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Ficção científica com selo do Brasil

Ainda que com poucos exemplares, a produção cinematográfica neste gênero se inicia em 1908, com o uso de efeitos especiais

TEXTO Rodrigo Carreiro

01 de Setembro de 2013

Longa 'Carnaval em Marte', de 1954, é desconhecido do público e cultuado por cinéfilos

Longa 'Carnaval em Marte', de 1954, é desconhecido do público e cultuado por cinéfilos

Foto Reprodução

Falar do gênero de ficção científica no Brasil é tarefa complicada. E não apenas no cinema: em 1976, o escritor Fausto Cunha escreveu e publicou um artigo intitulado A ficção científica no Brasil: um planeta quase desabitado, em que denunciava a escassez de trabalhos literários que pudessem ser enquadrados no gênero, um dos mais populares da literatura ao longo do século 20. Era verdade. Mais do que isso, até: ainda que livros e contos com temáticas típicas da ficção científica fossem publicados pontualmente, inclusive por autores consagrados como Machado de Assis e Monteiro Lobato, o gênero jamais conseguira o tipo de produção massiva que lhe desse robustez e visibilidade.

É fácil, quase instantâneo, transpor esse raciocínio para o cinema. Ora, se na literatura – em que a produção de obras custa pouco mais do que o suor do escritor e o preço de “lápis e papel” – o gênero, nascido durante a Revolução Industrial europeia do século 19, não tem produção e consumo expressivo dentro do país, que dirá em uma arte coletiva, de manufatura cara, cuja relação de produção com a tecnologia de ponta é estreita e imprescindível? Um observador desatento provavelmente alimentará a impressão de que não existe cinema de ficção científica no Brasil. Essa impressão, contudo, está errada. Mesmo que seja tarefa árdua delimitar uma lista de filmes enquadrados no gênero, eles têm sido realizados em terras tupiniquins há mais de um século – mais precisamente, desde o longínquo ano de 1908.

Naquele ano, pouco mais de uma década após o surgimento do cinema como atividade comercial (a data oficial de invenção da sétima arte remonta a 28 de dezembro de 1895, quando os irmãos Louis e Auguste Lumière realizaram a primeira sessão pública de exibição de filmes, em Paris), o Brasil ainda engatinhava na produção cinematográfica, mas tinha pelo menos dois trabalhos nacionais em circulação: O Diabo, de Antônio Campos, e Duelo de cozinheiras, de Antônio Leal.

Os dois títulos, identificados pelo professor Alfredo Suppia, da Universidade Federal de Juiz de Fora (MG), investiam fortemente em efeitos especiais: o primeiro imaginava um encontro entre um homem e o demônio, enquanto o segundo exibia os efeitos das tecnologias de destruição da guerra nos corpos de algumas pessoas, cujos braços, pernas e troncos ganhavam vida própria e enfrentavam seus donos. A esses filmes veio se juntar, em 1909, Fósforo eleitoral, de Antônio Serra, uma sátira política que também investia no cruzamento de ciência e fantasia.

O pesquisador Alfredo Suppia, que escreveu uma tese de doutorado na Universidade de Campinas (SP) contando a história do cinema brasileiro de ficção científica, é a maior autoridade brasileira em filmes nacionais desse tipo. Ele identifica o hibridismo de gêneros fílmicos como principal característica dos filmes de ficção científica produzidos aqui. No Brasil, desde o começo do século 20, a temática sci-fi não costuma aparecer isolada, como ocorre nas filmografias de países como os Estados Unidos e a Inglaterra; ela vem combinada com elementos de outros gêneros cinematográficos tradicionais, como o melodrama, a aventura e especialmente a comédia. “Existem os filmes de ficção científica genuínos e as paródias usam o tema para fazer troça”, afirmou o pesquisador, em depoimento ao Jornal da Unicamp, em 2007.

HÍBRIDOS
Essa combinação de sci-fi e comédia, que já podia ser observada na primeira década do século 20, foi explorada pelo primeiro longa-metragem importante a flertar com elementos da ficção científica no Brasil: Uma aventura aos 40, dirigido e escrito pelo comediante carioca Silveira Sampaio, em 1947.

Como nos melhores exemplares puros do gênero, o enredo do filme se passa no futuro – mais exatamente em 1975, quando um professor é homenageado por um programa de TV que exibe sua biografia, no dia em que este completa 70 anos. Na ficção, chateado com as incorreções levadas ao ar pelo apresentador desastrado, o biografado telefona para a sede da emissora de televisão e interrompe a transmissão ao vivo, passando a dialogar diretamente com o apresentador do programa. Trata-se de uma ficção científica legítima: mesmo com a intenção primeira de fazer graça, o longa-metragem concretiza uma das características mais interessantes do gênero fílmico, que é antecipar proezas tecnológicas que os avanços científicos só permitirão que ocorram anos depois (no caso, a transmissão ao vivo e a interação em tempo real entre espectadores e membros de equipes de produção de programas de TV).


O homem do futuro (2011), estrelado por Wagner Moura, explora a temática clássica.
Foto: Divulgação

Até a década de 1950, de acordo com o trabalho de Alfredo Suppia, as aparições de filmes brasileiros com temáticas ligadas à ficção científica eram esporádicas e pontuais. Foi nessa época – não por coincidência, a mesma década em que a produção de Hollywood sofreu um incremento significativo da produção de filmes sci-fi sobre invenções científicas que se tornavam um perigo para a humanidade, um reflexo inconsciente do pesadelo nuclear da Guerra Fria entre os Estados Unidos e a União Soviética – que a ficção científica passou a ser explorada com maior assiduidade pelos nossos cineastas. De modo geral, essa produção foi dominada por chanchadas, que se utilizavam de temas científicos para provocar risos.

