×

Aviso

Please enter your DISQUS subdomain in order to use the 'Disqus Comments (for Joomla)' plugin. If you don't have a DISQUS account, register for one here
No result...
capa 198
CONTINENTE #198  |  Junho 2017
  1. VIDEOS

banner documenta14 sidebar V2

publicidade revista

banner Suplemento 316x314

Facebook

SFbBox by casino froutakia

INSTAGRAM

belabela

 

"Bom dia!!! Merenda da minha Flor, que poderia ser minha também!", legendou uma inocente e satisfeita Bela Gil na foto da marmita de sua filha, compartilhada no Instagram. Se na lancheira da menina não constassem rodelas de batata-doce, banana comprida, granola caseira e uma garrafinha de água, seria apenas mais uma foto na rede social. Mas a estranheza (choque?) típica de um hábito que rompe com normativismos causou riso e viralizou com códigos de humor debochado na internet. Aliás, a relação da apresentadora/chef de cozinha com o público, cujo discurso e práticas são ancorados em hábitos saudáveis, é costurada pelo humor; é como se ninguém, no fundo, levasse suas propostas a sério. Quem não lembra o frege humorístico do churrasco de melancia protagonizado pela apresentadora do Bela Cozinha?

 

Após a repercussão exagerada da foto do lanche de sua filha, Bela publicou um texto em que problematizou a comida como instrumento de ativismo político. "Nenhum lixo foi produzido com a merenda da Flor, fiz a granola em casa e a casca da banana virou adubo pra nossa pequena horta caseira. Porém, se tivesse colocado uma caixinha de achocolatado, um pacotinho de bolacha água e sal e uma barrinha de cereal industrializada, seriam mais três embalagens jogadas no lixo, que levariam milhares de anos para desintegrar", sentenciou no seu blog. Por questões de gosto pessoal, pode-se não aderir às receitas da chef, mas não se pode negar a importância da presença dela num canal popular da TV a cabo, dando musculatura à estetização de uma comida que sempre foi historicamente rechaçada e inferiorizada. Sobre o assunto, ela falou à Continente:

 

pratospratos

 

CONTINENTE: Historicamente, a mídia glorificou a comida industrializada, sobretudo num viés publicitário. Em contrapartida, seu programa celebra o produto natural, a horta, o verde. Você enxerga uma postura de ativismo político nessa escolha?

BELA GIL: Sim, pois acredito que um dos maiores inimigos da alimentação saudável é o marketing e estou constantemente remando contra essa maré de propagandas, tentando mostrar e glorificar o que realmente é bom para o nosso corpo e para o planeta.

 

CONTINENTE: A globalização e a implementação de novos sistemas econômicos chegam a atingir esse espírito ao qual você se refere?

BELA GIL: Sempre digo que um dos maiores efeitos colaterais da industrialização e da globalização é o afastamento do homem da natureza. Não quero que todos voltem a morar no campo, mas quero dar oportunidade para quem nasceu e cresceu no campo continuar lá, por isso incentivo a agricultura familiar, os pequenos produtores, a comida local e as hortas urbanas.

 

CONTINENTE: Grandes cozinheiros do país estão cada vez mais engajados com o trabalho de pequenos produtores. Como você avalia a responsabilidade de nomes importantes da gastronomia em ativar esse discurso sustentável?

BELA GIL: Acho de suma importância. Os chefs criam tendências e isso pode influenciar as pessoas a valorizarem mais o trabalho do pequeno agricultor e ajudá-los a se manterem dignamente no campo.

 

CONTINENTE: Recentemente, o Brasil anunciou sua superação do baixo peso infantil (crianças com menos de cinco anos) como um problema de saúde pública, mas o alto percentual de crianças e adolescentes com sobrepeso e obesidade aumentou. Como gerenciar politicamente essas duas realidades?

BELA GIL: Desnutrição é diferente de má nutrição. Temos que oferecer comida de qualidade para todos. Criança tem que ter comida, e comida boa. Politicamente falando, podemos incentivar e ajudar os agricultores familiares, subsidiar os produtos orgânicos, melhorar a distribuição de alimentos e promover cestas básicas regionais com produtos locais e de qualidade.

 

CONTINENTE: Nesse sentido, há negligência de instituições formadoras – pais e escola?

