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Resenha

Após a euforia, vem 'Fim de festa'

Novo longa de Hilton Lacerda faz caminho inverso de 'Tatuagem': remete a uma melancolia dos dias pós-Carnaval que pode ser lida como metáfora do clima brasileiro atual

TEXTO MATEUS ARAÚJO, DO RIO DE JANEIRO

16 de Dezembro de 2019

Irandhir Santos vive o policial Breno, um personagem cheio de complexidades

Irandhir Santos vive o policial Breno, um personagem cheio de complexidades

Foto Divulgação

[conteúdo exclusivo Continente Online]

Seis anos atrás, quando lançou seu primeiro longa-metragem como diretor, o artista pernambucano Hilton Lacerda apontava para uma luz no fim do túnel daquele nosso tempo incerto, num misto de saudosismo e esperança. Em Tatuagem, a história de amor e liberdade entre o ator Clécio (Irandhir Santos) e o soldado Fininha (Jesuíta Barbosa) deixava uma carta para o futuro de que os tempos de cólera passariam – ainda que custasse caro. As marcas doloridas riscadas no corpo, em plena ditadura militar brasileira, seriam, não obstante, a memória do gozo, da festa, da paixão. “No futuro o amor e a liberdade serão como num filme”, estampavam cartazes pelas ruas do Recife.  

Fim de festa, novo longa apresentado por Hilton Lacerd e produzido pela Carnaval Filmes – com sessão de estreia no último domingo (15/12), no Festival do Rio –, já é o futuro que chegou, mas ressacado e melancólico; retrato do agora sem sentido nem prumo. Ao exibi-lo para a plateia, o diretor explicou que se trata de uma história em camadas, passível de várias leituras. E é. Na epiderme, está o trabalho de investigação de um crime, desempenhado pelo policial Breno (Irandhir Santos), que, na Quarta-Feira de Cinzas, é convocado a voltar da folga de Carnaval para acompanhar o caso de assassinato de uma turista francesa. A mulher foi encontrada morta em um mangue do Recife, asfixiada.

Nas outras camadas, estão o “Breno pai” e a relação dele com o filho Breninho (Gustavo Patriota); e o “Breno melancólico”, ainda remoendo o fim do relacionamento com a ex-mulher. Paralelos que deixam em evidência a capacidade desse cineasta em criar personagens que, de tão complexos, se tornam dúbios e enigmáticos.

Não dá para assistir ao Breno de Fim de festa sem se lembrar do Clécio de Tatuagem. A imagem de Irandhir, protagonista nos dois trabalhos, também desperta a associação de dois tempos, criando paralelos entre o policial e o ator, o sonho do passado e a realidade do presente. O anarquista que sonhava com a abertura democrática se transformou no burocrata oficial da lei que prende pretos e pobres, como ele mesmo diz em uma das cenas.


Cena de Fim de festa. Foto: Divulgação

Ao contrário da euforia de Tatuagem, Fim de festa, como o próprio nome sugere, remete ao banzo dos dias pós-Carnaval. Uma clara referência de Hilton Lacerda ao clima mórbido brasileiro atual. E neste sentido, novamente, as subcamadas ajudam a construir a complexidade. Se no primeiro longa do diretor, a nudez do corpo antropofágico ganhava as ruas como símbolo da liberdade, agora os peitos de fora causam rebuliço na praia como ofensa a um país medíocre.

Há um conflito entre o velho e o novo no DNA deste filme. Eles entram em choque, por exemplo, nas silhuetas da sexualidade – enquanto o topless incomoda na praia, o sexo grupal ou a dança de corpo nu no chuveiro são pequenos simulacros da felicidade no ambiente privado do quarto, do apartamento. E estão também nos planos noventistas de uma classe média que vai pra Buenos Aires estudar cinema, ou no jovem rapaz que vai deixando os mullets no cabelo. Não há uma juventude aficionada pelos smartphones, mas há o vizinho invasivo a xeretar a vida alheia com os drones.  

O clima de fim de festa permeia todo o filme para além da morte. Há os ficantes que tentam estender a euforia por mais uns dias, e há as cenas de desmontagem das alegorias, da decoração e das estruturas. Por isso, uma direção de arte que aposta em tons mais sóbrios. Por isso, também, interpretações mais lentas.

Pela poesia, Hilton Lacerda retrata o tempo. Com uma melancolia bem mais explícita, e uma beleza mais decantada. Estamos desesperançosos, ele aponta. Se encontraremos alegria, não sabemos – talvez, sim, num próximo Carnaval. E talvez há quem leia, em outra complexidade, que a relação construída entre Breno e Breninho seja o espelho dos acordes que vêm no remorso que deixaremos de legado ao futuro.

O filme ainda não tem data marcada de estreia, mas tem previsão de lançamento no primeiro semestre de 2020.



 
MATEUS ARAÚJO é jornalista, mestre em Artes pela Unesp.

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