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Urbanização: A modernização contraditória

Grandes cidades conseguem resguardar sua integridade histórica, cultural e ambiental, além da qualidade de vida, frente às intensas mudanças provocadas pelo acelerado desenvolvimento urbano

TEXTO CAROLINA LEÃO
FOTOS ALEXANDRE SEVERO

01 de Janeiro de 2011

Antigo prédio do INSS, construído em 1960, na área central da cidade, o edifício JK está desativado desde 1999

Antigo prédio do INSS, construído em 1960, na área central da cidade, o edifício JK está desativado desde 1999

Foto Alexandre Severo

Cidades existem há milênios. Como Jerusalém ou Roma, Atenas, ou mesmo as de algumas civilizações pré-colombianas. Núcleos altamente funcionalizados, com instituições burocráticas e órgãos de supervisão da vida em sociedade podem ser encontrados em diversos momentos da História. A cidade moderna, no entanto, é um fenômeno recente, que data do surgimento de um pensamento também moderno de organização social, que se estabelece na Europa a partir do século 17. Nos últimos 50 anos, em todo o mundo, foram intensificadas as mudanças pelas quais as sociedades têm passado, desde a Revolução Industrial, com a transformação de técnicas de trabalho e, consequentemente, a alteração do estilo de vida dos cidadãos.

Com a amplitude e velocidade dos meios de comunicação de massa e as facilidades nos meios de transportes, essas transformações se aceleram também no Recife, e vêm marcando pontualmente a experiência urbana nos últimos 10 anos. Nesse período, a cidade se destacou no intenso crescimento da economia regional, que recolocou Pernambuco no cenário financeiro nacional, e redefiniu trabalhos, moradias e opções de deslocamento para os seus residentes.

Os primeiros dados do Censo IBGE de 2010 registraram 1.536.934 habitantes somente na capital pernambucana (em 2000, eram 1.422.905, o que significa um afluxo de mais 114.029 moradores, sejam eles nascidos ou migrados). A estimativa do órgão era de que, em 2009, a população local – incluindo os municípios de Jaboatão dos Guararapes, Olinda e Paulista, que integram a RMR – chegasse a 3,7 milhões. A contagem recentemente divulgada pelo Instituto aponta para 2,8 milhões, um milhão a menos que o estimado, embora não seja necessário o aporte estatístico para se constatar as consequências do aumento populacional e do crescimento urbano.

Apesar de parecer uma cidade pequena – se comparada às principais capitais do país, como São Paulo (11.244.369 de habitantes) e o Rio de Janeiro (6.323.037) –, o Recife tem apresentado os mesmos problemas urbanos das grandes metrópoles, como a estrangulação do deslocamento e das opções de moradia.


A construção verticalizada aponta para a rápida transformação da paisagem urbana, como ocorre no Bairro da Torre

Uma rápida passagem pelos bairros populosos e de classe média de Casa Amarela, Espinheiro, Torre e Madalena aponta para a verticalização como a saída mais recorrente ao enfrentamento de questões sociais como moradia e segurança. E o que sugeriria apenas uma reorganização do traçado urbano passa a refletir outra identidade social. Casinhas miúdas ou casarões opulentos, que tanto marcaram a paisagem histórica local, praticamente deixaram de existir, dando lugar a condomínios residenciais luxuosos, bunkers com parques de diversão. Poucos são os que conservam as residências originais – apenas quando são tombadas.

Como reflexo do crescimento populacional e também do poder de compra, que impulsiona a aquisição de veículos particulares (entre outros bens), o Recife convive diariamente com um trânsito lento e confuso, que não apenas dificulta a circulação no espaço urbano como demonstra a dificuldade da cidade em lidar com a sua modernização. Bem antes disso, nos anos 1940, avenidas como a Guararapes – com seus prédios colossais, construídos como representações monumentais da ditadura Vargas – foram construídas sem levar em conta a rápida urbanização da capital. “As cidades atraentes são aquelas que resistem, no tempo, a pressões de mudanças extemporâneas e poderes circunstanciais, sabendo resguardar sua integridade, paisagem e qualidade de vida. São cidades onde os habitantes têm um papel ativo na defesa de seu estilo de vida e de seus espaços”, observa Circe Monteiro, coordenadora do Laboratório de Tecnologias de Investigação da Cidade – Lattice, da Universidade Federal de Pernambuco (UFPE).

