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Mirante

The KKK took my nation away

TEXTO Débora Nascimento

08 de Novembro de 2018

Radio Raheem (Bill Nunn), cuja morte por asfixia é o gatilho para o conflito final de 'Faça a coisa certa', clássico de Spike Lee

Radio Raheem (Bill Nunn), cuja morte por asfixia é o gatilho para o conflito final de 'Faça a coisa certa', clássico de Spike Lee

Foto Divulgação

Dis joint is based on some fo' real, fo' real shit
(Esse bagulho é baseado em uma mxxxx de verdade, de verdade mesmo)

Esse aviso de tom cômico inicia BlacKKKlansman (Infiltrado na Klan), o novo filme de Spike Lee, indicando o humor que o permeia, embora trate de um assunto terrível: o racismo. O trecho “fo' real, fo' real shit” refere-se ao fato de o roteiro ser baseado na história verídica de Ron Stallworth, um policial de Colorado Springs que, nos anos 1970, se infiltrou na Ku Klux Klan. O principal detalhe: ele era negro.

Ron, primeiro agente negro daquela cidade, para conseguir “se infiltrar” na organização racista, manteve contatos por telefone e, em seguida, inseriu presencialmente um policial branco. Seu trunfo para estabelecer um canal de comunicação com os racistas foi, além do discurso de ódio, subverter o preconceito deles, que consideravam poder identificar, mesmo por meio de uma mera ligação telefônica, a cor da pele de alguém apenas pelo modo dessa pessoa falar.

Um dos racistas engabelados por Ron foi David Duke, então líder da KKK – recentemente, o nome dele circulou no noticiário brasileiro, ao afirmar que identificava semelhanças entre o discurso de sua organização com o do então candidato da extrema direita à presidência no Brasil, agora vencedor do pleito. No filme, Duke foi interpretado por Topher Grace (astro da série That '70s show). Um dos receios de Spike Lee era de que a figura carismática do ator pudesse atenuar a do racista. Inclusive o seu modo suave de se expressar, transmitindo uma impressão de ponderação e sensatez, trouxe um pouco de ambiguidade em meio a personagens bastante caricatos.

Assim como Stanley Kubrick em Dr. Fantástico (1964), Spike Lee também utilizou a caricatura para ridicularizar os vilões. Afinal, o absurdo de defender ideias que fogem à racionalidade já é, em si, algo bizarro e, como tal, merecedor de sátiras – basta lembrar dos gestuais de Mussolini e Hitler, beirando a teatralidade.

Mas é bom frisar que o cinema já tem por costume caricaturar a negritude. Há um trecho de Infiltrado na Klan em que os racistas assistem com deleite a O nascimento de uma nação (1915), de D.W. Griffith, filme que, ao vilanizar e desumanizar a pessoa negra, contribuiu para o ressurgimento da KKK.

O perigo da caricatura do real, ao mascarar o trágico que se encontra por trás do aparente humor, é a imprevisibilidade do seu resultado. Após a eleição de Trump, se discutiu, por exemplo, o quanto o Saturday Night Live havia colaborado para amenizar a imagem do estapafúrdio candidato republicano ao satirizá-lo através da hilariante interpretação de Alec Baldwin.

Baldwin, a propósito, faz uma participação especial em Infiltrado na Klan, com uma fala racista para a TV. Seu personagem questiona algumas das palavras que profere, mostrando a preocupação com o efeito que cada uma delas vai provocar no espectador. Outra ponta especial é a de Harry Belafonte, que quebra o tom bem-humorado do filme, ao recordar, para uma plateia de ativistas, a morte de Jesse Washington, jovem negro que foi linchado, arrastado por um carro e queimado em 1916, no Texas, estado vizinho ao Colorado.

Previsto para estrear no Brasil no dia 22 de novembro, coincidentemente no mês da Consciência Negra no país que mais mata jovens negros, o filme de Spike Lee vem encerrar um ano marcante para a questão racial sob a ótica cinematográfica. Em fevereiro, estreou o primeiro filme de um super-herói negro, Pantera Negra, que se tornou a terceira maior bilheteria da história do cinema. Segundo Lee, o blockbuster “mudou o mundo a nível cinematográfico”, sendo um dos seus feitos destruir o argumento que o diretor sempre ouvia dos estúdios: o de que filmes sobre e com negros só têm plateia garantida se houver no elenco uma grande estrela, como Will Smith e Denzel Washington.

