Clique ao lado para visualizar o sumário da nova CONTINENTE.

Arquivo

Necrópole: A história de uma cidade silenciosa

Construído no século 19, sob orientações sanitaristas e com modelo arquitetônico europeu, o cemitério de Santo Amaro é um capítulo polêmico no urbanismo pernambucano

TEXTO ROBERTO BELTRÃO
FOTOS CHICO LUDERMIR

01 de Novembro de 2011

As esculturas de crânios humanos remetem ao caráter transitório da matéria

As esculturas de crânios humanos remetem ao caráter transitório da matéria

Foto Chico Ludermir

Passos lentos, mãos postas para trás, olhar distraído, um senhor negro usando tênis, bermudas e camiseta tipo regata caminha entre esculturas de anjos, heróis e mulheres chorosas. Nesse espaço cheio de ícones antigos, imperam árvores altas, folhas balançam suavemente ao comando da brisa morna que sopra próximo ao meio-dia. E o leve assobio do vento é o único ruído a desafiar o silêncio desse cenário, espaço semelhante a um parque público ou a um jardim antigo. O aposentado Alexandre Antônio Aureliano de Araújo, 58 anos, gosta da tranquilidade que encontra, refúgio perfeito para horas de meditação solitária. Morador das redondezas, visita o local pelo menos duas manhãs por semana. Mas não conta à esposa sobre esses passeios. “Ela não gosta daqui, diz que é triste e faz medo.”

Um pouco de atenção basta para compreender a repulsa da mulher de seu Alexandre ao lazer adotado pelo marido. Árvores e esculturas delimitam ou decoram túmulos, jazigos e mausoléus criados com o esmero de quem não quer que a lembrança do parente falecido desapareça. Cuidado confeccionado em mármore e escrito em letras de cobre. Uma beleza serena permanece num abraço eterno com a morte, entre os muros do Cemitério de Santo Amaro, o mais tradicional campo santo do Recife. Seu Alexandre não tem medo, nem sente tristeza quando vai até lá. Entende o cemitério como um oásis de paz, barreira sólida para isolar a agitação que fustiga a metrópole. Não se dá conta de que o Santo Amaro é quase um museu ao ar livre, lúgubre guardião da arte e da história pernambucana.

A própria criação da necrópole, no século 19, foi capítulo importante na urbanização da capital. No livro Assombrações e coisas do além, a socióloga Fátima Quintas lembra que a tradição patriarcal da aristocracia canavieira impunha o costume de enterrar os mortos nas capelas dos engenhos – apenas por serem defuntos, não deveriam ser excluídos da convivência com as pessoas mais chegadas. Entendia-se que a morte não era suficiente para romper os laços de afetividade e poder dentro das famílias. E, se não fosse em suas propriedades, os finados pelo menos teriam direito a um cantinho dentro de uma igreja, ou no terreno ao lado dela. Guardando-se bem o corpo, a alma estaria protegida dos castigos do purgatório ou mesmo do inferno.


A ocupação das ruas do campo-santo obedece a hieraquias, em que os ricos ocupam as vias centrais

Mas esse hábito foi repudiado pelo racionalismo advindo com um mundo em processo de industrialização, que passava a ser regido pelas determinações da ciência. Percebeu-se que era um perigo para a saúde pública manter cadáveres próximos dos vivos. “O cemitério é uma criação iluminista, uma visão nova que veio quebrar muitos dos conceitos da religião”, esclarece o professor de História e Teoria da Arquitetura da Universidade Federal de Pernambuco, Maurício Rocha de Carvalho. “O conceito de que estar em uma igreja era garantia após a morte vai ceder lugar ao higienismo, pois se percebeu o risco da contaminação por gases e miasmas que vêm da matéria em putrefação.”