Para Circe, as cidades inovadoras conseguem romper com os seus antigos paradigmas de desenvolvimento, passando a questionar as suas opções históricas. Ela cita, como exemplo, metrópoles americanas que têm discutido a ocupação extensiva do solo, resultado do crescimento de subúrbios periféricos, que implica em grandes deslocamentos pendulares e baixa qualidade de vida urbana. No caso da Europa, reflete-se sobre a necessidade de cidades compactas. “Em ambos os lados do mundo, testemunha-se o crescente movimento de habitantes em prol de ambientes urbanos mais humanos, contra a pressa da vida moderna, da sociedade de consumo, as chamadas slowcities. Com menos carros, menos velocidade, com vias compartilhadas entre pedestres, bicicletas e carros, com prioridade ao movimento de pessoas e pela retomada da vitalidade urbana e da qualidade de vida coletiva”, descreve a especialista.

Mas, e quando essa coletividade reproduz a cultura do consumo? A urbanidade também reflete essa lógica. Ao lado de seus enfrentamentos infraestruturais, a cidade – templo do excesso e da diversidade – emerge como o local por excelência da celebração do poder de compra. Nela, são estimulados investimentos, relações e experiências sociais atravessados pelo consumo – observado desde a popularização do lazer nos shopping centers e mini malls à exploração do mercado publicitário, epicentro dessa cultura.


Casinhas miúdas que marcaram a paisagem histórica local,
praticamente deixam de existir, dando lugar a condomínios
residenciais luxuosos

“A noção de cidade sempre foi consubstanciada pela ideia de pluralidade, vista como um ponto nodal de circulações, de passagens, de combinações, de fluxos. Por isso, seu conteúdo informacional está em constante ampliação”, explica o pesquisador Lourival Lopes, professor do departamento de Design da UFPE e doutorando em Desenvolvimento Urbano pela mesma instituição. Lourival refere-se à distribuição da informação publicitária nos grandes centros como parte inerente da lógica econômica e comercial que os pontua. A ampliação do fluxo que caracteriza a cidade apoia-se também na dimensão que a informação visual tem nas sociedades modernas, determinada pela influência das imagens e do consumo de signos imagéticos que é parte intrínseca da experiência contemporânea.

Uma tentativa de reverter o excesso de informação visual que marca o traçado urbano foi concebida em 2008 pela Secretaria de Planejamento Urbano do Recife, a Lei de Publicidade, que entrou em vigor em dezembro de 2009. Ela limita a informação visual a 700 outdoors e, no máximo, 200 luminosos em toda a cidade. A lei deveria, ainda, possibilitar a valorização de fachadas de prédios comerciais ou áreas residenciais completamente descaracterizadas pela intervenção publicitária.

“Entre os impactos dessa nova regulamentação, destacam-se, até agora,as placas que identificam os estabelecimentos comerciais (que ficaram atrofiados em relação à massa arquitetônica das fachadas), a regularização de 70% das estruturas de porte complexo e maior controle sobre seu estado de conservação, e a permanência de esqueletos de alguns anúncios retirados. A garantia da execução da lei foi baseada em multas onerosas e reforço na fiscalização. Mas esqueceram de criar aparatos para a conscientização da população e dos lojistas sobre a poluição visual. Durante muitos meses, em protesto contra a medida legal, os comerciantes mantiveram suas placas irregulares cobertas com lonas pretas”, lembra Lourival.

PATRIMÔNIO EM SUSPENSO
Um novo espaço público também se desenvolve na medida em que o crescimento econômico define a cidade. Desde os anos 1990, com o Plano de Revitalização de 1993, os esforços em preservar a memória e a história cultural do Recife têm sido feitos em áreas potencialmente turísticas, como o Bairro do Recife. No entanto, lá também jaz uma das ruínas mais famosas da cidade: o edifício Chanteclair. Há mais de uma década, a construção do século 19 sofre um verdadeiro descaso. A recuperação foi anunciada em 2001 e envolveria a transformação do edifício num centro cultural. Até então, vários proponentes estiveram à frente da restauração sem que nenhum deles conseguisse ir adiante, após a insuficiência da declaração dos recursos obtidos, à época, pelo Programa Monumenta, do Ministério da Cultura.


No Bairro do Recife, jaz uma das ruínas mais famosas da cidade, cuja recuperação, anunciada em 2001, ainda não foi concluída

As obras estavam paradas desde 2004, configurando-o como mais um prédio-esqueleto abandonado. Em novembro de 2010, a Realises Empreendimentos, atualmente à frente do projeto, anunciou a retomada da restauração do Chanteclair. O arquiteto Jorge Passos, da JP Arquitetura e Restauro, é o responsável pelo trabalho. Segundo o especialista, é agudo o nível de degradação do imóvel. “Nossa empresa foi contratada para fazer ações que visem estancar o processo de degrado instalado no edifício”, pontua o arquiteto, que classifica o prédio como uma ruína urbana. Ele afirma que já foram feitas obras preliminares, como a limpeza de canteiros, mas o processo de recuperação levará em torno de 15 meses.

