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Acervo secreto de Maria Carmen

TEXTO José Cláudio

01 de Novembro de 2010

'Cabeças'. Acrílica sobre tela, 200x200cm, 2004

'Cabeças'. Acrílica sobre tela, 200x200cm, 2004

Imagem Reprodução

Apesar de ter tomado conhecimento da arte de Maria Carmen desde o início, ao entrar no recinto da exposição O acervo secreto de Maria Carmen, Museu do Estado (24/set. a 24/out.) e dar de cara com dois belos painéis, senti-me um estranho transportado à tumba de um faraó ou caverna como a descoberta na China em 1911, emparedada desde o século 10, onde o linguista francês Paul Pelliot foi descobrir, entre pilhas de textos antigos, duas línguas extintas, como o pálavi, um persa arcaico (Jean-Claude Carrière, Não contem com o fim do livro), ou cidade soterrada por mais tempo ainda, Pompeia, no ano 79 pelo vulcão Etna e encontrada intacta em 1755, ou Cortês e Pizarro ao chegarem no México e Peru no meio da feira, digamos, como levado por uma máquina do tempo a outras civilizações, assim me vi despreparado para abarcar tudo aquilo, perplexo, maravilhado.

Agarro-me pois aos seus inícios, até certo ponto indo atrás de minha própria biografia, quando nos encontramos no M.C.P. (Movimento de Cultura Popular), época de Miguel Arraes, às vésperas do golpe de 64, eu inventado professor por Abelardo da Hora, de desenho. Ou antes, mas já naquela época, acho que aí é que nos conhecemos, numa galeriazinha na beira do rio, ali perto dos correios, onde eu realizava uma exposição de pinturas feitas com objetos agregados que batizei um tanto espalhafatosamente de “polimaterialismo”, na verdade, no resto do mundo, “polimaterismo” ou “polimatérico”.

Ela foi lá e me convidou para ir ao seu apartamento no Edifício Duarte Coelho, ali pertinho, do outro lado do rio. Mostrou-me umas esculturas de tamanho inusitado, feitas, cada uma, de um chiclete, guardada a coleção toda, conservada com talco, numa caixa de fósforos dessas pequenas.

O M.C.P., para Abelardo da Hora, era uma continuação ampliada do Atelier Coletivo da S.A.M.R. (Sociedade de Arte Moderna do Recife) criado por ele na década anterior, 1952. Uma vez, eu dando aula, na sala da frente do casarão do Sítio da Trindade, muita gente, bem umas cem pessoas ou mais, um grupinho começou a anarquizar. Reclamei: “Não pensem que ser artista é fácil. De todos aqui talvez se salvem um ou dois”, e apontei para Delano e Maria Carmen. Nem do nome deles sabia. Delano há algum tempo me lembrou o episódio. De fato, a que eu saiba, não sobrou mais ninguém.


Mangas verdes. Óleo sobre eucatex, 100x75cm, 2005

Naquela época eu praticava um desenho minucioso, muito tracejado, a bico-de-pena, o que o crítico e romancista José Geraldo Vieira (A quadragésima porta, A mulher que fugiu de Sodoma) chamava de “trabeculado”, sob influência do desenhista paulista Arnaldo Pedroso d’Horta, que depois conheceu Maria Carmen, tornando-se grandes amigos, contágio esse bem presente nessa retrospectiva do Museu do Estado, evoluindo para uns desenhos redondos, com grandes áreas cobertas de texto escrito a mão, que ela chamava, seu lado esotérico, de “mandalas”.

Longe de mim pactuar com o clichê arte-loucura e de fato quando Maria Carmen esteve doente nada produziu. Esse o terremoto que a soterrou. Depois é que veio a saber da alteração sofrida em seu intelecto convivendo, como se verdadeiras, com cenas amedrontadoras enquanto nada sabia do mundo objetivo. O primeiro vestígio de realidade veio através de uma picada de injeção que o médico lhe aplicava e, apesar da sensação de dor, lhe pareceu no entanto mais intensamente prazerosa, tanto que passou a botar pequenas pedras no sapato na esperança de trazer a realidade de volta.

Foi aí que alguém sugeriu que frequentasse o atelier do escultor Humberto Cozzo (São Paulo, 1900-1981) no Rio de Janeiro.

Sobre suas esculturas, certa vez, conversando com sua mãe Dna. Carmita, mulher de fina educação, expus, entre outras bobagens, minha estranheza ante a capacidade de Maria Carmen de modelar o corpo feminino com a sensualidade tátil que somente um homem poderia ter, respondendo Dna. Carmita educadamente, sobre esse contato físico, que uma mulher dá à luz tanto um homem quanto uma mulher.

Depois da época dos desenhos, me despreocupei de suas pinturas, talvez por achar que, como desenhista, ela já estava de bom tamanho, dando-nos ideia de que se realizava completamente no nanquim sobre papel. Calcule-se pois o impacto de, logo de longe, vislumbrar esse desfile suntuoso de seus quadros, até lamentando que os seus amigos e parentes que já se foram não pudessem estar conosco ali, nessa solidão ou desamparo que às vezes nos sobrevem e temos necessidade de socorro. Depois é que a gente começa a ver aqui e ali vestígios e citações, involuntárias ou não, talvez mais de nossas referências do que propriamente dela. “Diego Rivera”, lembrou o pintor José Carlos Viana, encantado como eu diante dos quadros, ao que emendei “Frida” por pura leviandade, que nem é de meu tempo, mas se tivesse dito outro artista que não tivesse nada a ver daria no mesmo, ou apropriação pictórica da linguagem de grafiteiro. O fato é que a exposição é, ou foi, pois já deve ter acabado, “surpreendente” como disse, macaco velho, Abelardo da Hora.

Já está mais do que na hora de se fazer um livro sobre Maria Carmen. Conversando com Margot Monteiro, diretora do Museu do Estado, e Joziane Pinto, na noite da inauguração da exposição, fui inteirado da existência de projeto nesse sentido. “Importantíssimo”, como disse Margot. 

JOSÉ CLÁUDIO, artista plástico.

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