorar se precisar, mas uma vergonha dessa não preciso passar, nem história dessa quero ter pra contar pra ninguém.

Acho que parou o relógio, parece foto nossa, não tem condições, não me vejo nessa cena. Nem vejo vocês.

Daqui a meia hora encerra a chegada do circo que nem começou, desfile cancelado na estreia, na porta da cidade mesmo eles ficaram, sem entender por que de cerca, por que de tanta gente, por que de sirene.

Deu por hoje de gente, pegar a ponte e desaparecer.

A chegada em casa, ela era melhor, mas ainda é melhor agora, se pensar bem, um pouco melhor, mesma sequência.

A casa é pequena ou grande demais, tem muita gente ou quase ninguém, muito dinheiro ou quase nenhum, ter o teto e o que se precisa pra viver tranquilo é sempre o raro.

Ela trabalha no número do bailado, no outro grupo, o que está parado, sem previsão de reabrir as portas, não o que era hoje, com pipoca e suco de vermelho, mas não aconteceu.

Isso parece solidão, mas quem dera.

Esperar passar, soltar o ar, circo não tem agora nem vai ter de noite, sabe deus se amanhã, caso recolham as cercas da entrada da cidade, sequem os barulhos das sirenes, ofusquem os brilhos das lanternas, nervosas mesmo de dia, luz pra intimidar, que nem a sombra da fotógrafa da pessoa do chapéu.

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*As opiniões expressas pelos autores não representam
necessariamente a opinião da revista Continente. 

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