Outra carcaça relegada ao desprezo é o Edifício JK, na Avenida Dantas Barreto, também na área central recifense. Construído em 1960, quando a cidade só contava com 40 ônibus elétricos e o brasileiro médio não podia se dar ao luxo de comprar com tanta facilidade o próprio carro, a obra estava em consonância com a modernização opulenta da época e sua obsessão por gigantes que figurassem na paisagem urbana. Leiloado em 2008, o imóvel de arquitetura modernista, que pertencia ao INSS, foi arrematado por 2,3 milhões pelo empresário paranaense Carlos Cristo e deve abrigar um campus da Faculdade Boa Viagem. O processo, no entanto, vem se arrastando desde 2004, após o edifício ser desativado em 1999. Ari Diniz Júnior, diretor financeiro do Grupo Boa Viagem, que administra a faculdade, afirma que a instituição de ensino adquiriu apenas três andares do JK e está em processo de criação de cursos técnicos voltados para a área de saúde – a serem executados em parceria com o Imip.

A CIDADE A SEUS PÉS
Não muito distante dessa avenida, erguem-se – alheias às suas contradições – as torres gêmeas do Bairro de São José, como ficaram conhecidos os edifícios Píer Maurício de Nassau e Píer Duarte Coelho, construídos à beira da bacia portuária, sob o fogo cruzado da opinião pública. Os dois espigões alteraram não somente o skyline do Recife (podendo ser vistos em panorâmicas diversas, de Olinda, ao norte, a Boa Viagem, ao sul) como quebraram uma fronteira urbana de especulação imobiliária, que limitava aquela zona ao comércio.

Esse mesmo bairro de São José – avistado fartamente da área de serviço das torres gêmeas, que têm a cidade a seus pés – já foi morada da classe média urbana, que, no início do século 20, era formada por pequenos trabalhadores e, hoje, seria classificada como classes C e D, e reúne um dos maiores sítios históricos da cidade. Essas áreas de farto capital simbólico vêm sendo alvo da nova especulação imobiliária. Isso acontece em meio ao “esgotamento” de dois tradicionais bairros de moradia das classes média e alta pernambucanas, Casa Forte e Boa Viagem.


Recorte das fachadas da Avenida Guararapes, com prédios
erguidos na década de 1940 e hoje desvalorizados

Em Casa Forte, a indústria da construção encontra sua atuação limitada pela definição de áreas de proteção ambiental, embora já tenha congestionado bastante o bairro. Já Boa Viagem, que emergiu na urbanização dos anos 1940 e se converteu no sonho de consumo da classe média local, encontra-se abarrotado de prédios e declina na preferência do pernambucano, tanto pela excessiva aglomeração humana, pela violência urbana ali existente, quanto pelo congestionamento de suas vias de acesso.

Vera Melo, pesquisadora do departamento de Arquitetura e Urbanismo da UFPE, define a especulação imobiliária em áreas tradicionais como arbitrária. Em sua pesquisa sobre a valorização da Avenida Beira Rio, na Torre – onde prédios têm sido extensivamente construídos à beira do cartão-postal do Recife, o Rio Capibaribe –, concluiu que o setor imobiliário adota “estratégias de marketing”. Essas se utilizam das paisagens da cidade dotadas de valor simbólico para os recifenses, sendo justamente aquelas onde se localizavam os engenhos de açúcar.

Áreas emblemáticas como o Cais José Estelita, nas proximidades do Bairro de São José, também se inserem nesse modelo, pela valorização da origem seminal do Recife. O Bairro de São José é o ponto nuclear do surgimento da vila do Recife e, assim, terreno mítico da própria origem da cidade. “Para vender unidades habitacionais em edifícios desses bairros de origem histórica, os folders e anúncios de jornais se baseiam no discurso do novo x velho, da modernidade x tradição. Eu pergunto: que tradição é essa, se estão sendo destruídos os ‘marcos’ que a representam? É lógico que essa ação tem o respaldo de alguns setores da sociedade, que adquirem ou aprovam esse tipo de conduta. Assim, os valores simbólicos das nossas paisagens têm se transformado em valores econômicos pelo setor imobiliário e sendo consumidos pela sociedade”, pontua Vera Melo.

