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Gente Nossa: Teatro feito para divertir

Criado no início da década de 1930, época pouco estudada pela historiografia teatral local, o grupo propunha encenação por atores populares, para um público diversificado

TEXTO Leidson Ferraz

01 de Agosto de 2011

Um departamento autônomo voltado para o público infantil montou a opereta 'A princesa Rosalinda', em 1940

Um departamento autônomo voltado para o público infantil montou a opereta 'A princesa Rosalinda', em 1940

Foto Arquivo projeto 'Memórias da cena pernambucana'

Chinfrim. Era uma estreia, assim, que a maioria das pessoas que compareceu ao Teatro de Santa Isabel, na noite de 2 de agosto de 1931, esperava como lançamento do Grupo Gente Nossa, iniciativa dos teatrólogos Samuel Campelo e Elpídio Câmara. Mas os jornais da época atestaram o contrário. Na realidade, aquela expectativa da plateia recifense revelava um sentimento de inferioridade, sob o qual era comum acreditar que apenas as companhias teatrais estrangeiras ou as “do Sul” tinham qualidade, especialmente as portuguesas e cariocas.

Tal descrédito, no entanto, não afetou o lançamento do primeiro elenco “permanente” a ocupar o Teatro de Santa Isabel, a mais importante casa de espetáculos da capital pernambucana – naquele momento, quarta cidade do Brasil em população e com quatro teatros no centro (existiam ainda o Cine-Teatro Helvética, o Moderno e o Parque). Nos subúrbios, algumas sociedades dramáticas de amadores possuíam seus próprios teatros, mas, excetuando-se a companhia Teatro Mirim, em 1929, nenhuma outra se atrevera a ter como “sede” o Santa Isabel. As produções eram modestas e pensadas para pequenas e médias salas de espetáculos.


O grupo era formado, em sua maioria, por artistas populares. 
Foto: Arquivo projeto
Memórias da cena pernambucana

Desde a Revolução de 1930, Samuel Campelo administrava aquela casa e, em longas conversas noite adentro, nos bancos da Praça Siqueira Campos, já dividia com Elpídio Câmara o sonho de possuir uma equipe continuada de teatro, mesmo diante da incredulidade da imprensa e do público. Samuel era dramaturgo, jornalista e advogado; Elpídio, um modesto funcionário público, e ambos já haviam atuado em vários conjuntos teatrais, como o Grêmio Familiar Arraialense, Sociedade Dramática do Feitosa, Companhia Cândida Palácio-Otavino Chaves ou o Núcleo Diversional de Tejipió, todos de vida efêmera.

FUTEBOL E TEATRO
O Grupo Gente Nossa surgiu, de fato, a partir do pedido de Elpídio de realizar uma sessão especial com renda para ele próprio, prática dos atores da época. Era o pretexto que Samuel esperava para reunir ainda no elenco Ferreira da Graça, Lourdes Monteiro, Diógenes Fraga, Lélia Verbena, Luís de França, Jovelina Soares e Irene Mariz, na comédia A honra da tia, de sua autoria. A apresentação fazia homenagem a jogadores pernambucanos que viajariam para uma competição em São Paulo e à Associação dos Cronistas Desportivos. Essa mistura de futebol e teatro foi pensada para atrair maior público. E deu certo.


O espetáculo Terra adorada foi um dos últimos levados aos palcos pelo Gente Nossa.
Foto: Arquivo projeto
Memórias da cena pernambucana

Segundo conta o historiador e crítico Joel Pontes, no livro O teatro moderno em Pernambuco, o Grupo Gente Nossa surgiu “para coibir o excesso de estrelismo, cumprir seus deveres com os artistas contratados e sócios-mantenedores (que pagavam mensalmente e tinham exclusividade nos primeiros espetáculos), e ocupar o Teatro de Santa Isabel, sempre que companhias itinerantes não o demandassem”. Como muitas dessas vinham com frequência ao Recife, Samuel levou a peça às salas dos subúrbios, “para afinar o elenco”.

Em outubro de 1931, a equipe voltou ao palco do Santa Isabel com a farsa Engano da peste (novo título para o texto Peripécias de um defunto, do próprio Campelo) e o sainete – peça curta –Mamãe quer casar, de autor desconhecido. Novos e consagrados atores passaram a integrar o grupo, como Luiz Maranhão, Barreto Júnior e Lenita Lopes, todos já reconhecidos por suas excursões ao Interior. Em dezembro daquele ano, o Gente Nossa já possuía uma renda mensal assegurada pelos sócios, era elogiado nacionalmente, e preparou uma prévia dos espetáculos musicais que viriam a seguir, com presença do tenor Vicente Cunha no elenco, dos compositores João e Raul Valença na equipe, e orquestra regida pelo aclamado maestro Nelson Ferreira.


Samual Campelo. Foto: Arquivo projeto Memórias da cena pernambucana

Naquele momento, o público gostava de acompanhar revistas, comédias e burletas – sátiras com números musicais. Há quem critique o repertório do grupo por essas escolhas. “Ao contrário de alguns conjuntos que despontavam pelo Brasil e propunham um teatro de arte elevada, de elite para a elite, Samuel Campelo defendia um teatro como diversão e cultura. Tanto que o Gente Nossa era formado, em sua maioria, por artistas populares e a plateia, a mais diversificada possível. O importante era disseminar o amor pela arte teatral, e ele acreditava que o riso também era um poderoso instrumento para se educar o público”, afirma a pesquisadora Ana Carolina Miranda.