Alguns desses filmes se tornaram pequenas gemas cult do cinema brasileiro, obscuras para a maior parte das pessoas, mas veneradas por uma minoria cinéfila. É o caso de Carnaval em Marte, longa de 1954, dirigido por Watson Macedo. O enredo resgatava um subgênero importante do cinema brasileiro dos anos 1930 (os filmes que retratavam o Carnaval, criando uma trama de ficção sobre um tecido documental que reificava a festa brasileira como uma celebração hedonista, alegre e genuinamente sexual). Nele, uma legião de fêmeas marcianas militares (muito convenientemente, os homens marcianos não acompanhavam as parceiras na viagem até o Brasil) oriundas do Planeta Vermelho invadia o mundo em pleno Carnaval e caía de amores pela festa tupiniquim.

Mas o primeiro clássico popular com temática ligada à ficção científica apareceria em 1959, com O homem do Sputnik. A chanchada, travestida de aventura espacial, narra as peripécias de um casal (Oscarito e Zezé Macedo, ambos engraçadíssimos) dono de um galinheiro em que cai o satélite mencionado no título, uma inovação tecnológica que dominava as manchetes de jornal da época e afetou fortemente a produção de filmes de ficção científica em todo o mundo. Pouco depois, surgiu o primeiro filme de ficção científica sério a causar algum rebuliço no cinema nacional: O quinto poder, de Carlos Pedregal, lançado em 1962. Nesse trabalho, espiões estrangeiros tentam o domínio psíquico da população brasileira através de mensagens subliminares transmitidas por rádio.

Mas a chanchada continuava a explorar a temática com mais sucesso: Os cosmonautas (1962), de Victor Lima, e Roberto Carlos em ritmo de aventura (1968), de Roberto Farias, são títulos nacionais que flertam com a fusão entre experimentos científicos e fantasia.

ALEGORIAS
Nos anos 1970, as duas vertentes do sci-fi continuaram gerando filmes interessantes, agora em maior número. O grupo Os Trapalhões, então em sua fase mais popular, flertou com temas ligados à ficção científica diversas vezes: O Trapalhão no planalto dos macacos (1976), de J.B. Tanko; Os Trapalhões na guerra dos planetas (1978) e O incrível monstro trapalhão (1980), ambos de Adriano Stuart; e Os Trapalhões no rabo do cometa (1985), dirigido por Dedé Santana.


Uma história de amor e fúria (2013) narra a saga de um índio imortal. Imagem: Reprodução

Na vertente mais séria, ligada à ficção científica pura, destacou-se O homem das estrelas (1971), de Jean-Daniel Pollet, que traz como protagonista um alienígena capaz de viajar no tempo.

Nessa época, muitas produções realizadas na área da Boca do Lixo (SP), por diretores como Fauzi Mansur, Carlos Reichenbach e Carlos Coimbra, eram abertamente influenciadas pela ficção científica, introduzindo temas tradicionais do gênero (alienígenas, viagens no tempo, ambientação futurista, enredos pós-apocalípticos, que refletem o medo de que tecnologias da destruição eliminem a vida na Terra), em tramas carregadas de conotações sexuais e alegorias políticas. Até mesmo o consagrado Nelson Pereira dos Santos realizou, em 1972, uma ficção científica pura: Quem é Beta, coprodução francesa passada em um futuro distante, em que os seres humanos lutam para sobreviver em um planeta devastado.

Até então, a defasagem tecnológica das produções brasileiras era uma das razões mais fortes para que o gênero da ficção científica não emplacasse entre as produções nacionais. Afinal de contas, esse tipo de filme depende fortemente de efeitos especiais caríssimos, e os cineastas daqui não tinham nem a tecnologia nem o dinheiro para bancar esse tipo de extravagância. Isso explica, em parte, o sucesso das tramas híbridas com a comédia, pois numa chave paródica essas limitações tecnológicas e orçamentárias são permitidas e até mesmo incentivadas, já que muitas vezes fornecem a fonte para os risos e peripécias cômicas que movem a trama. A partir de meados dos anos 1980, porém, o cinema brasileiro passou lentamente a superar essas duas barreiras.

ANIMADOS
Hoje, limitações orçamentárias ou tecnológicas não podem mais ser apontadas como razões plausíveis para que a ficção científica não seja explorada com mais afinco por cineastas brasileiros. Nesse ponto, levando-se em consideração que o cinema de gênero puro (exceção feita à comédia) nunca chegou a realmente cativar as plateias do Brasil, elementos de sci-fi têm aparecido com razoável frequência na tela grande, em filmes como Cassiopeia (1996), um dos experimentos mais arrojados com animação computadorizada de ponta realizados em todo o mundo; Acquaria (2004), superprodução estrelada por Sandy e Júnior, que teve recepção crítica fria; O homem do futuro (2011), de Cláudio Torres, que recicla a temática clássica da viagem no tempo e trabalha dentro dela elementos da comédia romântica; e Uma história de amor e fúria (2013), animação futurista que leva um índio brasileiro a alcançar a imortalidade e viver 600 anos perseguindo a mulher amada em diversas encarnações.

É provável que o futuro nos reserve mais novidades relacionadas ao gênero, a começar pela revelação do cineasta Marcos Alqueires, que produziu e divulgou em 2012 o curta-metragem The flying man, através do YouTube, praticamente sem recursos, ganhando elogios de peixes graúdos como Joe Quesada, chefão da Marvel. O futuro é promissor. 

RODRIGO CARREIRO, jornalista, professor e crítico de cinema.

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