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Mirante

Beto Rezende, único

TEXTO Débora Nascimento

28 de Agosto de 2020

O jornalista Beto Rezende em viagem a Lisboa, em maio de 1995

O jornalista Beto Rezende em viagem a Lisboa, em maio de 1995

Foto Vitória Galvão/Cortesia

Um, dois, três, quatro, cinco, seis, sete, oito, nove, dez, 20, 30, 40, 50, 60, 70, 80, 90, 100, 110... Números. O nosso mundo gira em torno deles. Data de nascimento, taxas de colesterol, glicose, pressão arterial, frequência cardíaca, idade, calendário, loteria, futebol, RG, CPF, salários, impostos, bodas, calorias, temperatura, bolsa de valores, contas para pagar... O jornalismo também circunda ao redor deles: “O Brasil chega a 10 mil mortos pela Covid-19...”, “O Brasil chega a 100 mil mortos pela Covid-19...” Os números, principalmente os redondos, motivam reportagens especiais. A imprensa já preparava os textos sobre essa terrível marca dos 100 mil, enquanto muitos doentes ainda lutavam para sobreviver. A atenção maior a esses algarismos fechados é uma forma involuntária de menosprezo ao número de mortos, enquanto eles estavam em 99, 73, 68, 41 mil. E agora, enquanto escrevo este texto, já são mais de 119 mil.

Quando o jornalista pernambucano (nascido em Sergipe) Beto Rezende se foi, aos 60 anos, em 18 de agosto, a taxa de vítimas fatais da Covid-19 já passava de 110 mil e ele nem estava contabilizado oficialmente. Para o presidente da República, que não sabe administrar o país ou se comportar minimamente bem em público, e já demonstra estar em campanha para 2022, meu amigo querido, inteligente, criativo, ético, corajoso, combativo, intenso, generoso é apenas mais um número para engrossar uma inconveniente estatística que atrapalha seus planos de reeleição ou escalada autoritária. Para os familiares e amigos de quem se foi, essas mortes são uma permanente e dolorosa lembrança de um período trágico, em especial para alguns países, como o Brasil, que escancarou, mais uma vez, seu despreparo abissal para lidar com problemas seriíssimos.

A morte de alguém próximo pela Covid-19 nos confirma a insanidade que é essa apressada tentativa de se retomar a normalidade, enquanto milhares de pessoas continuam a morrer, a serem contaminadas e a contaminar. Numa das fotos de reencontros que circulam nas redes sociais, chegaram a pendurar máscaras na entrada de uma casa, como se fosse um cabide para casacos, uma chapelaria. As máscaras repousando lado a lado. Pessoas com máscaras abraçadas a pessoas sem máscaras. Pessoas abraçadas, todas sem máscaras.

Isso me fez lembrar de uma campanha da época da explosão do HIV, nas décadas de 1980 e 1990, cujo slogan dizia “Quem vê cara, não vê Aids”. É o mesmo que acontece hoje. Pessoas supostamente saudáveis transmitindo o vírus indiscriminadamente. No caso da Aids, mesmo com toda a liberdade sexual, ainda havia e há (afinal, virou doença crônica) uma maior possibilidade de identificar como se deu uma contaminação. Com a Covid-19, é muito mais difícil descobrir como ocorreu uma infecção. Então, é muito mais fácil de as pessoas serem desleixadas umas com as outras, pois existem várias fontes de transmissão e o descuido estará acobertado pelo benefício da dúvida.

Em meio a tanta notícia ruim, estamos vivendo como se estivéssemos em um filme de terror, em que ninguém sabe quem será a próxima vítima aleatória. Com seis meses do início da pandemia, é raro encontrar alguém que, se não teve, não conheça pessoalmente quem foi infectado pelo novo coronavírus. A Covid-19 mata um em cada 100 pacientes. Todos os dias, dessa roleta russa saem mais de 1 mil mortes no país. Sem contar com as que ninguém nunca saberá se foi ou não provocada pelo novo coronavírus, porque não apresentaram os sintomas clássicos. Beto Rezende foi uma dessas pessoas. Chegou a uma UPA com a queixa de dor na coluna. Como tinha lordose, o médico receitou analgésico e não fez um raio-x dos pulmões para se certificar de que não havia um comprometimento do órgão. Ofegante, o paciente atribuiu isso ao efeito do remédio. Bastaram alguns dias esperando se recuperar, e o desfecho já se sabe.

Diante de uma perda como essa e a do comentarista esportivo Rodrigo Rodrigues, que teve uma piora brusca até ser entubado, se torna ainda mais revoltante ouvir o presidente da República ultrajar, mais uma vez, os mortos pela Covid-19, ao dizer que jornalista que morre pela doença é um “bundão”. Uma frase tão cretina, tão cruel, tão desrespeitosa e despejada no dia seguinte ao ter respondido a um jornalista do Globo: “Minha vontade é encher tua boca com uma porrada, seu safado”. O repórter tinha feito a pergunta que já virou meme no país: “Presidente, por que sua esposa Michelle recebeu R$ 89 mil de Fabrício Queiroz?”. Essa fala escandalosa do governante deveria nos ressaltar, como nação, que, a cada dia a mais que esse homem se mantém no cargo, as instituições democráticas vão perdendo gradativamente suas dignidades por não reagirem aos desmandos de um político tão indigno dessa função.