Empreendimentos como o do Le Parc Boa Viagem, construído pelo grupo Cyrella Andrade Mendonça, também são modelos dessa nova opção de consumo. Trata-se do conceito de “residencial resort”. Nele, o marketing simbólico se vale da venda da paisagem do manguezal do Pina, tombado como Área de Preservação Ambiental. A página virtual do condomínio reflete a emergência das ilhas urbanas: “Le Parc Boa Viagem é uma ilha cheia de magia, cercada por um lazer exclusivo e jamais imaginado. É uma nova experiência de morar: perto da natureza tranquila do Parque dos Manguezais e próximo ao mar serenamente agitado de Boa Viagem”. O que a publicidade oferece como ilustração é uma fotografia aérea da bela área verde que ainda resiste por trás da cadeia de prédios que se insinuam da beira-mar, e que será inevitavelmente transfigurada quando ali forem construídas as nove torres de 22 pavimentos previstas para esse “projeto grandioso”.


A Lei de Publicidade, em vigor desde dezembro de 2009, limitou a informação visual a 700 outdoors e, no máximo, 200 luminosos em todo o Recife

Para Circe Monteiro, o desgaste urbano do Recife é agudo. “Como será que os parisienses reagiriam a um projeto de arranha-céu perto da torre Eiffel, ou à beira do Sena?”, questiona a pesquisadora. “Conheço poucas cidades que se autodestroem tão rapidamente como o Recife. Para obedecer aos imperativos de um crescimento incessante, travestido de desenvolvimento, os novos espaços consomem e destroem a cidade preexistente. Esse processo tem significado não só a morte do passado, mas principalmente de uma vida urbana futura com qualidade”, opina.

“Esse elemento transitório, fugidio, cujas metamorfoses são tão frequentes, vocês não têm o direito de desprezar ou dispensar”, diria um melancólico Baudelaire, à Paris do Barão de Haussman. Nada mais fadado à exaustão do que a modernidade, complementaria o frankfurtiano Walter Benjamin, em 1930. Em 1850, Baudelaire assistiria à mudança pela qual passou a capital francesa ao ser remodelada, com a destruição de seus antigos casarios, que deram lugar a amplos bulevares e largas avenidas e ao surgimento de zonas periféricas.

Benjamin, no entreguerras, destacaria o caráter móvel e autorreferente da cidade, que, associado ao capitalismo, alternaria ciclos de investimentos e lucros com os de recessões. Em 1986, relendo ambos, o filósofo Marshall Berman citaria a experiência moderna como a tragédia do desenvolvimento, premissa formulada em torno do conceito de destruição criativa nietzschiniana.

Se quisermos ir mais longe, ainda no século 17, Goethe simbolizaria essa destruição criativa na figura de Fausto, o espírito que tudo nega. Desde a ascensão da cultura industrial, as cidades tornaram-se parâmetros cabais da modernidade, a qual seria pontuada por transformações urbanísticas e estruturais que a ampliariam para o desenvolvimento do que é chamado civilização.


Vista da cidade a partir dos edifícios Píer Maurício de Nassau e Píer Duarte Coelho, espigões que alteraram o skyline do centro histórico

No contexto local, esse conceito de civilização se estabeleceu nas ações da Liga Nacional contra os Mucambos, de 1939, que enxergou essas moradias miseráveis como “inimigas da cidade e da civilização”, como revelam os discursos políticos de Agamenon Magalhães, executor do projeto.

Para acabar de vez com aquele “primitivismo” do Recife, foram erradicados os focos de “anticivilização”, pela transferência dos seus moradores para lugares distantes do centro, onde trabalhavam, e o aterro indiscriminado das áreas desocupadas. Muitos moradores dos mocambos passaram a ocupar a zona norte da cidade e daí surgiram alguns dos principais bairros pontuados por morros e favelas, como o de Casa Amarela. A questão social passou incólume a essa urbanização, já desenvolvida também sem a menor preocupação com o ecossistema natural da cidade.

Essa modernização contraditória, no entanto, forma o ethos pernambucano, desde a decadência da cana-de-açúcar. A derrocada da monocultura gerou um dos elementos econômicos reestruturadores do estado: uma incipiente classe média, formada por comerciantes instalados em bairros como Boa Vista, Santo Antônio e São José. O centro do Recife deixou de ser apenas ponto de passagem para abastecimento e compras, tornando-se núcleo de ocupação e movimentação urbana. A cidade deixou, assim, de se subordinar ao engenho e ergueu-se soberana. A arquitetura da casa-grande foi substituída pela dos sobrados; as festas populares saíram do palco rural para serem comemoradas nas vilas construídas ao redor desse núcleo central.