BELA GIL: Com certeza! Muitos pais transferem o dever de educar para a escola, que também não enxerga a alimentação como educação. Então a criança segue sem uma educação alimentar de qualidade e acaba se tornando vítima das propagandas de produtos industrializados. Vale lembrar que a merenda escolar não é sinônimo de besteira, não é uma festa de aniversário ou uma ocasião especial, é o lanche que o seu filho come cinco vezes por semana, é a construção de um hábito.

 

CONTINENTE: Entendendo o gosto alimentar como uma construção social, qual caminho deve ser trilhado para a formatação de hábitos de mesa que culminem também com um bem-estar econômico, social, político e ambiental?

BELA GIL: Comer comida de verdade, menos processada e industrializada possível, valorizando os produtos locais e da estação é o caminho mais certo. Muitas pessoas acreditam que saúde é sinônimo de mais hospitais, quando o ideal seria acreditar na promoção de uma alimentação e estilo de vida saudáveis, para que não precisássemos de mais hospitais. Então, quando a sociedade enxergar a alimentação saudável como um investimento e garantia de qualidade de vida, quando cozinharmos pensando e respeitando a saúde do corpo, da terra e dos produtores, aí, sim, conseguiremos construir um futuro melhor.

 

belagil5belagil5

 

CONTINENTE: Os maus hábitos alimentares sustentam uma cadeia de grandes empresas. No entanto, e aparentemente, as pessoas vêm recorrendo a uma alimentação mais natural. As multinacionais de alimentação passam por um processo de repensar seus produtos?

BELA GIL: Muitas dessas empresas estão enxergando que a alimentação saudável é um caminho sem volta e estão tentando fazer o máximo para se adequar a essa onda crescente. No episódio da merenda da Flor, quis deixar claro que não considero biscoito recheado, salgadinho de pacotinho e achocolatados como alimentos, e, sim, produtos maquiados de alimentos que iludem tanto os pais quanto as crianças com seus poderes viciantes. Não quero deixar a minha filha dependente de uma indústria, quero educá-la para ser independente, poder preparar o próprio alimento e escolher o que quiser para comer no jantar.

 

CONTINENTE: O químico Pere Castells comentou certa vez que é necessária uma linguagem única e afinada entre botânicos e cozinheiros – profissionais que trabalham com o alimento, mas que estão em mundos paralelos. Como você avalia a atual sintonia entre esses dois grupos?

BELA GIL: Os botânicos, agricultores e cozinheiros são todos farmacêuticos que produzem e manipulam nossas comidas, assim como os farmacêuticos produzem e manipulam nossos remédios. Porém basta todos entenderem que a comida pode ser o nosso remédio e trabalharem juntos para produzirem os melhores remédios possíveis.

 

CONTINENTE: Você tem pautado uma discussão em torno da alimentação como prática cotidiana (fazer o próprio alimento, ter tempo para comer, sentar à mesa). Poderíamos pensar que, de algum forma, perdemos uma dinâmica nas refeições?

BELA GIL: Sim. Cozinhar deveria ser visto como mais uma tarefa essencial à vida que todos deveriam ter, pelo menos, um mínimo de entendimento. Não precisa necessariamente cozinhar, mas entrar no universo alimentar e lavar uma louça, ir à feira, plantar um pé de alface, colocar a mesa etc.

 

CONTINENTE: Sobre esse ponto, há um estudioso francês, o Michel Certeau, que trata o comer como uma “invenção do cotidiano”, com personagens, cenário, roteiro... De que forma cozinhar pode levar a uma percepção mais lúdica do real?

BELA GIL: Cozinhar é mágica. Observar o milho de pipoca estourar, a clara de ovo endurecer e branquear, a mandioca virar polvilho, coisas que não imaginamos possíveis, se não fosse a própria mágica da natureza.

 

CONTINENTE: Na filosofia, há a expressão "contra-hegemonia" para falar sobre práticas sociais e simbólicas fora do padrão, do status quo. O estranhamento que suas práticas com cozinhar e comer causam, às vezes, fazem você se sentir "contra-hegemônica" dentro de uma lógica da cultura alimentar brasileira?

BELA GIL: Não acredito que o que eu faça seja estranho, e, sim, necessário. Porém muita gente não consegue enxergar e aceitar o que deveria ser feito para vivermos bem e sairmos da zona de conforto.

banner Suplemento 316x314