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O ousado gesto de apenas existir

Café com canela, filme de Glenda Nicácio e Ary Rosa, realizado no interior baiano e exibido no 50º Festival de Brasília, mostra a destreza de um novo cinema

TEXTO Carol Almeida

20 de Setembro de 2017

Elenco e equipe do filme são formados majoritariamente por pessoas negras

Elenco e equipe do filme são formados majoritariamente por pessoas negras

FOTO Rosza Filmes

Oxum, rainha das cachoeiras, orixá do amor e da prosperidade, clama o corpo do filme. Força movendo planos, luz, falas, medos, desejos, fantasmas, o de dentro e o de fora do quadro. Intensidade de renovação, água que limpa e abraça numa história que conta a morte para falar sobre as possibilidades do viver, não apenas dos personagens em cena, mas do próprio cinema. Café com canela, primeiro longa-metragem de Glenda Nicácio e Ary Rosa é da ordem (ou desordem) da presença e do tato sem, contudo, perder a potência narrativa e associativa das imagens. Não são quaisquer narrativas de que se fala aqui. É fluxo de afeto a quem historicamente só era dada a possibilidade de ser uma matéria do olhar do outro. Não são quaisquer imagens de que se fala aqui. É um elenco e uma equipe de pessoas negras no interior da Bahia fazendo um novo cinema com a destreza, experiência e serenidade de quem enrola um cigarro pra fumar na rede.

O aroma que vem o título do filme é um dos vários elementos que nos dão a espacialidade para onde Glenda e Ary nos transportam. A cidade de Cachoeira, nesse sentido, é tão personagem quanto as pessoas que circulam por ela. É lá onde uma neta canta para alimentar sua vó. É lá onde essa mesma moça sai de casa pra se divertir com a amiga enquanto seu boy cuida da mesma vó. É lá onde um namorado pede pro seu namorado não dormir cedo porque ele esqueceu a chave de casa. É lá onde as ruas escutam as histórias engraçadas que circulam entre alguns copos de cerveja. E é lá também onde uma mãe se encerra no luto pela morte de seu filho pequeno. Mas a morte dessa criança, bem como a morte de dois outros personagens do filme, funciona aqui como uma peça da roda. Ela não acontece para interromper as histórias dessas pessoas. A morte existe para que elas possam também se mover e se cuidar.

Com uma câmera que toma o corpo subjetivo da cidade, das pessoas e até mesmo do cachorro, o filme consegue costurar uma trama não-linear a partir de uma narração que nunca parece, de fato, ser onisciente a partir do momento em que o próprio espaço onde a história é filmada se transforma em sujeito e pelo fato de que as imagens do tempo presente estão bastante atravessadas pelas imagens-lembranças de uma festa de aniversário filmadas do ponto de vista do pai dessa criança que não está mais presente. No meio disso tudo, os diretores ainda conseguem fazer um exercício raro de usar realismo fantástico não como metáfora, significante-significado, mas sim como dispositivo sensorial possível para dar conta do que é viver o luto de um filho. O sangue que escorre pelas paredes do quarto da mãe enlutada não é uma figura de linguagem dessa perda. É a própria perda. Não se está ali re-presentando, mas vivendo.

No protagonismo dessa história, duas mulheres negras que estão separadas por uma ponte entre as cidades de São Félix e Cachoeira. É preciso que se mencione Margarida (Valdinéia Soriano), a ex-professora que vive em São Félix e Violeta (Aline Brune), a jovem que se sustenta vendendo coxinha, como forças motoras urgentes para a sobrevivência das narrativas do cinema nacional.

Estamos nos anos 2010 falando sobre, finalmente, a possibilidade de começar (começar!) a criar um imaginário positivo e afetivo da população negra do país, um que passe muito distante da perversidade das novelas exotizantes da Globo e do próprio cinema brasileiro ainda tão mal acostumado a ser sempre dito pelo mesmo lugar embranquecido de sempre. A amizade e os laços de ajuda que vão surgir entre Margarida e Violeta não são, de nenhuma forma, novidade para Margaridas e Violetas que atravessam as ruas todos os dias. Mas a essa amizade nunca foi dado um status de imagem cinematográfica. Estamos simultaneamente falando de um cuidado que só está presente em quadro porque passa essencialmente pelo set de filmagem. Por saber que, desde a primeira sequência até o respeito a todos os profissionais envolvidos e devidamente creditados com nome e sobrenome (quem aqui nunca viu motoristas de filmes serem creditados apenas com seus apelidos?), é preciso haver interesse genuíno pelo ser humano.

Inevitável não lembrar de Susan Sontag quando ela escrevia seu artigo-manifesto Contra a Interpretação: “Nenhum de nós poderá jamais recuperar a inocência anterior a toda teoria, quando a arte não precisava de justificativa, quando ninguém perguntava o que uma obra de arte dizia porque sabia (ou pensava que sabia) o que ela realizava. A partir desse momento até o fim da consciência estamos comprometidos com a tarefa de compreender a arte.”

Café com canela não tenta recuperar essa inocência original do sentir que não se explica. Mas é justamente porque não tem pretensão de ensinar ou de se fazer interpretar dessa ou daquela forma, e porque é filmado com a energia de quem conta uma história porque sem essa contação não consegue viver – um cinema que nasce da mais crua necessidade de respirar – que ele se torna um acontecimento. Em tempos onde ainda se acredita que o mundo pode mudar a partir de uma arcaica “tomada de consciência” em detrimento da tomada de sensibilidade, o filme de Glenda Nicácio e Ary Rosa inverte tudo e atinge nossa pele quando faz o ousado gesto de apenas existir.

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