CONTRA A NECRÓPOLE
Houve, claro, bastante reação ao novo conceito. A ideia de criar uma necrópole pública no Recife já era discutida pelos governantes e pelo clero pernambucano em 1801. Mas, de acordo com o compêndio Anais pernambucanos, volumosa obra do historiador F. A. Pereira da Costa, só em 1817 o governador Luís do Rêgo Barreto solicitou ao bispado que ordenasse aos párocos e autoridades eclesiásticas um levantamento sobre um “sítio separado da cidade, seco e ventilado, para se levantar um cemitério separado da cidade, para se levantar um ou mais cemitérios, onde fossem sepultados, sem exceção, os cadáveres de todas as pessoas, ficando proibido o enterramento nas igrejas, logo que fossem concluídos os cemitérios”.

Uma primeira lei, prevendo a realização da obra, ficou pronta em 1828 e, ao longo dos anos seguintes, provocou muitos debates no Conselho do Governo da Província para tratar da aquisição do lote necessário. Em 1841, uma comissão composta por médicos e pelo engenheiro Louis Léger Vauthier – o responsável pelo projeto do Teatro de Santa Isabel – foi nomeada para determinar a área mais adequada ao empreendimento. O relatório, com o devido orçamento, foi entregue à presidência da província dois anos depois e indicava a escolha de uma “grande propriedade territorial situada em Santo Amaro das Salinas, entre as estradas de Olinda e de João de Barros”, localidade que, na época, estava “fora do perímetro” do município. Ainda assim, nada foi feito de imediato e só uma epidemia de febre amarela, em 1849, obrigou o governo a enfrentar os “preconceitos populares” e dar andamento à iniciativa.


A Casa das Almas é um local a que ocorrem aqueles que buscam auxílio dos “espíritos”

O engenheiro José Mamede Alves Ferreira substituiu Vauthier e um muro foi erguido para demarcar o terreno. A casa que lá existia foi convertida em capela provisória e recebeu as bênçãos do bispo diocesano D. João da Purificação Marques Perdigão, em março de 1850. O cemitério foi aberto oficialmente em 1º de março do ano seguinte, “desvanecendo por completo os clamores que levantavam os espíritos supersticiosos contra tão providente instituição”, como registrou Pereira da Costa. No dia de abertura, apenas um menino negro, de nome Francisco e morto com dois dias de nascido, foi sepultado no local. Ao final de 1852, 2.181 finados já faziam do Santo Amaro a derradeira morada.

SENHOR BOM JESUS
O nome “Cemitério de Santo Amaro” consagrou-se no imaginário recifense devido à localidade onde foi construído – que depois viria a ser um dos bairros mais populares da cidade. Na verdade, chama-se Cemitério Senhor Bom Jesus da Redenção. O nome cheio de pompa é mais adequado a um assentamento que, desde o início, teve a marca da imponência. A começar pelo gradil que protege a entrada principal: um trabalho minucioso em ferro fundido, no qual se destacam figuras de anjos ajoelhados em sinal de adoração, produzido pela famosa Fundição d’Aurora, ou A C. Starr & Cia. Pernambuco, empreendimento do inglês Christopher Starr.

Conta o escritor e pesquisador Leonardo Dantas Silva que o gradil recebeu elogios do imperador D. Pedro II, quando esteve em visita à capital pernambucana em 1859. Naquela época, dois medalhões decoravam as colunas laterais dos portões: de lado, uma coroa; do outro, uma com a mitra episcopal – um cemitério sob os auspícios do regime imperial e da religião predominante.


Os anjos da guarda, seres alados que adornam as lápides, indicam
o caminho que o finado deve seguir como cristão livre de pecados 

A distribuição dos túmulos, jazigos e mausoléus segue um traçado semelhante ao adotado em cemitérios urbanos da Europa. Há uma capela central de onde partem para todos os lados “ruas” estreitas ou largas, distribuídas de forma simétrica, à semelhança de uma estrela emitindo seus raios. E a disposição dos túmulos nessa cidade em miniatura revela que a estratificação de classes sociais também prevalece no pós-vida. Os jazigos mais bem-ornamentados estão nos eixos principais, em particular, aquele ladeado por altas palmeiras, que vai do portão do cemitério à capela. Os ricos e poderosos eram enterrados nos pontos considerados mais nobres da necrópole, assim como as famílias de maior poder aquisitivo preferem hoje viver à beira-mar ou em avenidas de bairros de classe alta. Nas ruas periféricas ou atrás da capela é raro encontrar um túmulo com decoração mais caprichada ou que pertença a um personagem de destaque.

