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Resenha

Uma Terra difícil de aturar

O desaparecimento da Natureza tal qual a conhecemos e o fim da Psiquê conduz o encontro entre androides e humanos no futuro distópico de 'Blade runner 2049'

TEXTO Lula Pinto

09 de Outubro de 2017

O futuro de 'Blade runner 2049' não é nada alentador

O futuro de 'Blade runner 2049' não é nada alentador

Foto Divulgação

As fronteiras são convites para a guerra. Em Blade runner 2049, o lugar onde esse conflito pode acontecer é no resultado do amor entre um humano (Rick Deckard) e a androide Rachel – trama que se desenvolve a partir da versão de 1982, dirigida por Ridley Scott. A criança gerada milagrosamente por um corpo que não poderia tê-lo feito é a senha para uma caçada e busca que visa eliminar a prova de que a condição humana fora expandida. A fronteira como um lugar (ou situação ou sujeito) de impossibilidade, que leva ao conflito entre as partes, não é uma novidade na ficção. Menos ainda na ficção científica.

Basta lembrar de toda a mitologia que conduz às narrativas sobre a emergência da inteligência artificial ou à saga dos macacos que tomam o planeta Terra, ao sofisticarem suas capacidades cognitivas. No primeiro caso, o advento da singularidade – há muitas interpretações para o termo, mas aqui me refiro ao desenvolvimento de uma inteligência artificial – sugere uma ameaça à eliminação da vida humana em praticamente todos os filmes que tratam do assunto. No segundo caso, uma geração de chimpanzés, macacos, orangotangos e gorilas com uma habilidade de discernimento, equiparável à do homo sapiens, reedita um monstruoso que precisa ser eliminado de maneira violenta: guerra.

De qualquer forma, tanto no novo filme dirigido por Denis Villeneuve quanto nesses outros, a capacidade de testemunhar milagres e vivê-los parece ser o ponto de deriva, de escapatória das ordens e ordenamentos do mundo, a proximidade com a criação, mas não com a humanidade strictu senso, necessariamente.

Quando, em Blade runner 2049, o policial K. começa a duvidar de sua programação, aliás, é um fator-chave que libera seu comportamento (de obediência cega). K. deseja ser humano. Aqui, o milagre é da ordem do desejo – que, aliás, quando convertido em ato, opera sempre novas possibilidades, que transformam, inventam e realizam. No final, é o desejo de K. que o humaniza e não a confirmação de ele ter nascido do ventre de uma mulher.

Talvez não seja casual que o androide que sonha em ser humano seja chamado de K. Penso que aí está mais que uma homenagem ao 'K' no meio do nome de Philip Dick. O nome do androide que sonha e deseja parece ser também uma referência à condição de Josef K., o personagem de Kafka no livro O processo. Assim como o policial K., de Villeneuve, Josef K. está preso a um sistema em que não confia e progressivamente não acredita mais.

Mas o filme de Denis Villeneuve não se restringe a explorar essa relação entre descobrir e eliminar aquilo que diferencia o humano e o ameaça. A fidelidade à obra de Philip Kindred Dick certamente é um elemento que permite uma ampliação e detalhamento da distopia compartilhada em diversos horizontes do futuro, sejam eles ficcionais ou não.

Vive-se um mundo pós-blecaute (de dados, registros, narrativas e outras informações gravadas em meios eletrônicos). Para além da literalidade de um mundo que “teve que começar de novo” a registrar sua cultura, suas transformações, seus acontecimentos e sua economia, está a referência à dificuldade de pensar o fim da história (a fantasia pós-moderna de Lyotard); é isso que abre a porta ao pessimismo que coloniza a relação com as tecnologias – e produz os monstros que ultrapassam a humanidade e que a eliminam.

Esse ambiente de derrelição (para usar a bonita palavra que Hilda Hilst tanto gostava) está presente nas representações urbanas de uma narrativa futurista que flerta com o apocalipse: a natureza acabou; com ela, a água e a vida como a conhecemos; ainda assim, a humanidade pode imitar o Prometeu original e inventar uma outra Natureza; mas essa outra Natureza é restrita, não é para todos e; é necessariamente monstruosa, está na borda da baía onde o mal aporta.

O desaparecimento da Natureza tal qual a conhecemos (ou conhecíamos, esse processo já não teria começado?) se estende ao desaparecimento da psiquê tal qual a conhecíamos (será que chegamos a conhecê-la?).


Cena de Blade runner 2049. Foto: Divulgação

E assim o que sobrevive cognitivamente, nesse futuro distópico, também vive de flerte com as profanações da memória, com a performance, o simulacro, o desaparecimento.

É essa devastação em que K. está imerso: Philippe K. Dick, e seu medo da Guerra Fria em uma América colonizada pela idiotice por todos os lados; Josef K. e a obrigação em lidar com o absurdo em todas as frestas burocráticas da estrutura que o oprime e elimina; o Policial K., imerso em um futuro no qual tudo é igual, tudo é feito, tudo é decadente; onde a iluminação é predominantemente artificial, pois há uma nuvem de poeira radioativa, que desestabilizou o clima no Planeta, que aliás não vinha muito bem, assim como não está indo muito agora também...

Nesse futuro, o amor só é possível no estrangeiro – como diz Deleuze. Mas, para amar alguém, também é preciso ser um desconhecido. A frase dita em Blade runner 2049 sintetiza também essa urbanidade monstruosa de sujeitos errantes, em cujo cotidiano hipermediado e hiper-estimulado convivem imagens claustrofóbicas em outdoors gigantes e propaganda georeferenciada em hologramas de quatro metros de altura, com capacidade de interação não trivial.

A Terra se tornou difícil de aturar, assim como suas cidades, seus amores e seu pensamento. Assim, essa ampla narrativa do futuro, que inventa uma outra Natureza, inventa também outros mundos – onde a gloriosa vida humana pode existir: outros planetas, estações artificiais, as viagens no tempo etc. Na entrelinha, essa narrativa de um futuro suspende a política, na medida em que desiste de atuar sobre o presente para transformá-lo.

Essa narrativa que articula os horizontes futuros, a tecnologia e a cultura tem uma complexidade que também não é trivial e que muitas vezes é minimizada. Ela certamente não cabe na régua que já condena Blade runner 2049 por baixa bilheteria.

LULA PINTO, jornalista, professor da Unicap, integrante da Marco Zero Conteúdo e pesquisador de Cibercultura.

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