Denzel, em 1992, encarnou o ícone Malcolm X, no filme homônimo dirigido por Spike Lee. Até hoje, o diretor não aceita o fato de o drama não ter sido indicado ao Oscar de Melhor Filme e o ator não ter recebido a estatueta por sua atuação. O astro agora participa indiretamente de Infiltrado na Klan. Seu charmoso filho, John David Washington, encarna o protagonista, o policial Ron Stallworth, que estabelece uma ótima química com o policial branco, Flip Zimmerman, interpretado por Adam Driver – a presença dele favorece o tom ameno da narrativa, que, em algumas cenas, nos lembra o estilo dos irmãos Cohen, talvez pelo próprio desenrolar dos acontecimentos reais bizarros.

A produção de Infiltrado na Klan conta com Jordan Peele – que antes seria o diretor, mas desistiu e sugeriu a Spike Lee que assumisse a função. Peele é responsável por um dos mais surpreendentes filmes que abordam o racismo, Corra! (2017). A obra, que mistura terror, thriller e comédia, concorreu a quatro estatuetas no Oscar 2018, ganhando o prêmio de Melhor Roteiro Original – reforçando este ano importante para a questão racial no cinema. Isso mostra que, se esse tema não se esgota nas ruas, também não vai se esgotar nas telas. Em agosto de 2017, enquanto Infiltrado na Klan estava em fase de finalização, acontecia o atentado de Charllotesville. O trágico evento acabou tendo um registro no filme.

Em 2019, vai completar 30 anos que Spike Lee lançou um dos mais relevantes filmes sobre a temática racial, Faça a coisa certa. Nele, mostrou como é arriscado um país colocar embaixo do tapete as discussões sobre o tema, porque a ilusão de uma democracia racial sempre escancara seus efeitos nefastos quando a realidade se impõe. Foi assim em sua obra de 1989: pequenas tensões raciais cotidianas conceberam o estopim para o desfecho de uma rebelião. Foi assim em Charllotesville. Racistas, empunhando orgulhosamente bandeiras confederadas, marcharam pela não retirada da estátua de um general da Guerra Civil que lutou pela manutenção da escravidão. Para os antirracistas, essa marcha significava “o maior encontro de ódio em décadas”. O protesto culminou com três mortes e mais de 30 feridos.

Em maio deste ano, durante a exibição de Infiltrado na Klan, em Cannes, Spike Lee chegou ao tapete vermelho empunhando nas mãos as soqueiras usadas pelo personagem Radio Raheem (Bill Nunn), cuja morte por asfixia (a mesma forma que vitimou Eric Garner, em 2014, “não consigo respirar”) é o gatilho para o conflito final de Faça a coisa certa.

Na mão direita, a soqueira traz a palavra “amor”, na esquerda, “ódio”, como duas faces da mesma moeda. A ideia do uso das soqueiras em seu longa de 1989 foi, na realidade, uma homenagem de Lee ao filme The night of the Hunter (1955), em que um assassino (interpretado por Robert Mitchum), que tem as palavras tatuadas nas mãos, consegue iludir as pessoas usando "a palavra de Deus".

A ideia do cineasta de trazer de volta as soqueiras, em maio deste ano, talvez seja uma lembrança de que, em maio de 1989, ele saiu de mãos vazias de Cannes. O presidente do júri, Wim Wenders, resolveu premiar Sexo, mentiras e videotapes. Em 2018, Lee saiu do festival com o Grande Prêmio do Júri.

Infiltrado na Klan inicia com uma cena de E o vento levou (1940), em que Scarlett O'Hara anda, desorientada, por entre corpos da Guerra da Secessão. Embora a personagem não nutra ódio pelos negros, ela ignora as necessidades deles, que a cercavam em sua vida de mordomia, e cultiva um desmedido amor à terra, à propriedade, à riqueza, à vida egocêntrica de privilégios, à ideia bem reducionista de nação. A personagem pode representar hoje a elite saudosa dos tempos da “supremacia branca”, eleitora da extrema direita. Aquela mesma que confunde KKK com risada de rede social.
 

 

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