Depois dessa perda de Beto Rezende, pensei em escrever sobre ele nesta coluna e isso é especialmente triste, porque, um mês atrás, eu havia enviado o link da coluna anterior (“Sem música, a vida seria um erro”) para ele, que era apaixonado por rock, ler. Ele elogiou bastante. E eu não poderia desconfiar que, na coluna seguinte, escreveria a seu respeito e por causa dessa lastimável circunstância. Redijo, mais uma vez, ouvindo as sirenes das ambulâncias ao longe.

Outro aspecto comovente é que as matérias publicadas sobre seu falecimento traziam imagens extraídas de um frame do seu canal no YouTube, Dardos e Ideias, criado no dia 11 de julho. Nesse dia, ele estava bastante empolgado com o novo projeto, em que falaria de música, política e outros temas. Enviou uma mensagem dizendo que estava estreando a um mês do meu aniversário. Respondi informando que eu tinha sido a primeira pessoa a curtir o vídeo e a se inscrever no canal, e coloquei um emoji de medalhinha de primeiro lugar. No 11 de agosto, foi a última vez que ouvi sua doce voz dizendo “Debi”. Nesse dia, tive um mau presságio ao ouvir, dessa vez, uma voz ofegante ou ansiosa. Poucos dias depois, eu relia o histórico da nossa conversa no WhatsApp, lembrando de quando via um “online” ou “Beto Rezende está digitando...” E agora esse espaço virtual (e real) está vazio. Parece que assim é a vida...

O alento é saber que ele não é mesmo apenas um número, senhor presidente de coisíssima nenhuma. Deixou um legado, exemplos, ensinamentos. Não foram poucas as pessoas que escreveram sobre sua competência como jornalista, seu humanismo, sua contribuição, sua preocupação com o próximo. Algumas vezes, durante os quatro anos que trabalhamos juntos, o flagrei falando pra si mesmo que precisava ajudar uma determinada pessoa, como uma tarefa a ser cumprida. Conseguiu fazer diferença como ser humano, como jornalista, como gestor de cultura, como folião, sendo cocriador de um dos blocos mais famosos de Pernambuco, o Enquanto Isso na Sala de Justiça. Anualmente, na cobertura carnavalesca dos jornais locais, era fácil encontrar imagens dele fantasiado de super-herói.

Ex-filiado do Partido Comunista do Brasil e ateu, Beto era muito mais autenticamente cristão do que muitos cristãos de bíblia debaixo do braço. Eu, que não sou católica, rezei alto por ele, ao receber a informação de sua partida através de nossa amiga em comum Danielle Romani, e assisti online à missa de sétimo dia, que a família pediu por ele. Chamou-me a atenção a lista de mortos que o padre leu. Tinha mais de 20 nomes. Não lembro de ter ouvido tantos assim numa missa de sétimo dia. Provavelmente, efeito da pandemia.

No seu último vídeo no canal Dardos e Ideias, publicado no dia 5 de agosto, Beto falou sobre a depressão que o acometeu dos 22 aos 50 anos e alertou aos portadores da doença (12 milhões no Brasil) não tentarem o tratamento por conta própria, aconselhou uma ajuda profissional. Ele, que morava só, estava buscando, em meio à quarentena, formas de escapismo, ouvir música, ver filmes, ler e contactar os amigos. Com um currículo que inclui passagens por jornais como Jornal do Commercio, Diario de Pernambuco e Folha de Pernambuco, aproveitou o período da quarentena para se reinventar, virou vlogueiro. Seu primeiro vídeo teve rapidamente 500 visualizações. Comentamos que isso era um bom sinal. Era apenas o começo. Infelizmente seu novo projeto foi interrompido. Mas ficou o exemplo de ímpeto de mudança e experimentação.

Durante este período de quarentena, a solidão e a depressão, agravadas pelo isolamento, estão levando a um aumento de casos de suicídio. O Samu informou que houve um crescimento no número desses atendimentos. Beto provou que estava certo, ao deixar esse alerta sobre a depressão. Amigos estão relatando nas redes sociais mortes de amigos, mas não revelam que eram pessoas solitárias e depressivas que tiraram suas próprias vidas. Na coluna anterior, abordei essa solidão contemporânea e mencionei Eleanor Rigby. Ao ler o texto, Beto me disse que era sua música preferida dos Beatles. Na releitura das mensagens, vi que ele tinha enviado uma versão que eu não ouvira do Rare Earth, mas que ouvi nesta semana em sua homenagem, já sentindo muito a sua falta neste mundo que ele quis melhorar.

O capitalismo, ao qual ele foi contra por ser comunista, tenta nos vender a ideia de que ninguém é insubstituível. Isso pode funcionar na lógica industrial, comercial, financeira... Mas ninguém é substituível. Uma mãe, que ama cada um dos seus filhos, sabe disso. Cada ser humano é ímpar. Embora queiram nos transformar em número, mesmo cada número é único. Cada vítima das injustiças ou das mazelas deste país, embora muitas, são únicas. Meu alento é saber que, por mais que os poderosos queiram nos ignorar, menosprezar ou destruir, nosso espírito é indestrutível. E que, onde quer que Beto esteja, as ondas sonoras o alcançarão. Em um outro Brasil, melhor do que este aqui.

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*As opiniões expressas pelos autores não representam
necessariamente a opinião da revista Continente.

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