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Memórias de Ismael Caldas

TEXTO José Cláudio

01 de Dezembro de 2010

'Consilium fraudis'. Acrílica sobre tela, 90x60cm, 1993

'Consilium fraudis'. Acrílica sobre tela, 90x60cm, 1993

Imagem Maíra Gamarra/Reprodução

Há pintores de tal modo voltados para si mesmos que qualquer comentário sobre a sua obra torna-se ingerência indébita. É como se imiscuir nos assuntos da casa alheia, em coisa que não nos compete; além de ele, através do próprio discurso muito bem expresso pelos quadros, demonstrar, de antemão, antes até de executar os quadros, a postura que assume; sendo o quadro, como peça em si, secundário, portador que não merece pancada; e quanto mais propositalmente canhestro e risível melhor transmitirá o escárnio, mais ácido o hálito dirigido a essa “coisa malcheirosa”, como ele chama a humanidade, a espécie humana.

Há indivíduos que parece já nasceram cansados, que já perderam a paciência com a imbecilidade humana: e quem não tem dentro de si algum momento dessa descrença, do quanto é vã a esperança de melhorar a fera humana? Contrariamente à ideia de Rousseau de que o homem nasce bom e a sociedade corrompe, há a crença de que o homem nasce ruim, para rimar com Caim, desde Adão e Eva e a expulsão do paraíso, e daí a necessidade do batismo, para quem acredita nessas coisas. Ismael Caldas admite ter ao seu redor grandes pessoas “mas não se pode julgar com base apenas nas amizades”.


Decúbito dorsal. Óleo sobre duratex, 35x122cm, 1998. Imagem: Maíra Gamarra/Reprodução

Apesar de deixar transparecer uma grande sensualidade, suas mulheres são pintadas com um certo nojo ou determinação coprófila e ao mesmo tempo em antiposes que lhes expõem o ridículo, denunciando o falso pudor, revelando aqui e ali o requinte de sadismo, a crueldade da representação, maquiagem que não esconde a feiura, a peruca em vez do cabelo, nessa coleção de seres grotescos, nesse “discreto charme da burguesia”. E aí está uma das chaves da obra de Ismael, a da representação da burguesia, já que é esta a meta a atingir de todo o Ocidente e não sei se da humanidade inteira, o peru de Natal na mesa de todo chinês, como prometia Mao Tsé Tung (e parece que estão chegando lá), uma negra utopia, a generalização de um mundo-cão (em tempo, a “negra utopia” está na busca do padrão burguês e não no “peru de Natal”).

Mas quando se denuncia, subentende-se haver alguma escuta e mesmo quando se prega no deserto há a possibilidade de as ondas sonoras baterem nas oiças de algum receptor, deixando entrever nisso a crença em algum milagre, talvez num planeta distante, ou número reduzido de componentes de improvável confraria. E que seriam abatidos impiedosamente pelos blindados membros do Consilium Fraudis, título que agrupa alguns quadros.


A dona do galgo. Óleo sobre duratex, 120x90cm, 2008.
Imagem: Maíra Gamarra/Reprodução

Antigamente se falava em “paleta do pintor”. Todo pintor que se prezasse tinha a sua paleta, aquela placa de madeira de misturar tintas, alusão às cores ou matizes da predileção desses pintores, algumas cores até ficando na história com o nome do pintor, como “verde veronese”, ou “verde veronês”, de Paolo Veronese (Verona, Itália, 1528-88) ou “azul natier” de Jean-Marc Nattier (Paris, França, 1685-1766) ou os cinzas de Velázquez (Sevilha, Espanha, 1599-1660). Nunca mais ouvira falar nisso mas me ocorre agora, vendo os quadros de Ismael Caldas, pois ele segue rigorosamente a sua paleta inconfundível. Não se trata aqui das cores das nossas paisagens tropicais, da cor do céu e do mar, das árvores ou das flores ou dos pássaros, da nossa natureza “perpetuamente em festa”. As cores de Ismael Caldas não são para “açucenar a vida”, lembrando o poeta Ângelo Monteiro, de uns versos que botei como epígrafe no meu livrinho Ipojuca de Santo Cristo: “com palavras de cor verde/quero açucenar a vida/a que voz, senhores, destes/um gosto de formicida”. É esse “gosto de formicida” que Ismael consegue captar magnificamente. São terras que vão desmaiando na medida da palidez esquálida de suas figuras, uma espécie de Juízo Final, os condenados ainda com os seus disfarces, suas roupas pretas sobre fundo de lambris cor de jacarandá qual esquifes envernizados de tabuinhas perfeitamente rejuntadas, interiores tumulares mas como se as personagens nos olhassem de um trono, de uma cátedra e somente admitissem ou contassem com nossa absoluta subserviência; o pintor nos revela, mesmo num dos seus nus, absolutamente irrepreensível, sem nenhum traço caricato, sugerindo até, através de uma triangulação de linhas, um interesse altamente estético, geométrico, científico, um lado pútrido onde azuis cianóticos transpiram do cianureto de que se nutre. Suas mulheres nos convidam a esmiuçar até o limite do perverso, atraídos que somos pela excelência da representação pictórica. Mas logo recuamos como se diante de um corpo exumado cuja pele se rompesse ao menor toque e se desfizesse como uma pústula.

Alguma coisa paira no ar, além dos aviões do Barão de Itararé, para que três dos nossos melhores artistas, e os artistas são “a antena da raça”, nos alertem, convocando-nos a um “exercício de lucidez” (do textoMemória distribuído no recinto da exposição, onde o pintor também cita, de Mark Twain: “Eu não pergunto de que raça é um homem; basta que seja um ser humano; ninguém pode ser nada pior”): Gil Vicente, com seus “assassinatos”; Roberto Ploeg com a série dos “fora da lei”; coincidindo com essa visão pessimista da sociedade em que vivemos, de Ismael Caldas, que pregou atrás de cada quadro um papel com o fragmento de Jorge Luis Borges: “... essa peculiar majestade que têm os canalhas encanecidos, os facínoras venturosos e impunes”.

Um aceno à tenacidade de Vera Magalhães, sua dedicação até braçal à arte. 

JOSÉ CLÁUDIO, artista plástico.

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