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Da "displicência" na arte

TEXTO Rodrigo Braga

01 de Setembro de 2011

Rodrigo Braga

Rodrigo Braga

Foto Ivaldo Bezerra/Divulgação

Tempos pós-modernos em jovem milênio: das artes políticas e engajadas, dos conceitos articulados, dos mercados sedutores, das mídias ávidas, das curadorias velozes, das coerências contextuais, dos artistas ph.D., das linhagens e citações filosóficas, das carreiras programadas. Nesse contexto, ao se falar em sensibilidade criativa e uso da intuição na arte, incorrer-se-á sempre num risco. Como se quem recorresse a “métodos intuitivos” estivesse muito próximo de um misticismo ou de um romantismo piegas. Mas, há ainda espaço para um processo intuitivo na criação?

Evidentemente, os vários conteúdos em diversos campos estão emaranhados. E, mortal que é, o artista está enredado nesse complexo tear que constitui a sociedade. Mas ele não é linha, é agulha. Atento e quase sempre sensível, ele ajuda a dar forma à rede, engendrando, de maneira sutil (ou mesmo direta), diversos saberes e sensibilidades. É quase impossível conceber-se, hoje, um estado de criação autônomo e intrínseco apenas ao seu próprio fazer estético e aos cânones específicos das artes, sem levar em conta um pensamento que articule um pouco de tudo: política, ciência, mercado, religião, ética, enfim.

Contudo, ao artista não cabe afirmar nem produzir narrativas lineares, tampouco conduzir defesas de posturas, mesmo éticas. Cabe o devir de um processo inconcluso, estar em dúvida e propor a indagação, ser amigo da entropia, acender uma brasa em que arda a superfície do outro. Nesse sentido, há um valor especial na displicência, na necessária ignorância que encoraja e dá sentido à arte. E a flutuação entre estar elucubrativo e assumir certo devaneio, entre um estado de atenção e uma quase negligência, pode ser a força dessa trama que é inerente a quem cria. Ter a percepção aguçada e dar vazão a conexões insólitas, valendo-se de processos mentais e sensoriais, é fundamental para a geração de novas práticas.

O artista na contemporaneidade faz arte enquanto vive seu cotidiano, pois está imerso numa espécie de estado de “alerta criativo”, uma maneira de raciocinar que o permita “ter ideias” a qualquer momento, não necessariamente tendo que parar no tempo e espaço de seu ateliê. Longe de conexões diretas com o divino, esses insights (comumente e perigosamente conhecidos como “inspiração”) nada mais são do que o encontro de experiências acumuladas e de pensamentos flutuantes com a sensibilidade poética aguçada. Não é necessário ponderar nem refletir demais. Em matéria de criação, a escolha é fazer o que o desejo aponta, sem construir roteiros, sem almejar metas, sem se pautar por demandas alheias e, sobretudo, sem medir consequências, crendo na utopia da primeira vontade para onde aponta a agulha, pois liberdade para experimentar é essencial para o exercício da criatividade. 

RODRIGO BRAGA, artista plástico.

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