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Cobertura

Que venha a MITsp 2019

Levando a São Paulo uma curadoria equilibrada de espetáculos e ações, quinta Mostra Internacional de São Paulo foi mais quieta em relação a 2017, mas trouxe importantes reflexões

TEXTO PEDRO VILELA, DE SÃO PAULO

12 de Março de 2018

Uma das novidades foi a realização da MITbr, com a apresentação de trabalhos brasileiros como 'De carne e concreto'

Uma das novidades foi a realização da MITbr, com a apresentação de trabalhos brasileiros como 'De carne e concreto'

Foto Nereu Jr./Divulgação

A Mostra Internacional de Teatro de São Paulo mal acabou e a contagem regressiva para o próximo evento foi dada. Se mais de um ano separa a preparação para a sexta edição, certamente questões vivenciadas nos últimos dias servirão para amadurecer ainda mais o modelo definido por seus organizadores.

Enquanto 2017 foi pautado por polêmicas, desde a abertura marcada por protestos ao momento político vivido no país e à presença de espetáculos como Branco, o cheiro do lírio e do formol, este ano a MITsp navegou por águas tranquilas. Não pela ausência de proposições cênicas que “atravessassem” o público, mas principalmente pelo equilíbrio dos espetáculos apresentados.

Passados os 11 dias de intensa programação, os grandes destaques da mostra de espetáculos internacionais foram Palmira, dos artistas Bertrand Lesca (França) e Nasi Voutsas (Grécia), Sal, de Selina Thompson (Inglaterra), e Campo minado, da argentina Lola Arias, todos eles abordados em nossa cobertura. Em comum, o fato de recorrerem a questões de identidade e territórios, tensionando pontos de vistas entre narrativas individuais e coletivas.

Outra obra bastante repercutida foi a leitura do suíço Boris Nikitin para o clássico de William Shakespeare, Hamlet. A decepção de parte do público que esperava ver a escrita do bardo inglês transformada em monólogo contrastou com os que se encantaram com a presença do enigmático performer queer e músico eletrônico Julian Meding. Nessa obra, Nikitin toma a revolta do príncipe da Dinamarca diante de um panorama traçado pela sociedade como “normal” para questionar a presença de corpos dissonantes, a partir da relação entre ilusão e realidade, dividindo bastante opiniões.


Cena de 'Hamlet', com o performer queer e músico eletrônico Julian Meding. 
Foto: Guto Muniz/Divulgação

MOSTRA MITbr
Uma das novidades desta edição foi a realização de uma mostra paralela dedicada à produção cênica brasileira. Considerada como projeto-piloto, a MITbr conseguiu reunir espetáculos de seis estados, com o objetivo de dar início a uma plataforma que visa à internacionalização de obras, além de ofertar ao público um panorama da cena atual em nosso país.

Com a presença de mais de 25 curadores e programadores de festivais e casas de espetáculos, de diferentes partes do mundo, os olhos estiveram voltados com dedicação aos espetáculos Vaga carne, solo da atriz mineira Grace Passô, Carangueijo overdrive, da carioca Aquela Cia de Teatro, DNA de DAN, do artista curitibano Maikon K, e De carne e concreto, dos candangos da Anti Status Quo Companhia de Dança.

Pernambuco esteve presente nessa mostra através do Grupo Magiluth, com o espetáculo Dinamarca, também em torno de Hamlet. Entretanto, apesar de o coletivo pernambucano ter construído, ao longo dos anos, um público que acompanha seus trabalhos na capital paulista, a obra apresentada nessa mostra pouco empolgou a recepção dos críticos e curadores presentes.

Por se tratar de experiência inicial, a mostra ainda careceu de ampliar seu olhar curador que, ao pretender ser nacional, necessita mapear e viabilizar modos de produção possíveis para a presença de uma cena que não seja, em sua maioria, paulistana.

EIXOS FORMATIVOS
Como nos anos anteriores, a grade de ações paralelas para além dos espetáculos continua com grande potência. As atividades formativas possibilitaram aos profissionais das artes cênicas e público interessado a ampliação do repertório de procedimentos e a compreensão da intensa pluralidade de abordagens que demarcam a cena contemporânea mundial.

Sob curadoria de Daniele Avila Small e Luciana Romagnolli, a ação Olhares críticos – nome dado a um conjunto de atividades reflexivas – reuniu um valoroso material, escrito especialmente para a mostra, além de importantes debates públicos. Ponto alto para a mesa intitulada Crítica não é censura: de quem é a arte que pode tudo?.

Ao que parece, a MITsp se fortalece, cada vez mais, como um dos principais eventos cênicos do país, construindo uma espécie de trincheira de enfrentamento contra o desmonte que a cultura, as artes e as minorias vêm sofrendo no Brasil.

Que 2018 passe logo e possamos nos encontra mais uma vez em São Paulo.

PEDRO VILELA é diretor, curador, ator e um dos idealizadores da Trema! Plataforma de Teatro (PE).


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