ARTE FÚNEBRE
O professor Maurício Rocha de Carvalho afirma que é possível traçar uma linha de sucessão das escolas arquitetônicas que estiveram em voga no país, quando se observa os túmulos no Santo Amaro. “Neoclássico foi primeiro: na época em que o cemitério foi construído, a estética predominante aqui, no Brasil, quase a estética de Estado, era o Neoclassicismo”. Por isso, em muitas estruturas estão as características colunas clássicas sustentando um pórtico triangular. É grande também a influência do neogótico na composição do cenário solene que se vê no local – a começar pela capela central, marcada pelo verticalismo das formas. “E, além desses, você vai encontrar diversos estilos: o eclético, o moderno e, ultimamente, tem aparecido o pósmoderno”, enumera Carvalho.

O visitante comum, não afeito aos detalhes arquitetônicos, certamente fica mais impressionado com as esculturas que decoram alguns jazigos. Anjos e mulheres de expressão chorosa são as mais observadas. Mas também existem bustos dos próprios moradores dos túmulos, reproduções de animais e até macabras caveiras. As estátuas são feitas de mármore ou de massa: cimento branco com cal e areia – mesmo material com que se fez os ornamentos da capela. Todos esses ícones são carregados de simbolismos, mensagens, às vezes, de difícil de interpretação, quando se desconhece o contexto em que foram criadas as peças.


Uma visita ao campo-santo pode oferecer momentos de contemplação e respeito à vida

As esculturas de crânios humanos colocadas em alguns túmulos, por exemplo, podem parecer um adereço de mau gosto aos olhos contemporâneos, mas, para os antigos, eram lembretes sobre o caráter transitório da matéria em contraposição à imortalidade da alma. Já as estátuas das mulheres tristonhas são o registro do eterno luto, da dor irreparável vinda com a perda daquele parente tão querido. “No passado, a morte era encarada com muito mais comoção e as famílias precisavam explicitar esse sofrimento para a sociedade”, lembra o professor Maurício.

Ele também destaca a relevância dos anjos postos sobre as construções tumulares. Geralmente, representam o anjo da guarda e, na maioria das vezes, olham ou apontam para o céu. Com esse gesto, segundo Carvalho, os seres angelicais indicam “o caminho que o finado deve seguir” – como cristãos probos, agora livres dos pecados da existência terrena, iriam encontrar a redenção no paraíso celeste. Curioso é quando uma estátua de um cachorro está sobre o túmulo: é uma alusão à fidelidade e honradez que teriam orientado o caráter do morto homenageado, revela o professor.

Há ainda o estatuário que almeja recriar os mínimos detalhes da fisionomia e da vestimenta dos finados. O melhor exemplo disso, no Santo Amaro, é o mausoléu reservado à família do cearense Antônio Cândido Antunes de Oliveira, Barão e Visconde de Mecejana. No relevo, esculpido em mármore, notam-se os pormenores da elegância de aristocratas brasileiros do século 19. Leonardo Dantas Silva relembra que esse túmulo recebeu, primeiro, os corpos da filha e do genro do barão. O casal morreu durante uma epidemia, depois de longa convalescença. Pai e sogro extremado, o fidalgo mandou fazer o mausoléu na Itália. Na obra suntuosa, as figuras dele e da esposa, Dona Colomba, são retratados de joelhos, em posição de prece. “Pois foi assim que os dois ficaram ao lado dos leitos da filha e do genro, durante a doença, uma alusão à dedicação e à união familiar”, interpreta Silva. Anos mais tarde, os corpos do Barão e da Baronesa de Mecejana também foram postos no jazigo, conservado por décadas, graças aos recursos financeiros que o aristocrata precavidamente reservou para esse fim.