Autora de O Grupo Gente Nossa e o movimento teatral no Recife (1931-1939), dissertação de pós-graduação em História pela Universidade Federal de Pernambuco, com lançamento previsto para 2012 pelas edições Sesc Piedade, Miranda discorda dos que não veem com bons olhos a produção daquele período. “O Gente Nossa surgiu na década de 1930, época pouco explorada e por vezes desvalorizada pela historiografia teatral. Muitos pesquisadores negligenciaram a nossa realidade porque queriam que o teatro brasileiro tivesse uma cara europeia, mas o país estava em outro caminho. Buscava-se uma identidade nacional, de estímulo à dramaturgia, e é nesse ponto que se encontra sua grande riqueza”, defende. Entre os autores nordestinos montados pelo grupo, destacam-se Silvino Lopes, Lucilo Varejão, Hermógenes Viana, Raul Valença e Valdemar de Oliveira.


Elpídio Câmara. Foto: Arquivo projeto Memórias da cena pernambucana

CRISES
Manter a “estabilidade” do Gente Nossa era difícil. Além da falta de subvenção, já que muitas vezes o grupo foi abandonado tanto pelos sócios financiadores quanto pelo público, o maior problema era o revezamento constante do elenco. Barreto Júnior, ainda em 1932, arrastou atores para fundar a própria companhia. Muitos dos que ficaram eram empregados no comércio e não conseguiam dedicar-se exclusivamente ao grupo, impossibilitando, inclusive, um aprimoramento na interpretação. Dentro desse contexto, Abelardo Cavalcanti (Coleguinha) foi fundamental na sua função de ponto, dentro de uma caixa embutida no proscênio do palco, dando as deixas das falas para os intérpretes.

Para atrair a atenção do público, muitas tinham que ser as estreias. Tantas que, em maio de 1932, o Gente Nossa representou 22 espetáculos em um mês, encenando nada menos que 12 autores diferentes, sendo algumas peças musicais. Em maio de 1934, foram 12 representações, muitas de grande responsabilidade, como a opereta Ninho azul, de Valdemar de Oliveira; Deus lhe pague, de Joracy Camargo; O dote, de Artur Azevedo; Mãe, de José de Alencar; O feitiço, de Oduvaldo Viana; Eu não sou eu, de Silvino Lopes; A mulher de porcelana, de Filgueira Filho; e Cartazes do amor, dos Irmãos Valença. A equipe publicou, ainda, duas revistas e o jornal Nosso Boletim, que chegou até o 11º número.


Valdemar de Oliveira. Foto: Arquivo projeto Memórias da cena pernambucana

Para tantas realizações, foi fundamental a parceria de Samuel Campelo com Valdemar de Oliveira, iniciada no final de 1931. Os dois já eram amigos antes da estreia do grupo, dividindo a autoria das operetas Aves de arribação (1926), A rosa vermelha (1927) e da revista Sai, Cartola! (1927). Homem influente, Valdemar seguiu com o Gente Nossa mesmo após a morte de Samuel, em janeiro de 1939, iniciando uma intensa maratona de espetáculos quase diários, nos palcos do Santa Isabel ou dos cine-teatros dos subúrbios do Recife e Olinda, do interior de Pernambuco e de estados próximos.

Dizem que Samuel, de saúde frágil, morreu de “traumatismo moral”, depois que sua peça, S.O.S., foi acusada de ideias comunistas por um censor e proibida de ser apresentada no Recife.


Barreto Júnior. Foto: Arquivo projeto Memórias da cena pernambucana

Sem Samuel, Valdemar trabalhou em parceria com Elpídio Câmara – que passou períodos afastado do Gente Nossa, em excursões e contratos fora de Pernambuco –, Luiza de Oliveira, Irma Campelo, Osvaldo Barreto, Alfredo de Oliveira, Maiaber Carvalho, Lenita Lopes e Barreto Júnior, entre outros, e conseguiu grandes feitos, com produções importantes como Jesus, obra do maestro Felipe Caparrós, ou Mocambo, dele próprio e Filgueira Filho, levada a operários através de convênio com o governo. Fundou ainda o Teatro Infantil de Pernambuco, departamento autônomo do grupo que produziu, em 1940, três grandes operetas para crianças: A princesa RosalindaTerra adorada e Em marcha, Brasil!.

Mesmo com incentivos do poder público – que ele chegou a recusar, certa vez, sem esclarecer –, Valdemar confessou em seu livro de memórias, Mundo submerso: “O Grupo Gente Nossa já não era o mesmo. Faltava-lhe alguma coisa, embora não faltasse dinheiro. Mas, essa alguma coisa era tudo”. Referia-se a Samuel Campelo. O fato é que a morte do grupo nunca foi anunciada, e desse lento desaparecimento, em 1941, surgiu o Teatro de Amadores de Pernambuco, que nas suas primeiras peças assinava como “departamento autônomo do Gente Nossa”. Mas essa já é uma outra história… 

LEIDSON FERRAZ, ator, jornalista e pesquisador teatral. 

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