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Dziga Vertov, pioneiro soviético foi um dos responsáveis pela construção da linguagem documental. Foto: É Tudo Verdade/DivulgaçãoDziga Vertov, pioneiro soviético foi um dos responsáveis pela construção da linguagem documental. Foto: É Tudo Verdade/Divulgação

 

Festival É Tudo Verdade propôs um panorama reflexivo do gênero a partir de dois intensos processos históricos ocorridos no século XX

Duas importantes datas históricas – os 100 anos da URSS, e os 50 anos do movimento que ficou conhecido como Nuevo Cine Latino Americano – ganharam destaque na 22a edição do É Tudo Verdade. Realizado entre abril e maio deste ano, em São Paulo e no Rio de Janeiro, o festival especializado em documentários apresentou uma mostra dedicada à produção documental da URSS e uma retrospectiva da obra do documentarista brasileiro Sergio Muniz, que fez parte do movimento e do Comitê de Cineastas Latino-Americanos, reunido pela primeira vez em 1967.

O documentarista e poeta Sergio Muniz guarda muito vivas as memórias da formação do Comitê de Cineastas Latino-Americanos; que levaria a encontros, exibições e produções cinematográficas, caracterizando um período de intensa parceria e intercâmbio cultural entre cineastas latinos, cujo marco inicial foi o Festival de Vinã del Mar, em 1967, que se estendeu até o final da década seguinte e ficou conhecido como Nuevo Cine Latino Americano (NCL).

Este primeiro encontro foi uma descoberta mútua. Mostrou que, apesar da diversidade de filmes e temas, havia uma unidade entre esses cineastas, na sua maneira de se aproximar do cinema”, conta o diretor.

Um exemplo claro dessa afinidade estética compartilhada pelos cineastas do continente naquele período é justamente o documentário de estreia de Muniz: Roda & outras estórias (1965), um filme-colagem sobre os primeiros meses da ditadura militar brasileira, embalado por canções do então desconhecido cantor e compositor Gilberto Gil. No mesmo ano, o documentarista cubano Santiago Álvarez lançou Now, estupenda reflexão em forma de mosaico sobre o racismo nos EUA. “Santiago filmou o Now ao mesmo tempo em que eu filmava o Roda”, relembra Muniz, “e isso foi antes de nos conhecermos; então não dá pra dizer que um inspirou o outro, eram filmes irmãos e nós éramos compadres, é o que dizíamos”, conta.

Roda & outras estórias e Now são também precursores da linguagem do videoclipe e, assim como muitas realizações do mesmo período, são documentários abertamente políticos. O intercâmbio cultural promovido pelos diretores membros do Comitê do NCL permitiu que a fundamental obra documental de Álvarez circulasse fora de Cuba, por todo o continente latino-americano.

Muniz relembra variados projetos de cineastas que se firmaram na esteira dos encontros do Comitê, como a Escola de Documentário de Santa Fé, fundada por Fernando Birri, e o grupo Cine de la Base, ambos na Argentina; o pioneiro do cinema em língua indígena Jorge Sanjinés, da Bolívia; e mesmo o Cinema Novo brasileiro, que surge no início da década de 1960, para se tornar uma das principais referências de atuação para essa geração de cineastas latinos que viria a seguir.

Havia um horizonte comum, que também já aparecia, por exemplo, nos filmes do Glauber Rocha. Ainda que fossem em sua maioria ficcionais, ele propunha uma revisão de linguagem do cinema, muito influenciada pela realidade brasileira e latino-americana”, explica Muniz. Ele ressalta que havia um ímpeto de conhecer e transformar a realidade através do cinema, “muito por conta do momento político que experimentávamos no continente”, principalmente após a Revolução Cubana, nos anos 1960, e que mudaria radicalmente na década seguinte.

Esse mesmo ímpeto de se aproximar da realidade de maneira mais direta foi o que motivou Sergio e outros realizadores brasileiros – como Geraldo Sarno, Paulo Gil Soares, Maurice Capovilla, Eduardo Escorel, entre outros – a se juntarem no projeto de documentação audiovisual de cultura popular brasileira que, organizado pelo empresário e fotógrafo Thomas Farkas, ficou conhecido como Caravana Farkas. Viajando pelo nordeste do país entre os anos 1960/70, fez uso tanto de técnicas de reportagem tradicionais quanto de narrativas ficcionais para documentar a geografia, a religiosidade, personagens e histórias da região em pequenos documentários.

São desta época alguns de documentários mais inventivos de Sérgio Muniz, como Beste (1969), que mostra como se prepara uma beste, arma rudimentar utilizada antes do aparecimento da pólvora e das armas de fogo, enquanto uma narração em off informa que o filme se passa exatamente no mesmo dia em que o homem pisa pela primeira vez na Lua.

Leia texto na íntegra na edição impressa da Continente #198, edição de junho de 2017.

capa 198
CONTINENTE #198  |  Junho 2017

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