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O autoconhecimento, a presença, a meditação, a contemplação são questões relevantes para Ieve HolthausenO autoconhecimento, a presença, a meditação, a contemplação são questões relevantes para Ieve Holthausen

Ieve Holthausen
batiza o seu trabalho como devocional panteísta de coração: imagens que falam do divino e exaltam o sagrado. Aliado à espiritualidade, em primeiro plano, aparece a integração do humano com a natureza, sobretudo a partir de figuras femininas. Uma estética que começou a ser gestada em 2005, quando a gaúcha se deu conta de que seu universo se expressava melhor de forma imagética do que verbal, mas que hoje é compreendida pela fotógrafa como algo conectado à sua experiência metafísica. “Trabalho servindo como uma flauta oca em que o divino sopra e faz lembrar o sagrado, o amor, os nossos infinitos universos internos, a nossa luz e nossa sombra, o poder do autoconhecimento, a presença, a meditação, a contemplação, e sobre como é uma sagrada oportunidade estarmos vivos aqui e agora”, afirma.

Uma “testemunha silenciosa” ora a carregar uma Pentax, ora uma Nikon, ambas câmeras analógicas, que maneja junto a filtros com prismas que multiplicam as imagens ou fracionam a luz. Seus filmes fotográficos são, muitas vezes, alterados quimicamente a partir de ácidos naturais como limão, vinho ou urina. “Essas químicas afetam as cores do filme e causam manchas coloridas imprevisíveis, de forma que nunca sei como será o resultado na foto. Gosto da participação do acaso, de dissolver o mérito da foto, da surpresa. Isso trabalha muito o desapego, pois perco muitas fotos com essa brincadeira. Alegro-me muito fazendo isso.” A sobreposição, aspecto que chama atenção nos seus registros, também é feita diretamente no filme, sequência de cliques sobre a mesma película.

Embora o conceito de seu trabalho chegue até nós de forma bem orquestrada, exibindo grande organicidade, ele é fruto de um amálgama de influências artísticas diversas. Formam o seu olhar grande parte da obra de Win Wenders, os documentários de natureza narrados por David Attenborough, as animações de Hayo Miyazaki, a série Cosmos de Carl Sagan, o cancioneiro de Almir Sater, a música cigana e a música de rezo, as composições de Bach, as ilustrações de Betsy Walton e de Phoebe Wahl. Todos ressoam em suas imagens, mas talvez seja com as fotógrafas Sally Mann e, sobretudo, Aëla Labbé que alguns diálogos fiquem mais evidentes.

Ieve ainda aproxima a sua lente de experiências que escapam à esfera do belo produzido por outros artistas. “É importante, na minha realização, o estudo pessoal que faço da ayahuasca, que é para a mente o que um telescópio hubble é para o espaço. Meu trabalho é muito inspirado pelos entendimentos e visões que tenho quando consagro essa medicina”. Somam-se, ainda, como práticas que contaminam sua fotografia, as danças circulares, a ioga, o estudo do Bhagavad Gita e os ensinamentos de Sri Prem Baba. Mas, acima de qualquer filosofia, uma vivência é decisiva: “o contato cada vez mais e mais profundo com a natureza: plantando, colhendo, trilhando e aprendendo”.

Residente em Porto Alegre, é nos municípios de Maquiné e Caraá, no interior do Rio Grande do Sul, no sítio de amigos e dos pais, respectivamente, que ela experimenta essa aproximação mais sistemática com o ambiente natural. Grande parte de suas fotos, aliás, foi tirada em Maquiné, local onde plantou muitas árvores, ervas e legumes. Outras são na região do Itaimbezinho, no mesmo estado, e algumas pelo Brasil afora, como nas chapadas dos Veadeiros e Diamantina.

O compromisso com o acaso, da forma como é travado, torna o planejamento de ensaios um grande desafio. O que Ieve sabe sobre os seus projetos é que quer aprofundar o tema do sagrado feminino ou do que poderia ser chamado de sagrado feminismo. “Fotos que falam da potência de ser mulher, da potência de amar, do poder do sangue menstrual, do poder dos círculos de mulheres. Também tenho no coração o desejo de criar uma série sobre os orixás e círculos de mulheres negras. E, por último, um sonho de criar um tarô, retratar outros arquétipos e mitos.”

 

capa 197
CONTINENTE #197  |  Maio 2017

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