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Foto: Tuca Siqueira/DivulgaçãoFoto: Tuca Siqueira/Divulgação

Editora do site Erosditaa jornalista e educadora sexual Julieta Jacob considera que alguns valores do romantismo estão perdendo força, embora ainda sejam percebidos hoje. Para Julieta, as pessoas estão se dando conta de que é possível alcançar a tão desejada satisfação amorosa e sexual optando por uma relação nada romantizada. Uma das opções que ganha adeptos a cada dia é o poliamor, em que a necessidade da monogamia é descartada, e o casal encara o desafio da maturidade e do desapego sem abrir mão da cumplicidade.

 

CONTINENTE: Como a cultura romântica pode ser observada nas relações afetivas contemporâneas?

JULIETA JACOB: Os ideais românticos são calcados na noção da fusão amorosa, como se nascêssemos incompletos e só alcançássemos a felicidade ao encontrarmos a nossa “cara metade”. Por isso, desde cedo, nós, ocidentais, somos levados a esperar por esse “grande amor” para, então, sermos felizes como nos contos de fadas. O amor romântico sustenta-se na idealização da pessoa amada e na expectativa de que ela vai suprir todo o nosso desamparo afetivo (o que não ocorre). Assim, a relação torna-se simbiótica e muitas vezes sufocante, pois à cultura romântica só interessa, por exemplo, a relação monogâmica, e a monogamia pressupõe a exclusividade sexual em todos os aspectos, o que significa dizer que o casal só sentirá desejo um pelo outro e por mais ninguém. O que está mudando nesse cenário é que muitas pessoas estão percebendo que o amor romântico não é uma regra nem deve ser uma imposição, embora ainda seja o ideal predominante na nossa sociedade. É possível se relacionar de outras maneiras, descartando a exclusividade afetivo-sexual e ampliando a possibilidade para se ter vários parceiros ao mesmo tempo. É apenas uma questão de escolha.

 

CONTINENTE: Você acha que as novas gerações são tão românticas quanto seus pais e avós? Ou seriam até mais?

JULIETA JACOB: Nossos pais e avós são em parte responsáveis por transmitirem os ideais românticos aos mais jovens. Nesse sentido, é possível e lógico que os filhos repliquem os valores que receberam das gerações mais velhas. No entanto, por mais hegemônico que seja o estilo “romantizado”, a sociedade contemporânea já apresenta novas formas de se relacionar que fogem ao modelo tradicional. Não me refiro, é claro, ao fato de dar e receber flores, de jantar à luz de velas e fazer gentilezas, pois isso nada tem de nocivo para um relacionamento e nunca deve sair de moda. Refiro-me à crescente busca por individualidade e ao fato de muitas pessoas se sentirem mais livres para escolher se a monogamia lhes interessa ou não. Antes, não havia escolha. Hoje os casais já encontram abertura para conversar e fazer acordos para se sentirem satisfeitos com sua escolha.

 

CONTINENTE: O poliamor é uma tendência que se desprende da tradição romântica?

JULIETA JACOB: Com certeza, pois o poliamor se diferencia do amor romântico em um aspecto crucial: ele recusa a monogamia como princípio ou necessidade. Nele, o casal faz um acordo no qual é permitido para ambos ter relações afetivas e sexuais com outras pessoas sem que isso signifique uma traição e nem abale a harmonia afetiva. É algo possível e sabe-se que no Brasil há diversas pessoas que optam por isso.

 

CONTINENTE: Isso pode parecer um pouco difícil para a maioria das pessoas, acostumadas a vivências românticas no figurino tradicional. Além disso, não seria a vitória de uma visão que muitas vezes foi considerada machista e traduzida como pura traição?

JULIETA JACOB: Sem dúvida. Considerando a influência romantizada que recebemos desde que nascemos, o poliamor pode soar como algo impensável e inviável para alguns. Caso esse grupo tenha apenas vivências monogâmicas, não há nada de errado. O importante é que elas saibam que a monogamia é uma escolha. Quanto ao poliamor, sua prática é desafiadora, pois exige maturidade e cumplicidade, além de certo desapego. Discordo que seria a vitória de uma visão machista. No machismo, só o homem tem o “direito” de se relacionar com outras pessoas. O objetivo do poliamor é tentar construir uma relação mais sincera e menos hipócrita. Não existe infidelidade porque não existe exclusividade sexual. E não existe uma vitória masculina porque o acordo é feito de forma igualitária. Sobre o poliamor, na década de 1980, Simone de Beauvoir escreveu, no livro O segundo sexo,que declarar que um homem e uma mulher devem bastar-se de todas as maneiras durante toda a vida é “uma monstruosidade que engendra necessariamente hipocrisia, mentira, hostilidade e infidelidade”.

 

CONTINENTE: Como educadora sexual, até que ponto o romantismo se insere na prática educativa?

JULIETA JACOB: É importante mostrar às crianças, desde cedo, que existem várias formas de amar e ser amado, e que não há hierarquização entre as opções, não há uma melhor e outra pior. A monogamia pode ser tão interessante para alguém quanto a poligamia para outra pessoa. E, para fazer uma escolha consciente, é importante estimular o autoconhecimento, a autonomia, o respeito à individualidade e a capacidade de ficar em paz e feliz mesmo que sozinho. Isso é vital para que as crianças cresçam com a autoestima saudável, pré-requisito para não buscarmos no outro, de forma desesperada, a cura de todos os nossos males.

 

 

capa 198
CONTINENTE #198  |  Junho 2017

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