No decorrer do século 19, o Recife iniciava a sua trajetória de desenvolvimento que tem como índices de modernidade a criação de instituições e espaço públicos, como o Teatro de Santa Isabel (1850) e o Mercado de São José (1872). Em 1891, a cidade realizou sua primeira eleição para prefeito,com a vitória do abolicionista José Mariano. Data da mesma época do Santa Isabel a construção do primeiro cemitério público do Recife (1851), o atual Cemitério de Santo Amaro. A virada do século, a nossa belle époque, representa um crescimento extraordinário da nossa urbanidade, e com ela se instalou uma mentalidade social de utilização comum dos espaços pelos cidadãos. A abolição da escravatura também aproximou as camadas sociais.


Bairro da zona sul, vizinho de Boa Viagem, Setúbal é caracterizado por ruas em que predominam as “fortalezas” urbanas

A doutora Lúcia Leitão, pesquisadora da pós-graduação em Urbanismo da UFPE, relendo o clássico Sobrados e mucambos, de Gilberto Freyre, obra que percorre exatamente o período citado acima, sugere que a cidade no Brasil produziu um espaço edificado claramente hostil.

“O ambiente urbano no Brasil se constituiu inteiramente em torno da casa, aqui entendida como símbolo maior do espaço privado, em especial do sobrado que, na cidade então nascente, assumiu plenamente as funções reais e simbólicas da casa-grande brasileira. Assim sendo, no tempo em que se deu o desenvolvimento do urbano em nossas terras tropicais, reproduziram-se, tanto no desenho quanto no uso do espaço urbanístico, as mesmas marcas de centralismo, de domesticidade, de privativismo anotadas por Freyre, características da organização social que deu forma à casa-grande patriarcal”, explica. Para a pesquisadora, essa realidade expressa uma profunda rejeição à rua, espaço público fundamental para a vida urbana, plena, citadina. Enfim, para a vida que se pretende moderna.

CASTELIZAÇÃO
“Rejeição” semelhante encontramos numa nova forma de habitação que emerge na cidade com uma nova “castelização”. A construção verticalizada na cidade, desde o tempo dos sobrados, erguida bem acima do nível da rua, aponta o espaço público como um local de desprestígio. “Em sua expressão atual, a primazia do espaço privado, exclusivo e excludente, materializa-se, por exemplo, na construção, cada vez mais intensa, de condomínios fechados nas principais cidades brasileiras, cuja característica marcante é o fato de se constituírem em locais que se fecham em si mesmos”, observa Lúcia Leitão. Para ela, não é apenas o modo de habitação condominial que está em transformação, mas uma área partilhada entre coproprietários que difundem um estilo de vida, um modo de morar onde o espaço privado afastado do ambiente que lhe é externo se faz mais e mais valorizado.

“O marketing feito para atrair potenciais moradores especifica, claramente, a oferta de diversos serviços a serem prestados dentro dos condomínios, de modo que seus habitantes possam usufruir o conforto de vivenciar o espaço da casa, mantendo-se ao mesmo tempo o mais distante possível do espaço da rua”, completa. Os ambientes excluem a experiência urbana na medida em que, com a oferta de serviço e lazer, a morada se estabelece como parâmetro da vivência social. “Os moradores desses ambientes não utilizam esses lugares para a diversão ou para o encontro. As crianças brincam no playground enquanto os adultos se divertem no salão para festas ou em ambientes assemelhados, espaços onde, efetivamente, se dá a convivência. Do ponto de vista social, constituem-se, pois, no campo dos iguais (vizinhos com hábitos, costumes, renda etc. assemelhados), o que lhe tira qualquer característica ou função pública”, observa.

Vera Melo defende que existe um novo espaço público, que podemos questionar se é democrático. “Mas ele é uma realidade que representa a sociedade de consumo global. Faz parte da dinâmica urbana as pessoas utilizarem as áreas públicas nas grandes cidades. No entanto, isso ocorre de forma diferenciada, que precisa ser analisada mais profundamente. Por exemplo, no Rio de Janeiro, apesar da violência que se reflete no espaço público em decorrência do tráfico de drogas, ele é muito utilizado, como as praias, a Lagoa Rodrigo de Freitas, o Parque do Flamengo e mesmo o centro da cidade, no qual as pessoas circulam pelas ruas e bares sem medo.” 

CAROLINA LEÃO, jornalista, mestre em Comunicação e doutora em Sociologia.
ALEXANDRE SEVERO, fotógrafo do Jornal do Commercio.

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