POLÍTICOS MORTOS
O costume que vem do mundo antigo (Egito, Grécia, Roma), de salvaguardar a imagem de líderes políticos com esculturas grandiosas, pode ser observado no Santo Amaro. Entre as mais significativas, está o monumento construído para conter os restos mortais do abolicionista Joaquim Nabuco. O falecimento foi em 17 de janeiro de 1910, na cidade de Washington, capital dos EUA, onde o pernambucano atuava como embaixador. O corpo embalsamado foi trasladado primeiro à capital brasileira da época, o Rio de Janeiro, onde o Herói da Abolição recebeu prolongadas homenagens póstumas, para depois ser conduzido ao Recife, lugar escolhido para o descanso final, conforme a sua própria vontade.

E a moradia definitiva de figura tão ilustre deveria estar à altura. Além do busto de Nabuco, o jazigo comporta a imagem de um casal de negros, beijando-se e abraçando-se como que comemorando a liberdade junto com o filho – o alívio pelo fim da escravatura resumido em apenas uma cena.

Destaca-se também a arte em granito no túmulo de outro personagem da política pernambucana. O jazigo escuro do governador Manoel Borba é encimado por um altivo leão que protege a deusa grega Têmis, vista ali sem venda nos olhos e sem balança numa das mãos, diferentemente de como costuma ser representada nos tribunais. Têmis está acuada e o leão de Pernambuco, o Leão do Norte, a defende. Isso porque Manoel Borba foi incansável defensor dos interesses pernambucanos frente às tentativas de interferência do governo federal. Para quem visita o Santo Amaro, é fácil notar o imenso jazigo que resguarda o corpo do governador Agamenon Magalhães, vítima de morte súbita, quando ainda estava no poder, em agosto de 1952. Uma estátua em bronze ornamenta a parte da frente do túmulo, feito de modernas linhas retas.


O maior símbolo do cristianismo está presente em várias das lápides e em mausoléus

GAVETAS
Entristece perceber que a maior parte dos velhos túmulos do Santo Amaro não recebe a manutenção adequada. Algumas famílias que seriam responsáveis por eles já não existem e, outras, simplesmente, não têm interesse em fazer a conservação. Isso sem falar no vandalismo. O resultado são mármores rachados, epitáfios com letras faltando, estátuas quebradas e enegrecidas. A prefeitura local faz regularmente a limpeza e organização do cemitério, mas não pode interferir nessa questão, porque os jazigos perpétuos são propriedade dos herdeiros.

A praticidade do tratamento dado aos defuntos dos tempos atuais também oprime a estética grandiloquente dos tributos aos finados de outrora. O professor Maurício Rocha de Carvalho lembra que, no século 20, com o êxodo rural, a população começou a aumentar de forma assustadora nas grandes cidades. Em alguma delas, o número de habitantes passou de um milhão de pessoas, caso do Recife. “E o excesso de pessoas significa um excesso de mortos”, equaciona Carvalho.

“A superlotação levou os administradores a adotar novas estratégias para acomodar de forma decente os falecidos e, como não havia mais espaço para covas rasas, foram criadas as gavetas. Santo Amaro está cercado de gavetas.” Elas são construções simples de alvenaria, blocos de poucos andares que agrupam vários cubículos. Em cada unidade, há apenas o espaço necessário para o caixão funerário. Na maioria deles, os corpos só ficam guardados por um prazo de dois anos. Depois, os ossos são retirados e devolvidos aos familiares, que os levam a um ossuário. A gaveta é, então, ocupada por outro corpo.

Não é esse cenário – uma espécie de conjunto habitacional mortuário, predominante nos 140 mil metros quadrados do cemitério – que o aposentado Alexandre Antônio aprecia nos seus passeios matinais quase secretos. “O antigo é o que tem de bonito aqui... Eu, pelo menos, acho.” 

Leia também:
Fé na menina sem nome
Último abrigo aos ingleses
O que encerra o epitáfio?
Em Charleville-Mezières, em busca do morto inquieto

Publicidade

veja também

Stop Motion: A fascinante ilusão de movimento

Alimento para a memória da alma

José Teles: A máquina de escrever