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Um escritor e sua cozinha extraordinária

Em novo romance, o cuiabano Joca Reiners Terron, que vive há duas décadas em São Paulo, recria sua receita baseada em seres excêntricos, humor bizarro e linguagem surpreendente

TEXTO RONALDO BRESSANE
FOTOS RENATO PARADA

01 de Setembro de 2013

Joca Reiners Terron

Joca Reiners Terron

Foto Renato Parada

Engraçado é que sempre que lembro o Joca, eu lembro comida. Não que ele seja exatamente gostoso. Tampouco gordo – o vôlei da adolescência o deixou musculoso, boa sustentação para a pancinha proeminente da cerveja da juventude (da meia-idade? Ele já está com 45 anos e a sede segue grande). É que quase sempre que nos encontramos estamos a uma mesa.

A primeira vez que bati os olhos no nome Joca Reiners Terron foi em 1999, no finado Fran’s Café da rua Fradique Coutinho, na Vila Madalena: no café, havia uma rara livraria que dispunha em uma grande mesa livros de autores mais tarde convencionados sob o rótulo Geração Noventa (ou Geração Nojenta, para alguns), gente como Marçal Aquino, Nelson de Oliveira, Marcelino Freire.

Ali estava seu primeiro livro de poesia, Eletroencefalodrama, publicado por sua editora Ciência do Acidente. Mais tarde nos vimos em um Bloomsday, no Finnegan’s Pub de Pinheiros, munidos de cervejas pretas e fish’n’chips. Depois, viriam os encontros revezados entre a Pizzaria Mandrágora e os bares Platibanda, Filial, Ponto X e Empanadas, até que, por fim, concentraríamos nossas conversas ao redor dos balcões e mesas da Mercearia São Pedro – onde, glória dos botequineiros, o assíduo Joca chega a batizar um sanduíche de pastrami.

Conforme Joca foi sofisticando sua literatura, ao mesmo tempo em que, paradoxalmente, a tornava mais acessível, também ia requintando sua gastronomia (comer/cozinhar e ler/escrever são atividades complementares; desconfie de um escritor que não goste de comer, que não tenha prazer em degustar uma específica iguaria, e que não tenha ao menos um jeito autoral de fritar um ovo). Pai de Júlia, hoje com 14 anos, aprendeu a cozinhar para a filha na marra; a intimidade com as panelas o fez recriar os pratos favoritos em seu próprio fogão.

Suas especialidades são pucheros e cozidos (traindo a ascendência ibérica), costelas, pernis e outras carnes ao forno, bem como uma sobrenatural feijoada – servida em raros sábados em sua casa, em convescotes embalados por vinis de Erasmo Carlos, Black Keys e Cartola, tendo como MC a inseparável Isabel Santana Terron, fotógrafa e editora cognominada Egípcia do Crato (pela discreta procedência cearense). Embora esfomeado, Joca é um chef à moda antiga; somente se serve quando todos os seus convidados já finalizaram o primeiro prato.

Há uma explicação simples para esse emergente talento da culinária brasileira: a cozinha de Joca é colada a seu escritório, e há quase 20 anos o homem vive na frilândia. Seja como designer, cozinhando capas e projetos gráficos, seja como tradutor, editor, dramaturgo, professor, roteirista, curador ou até mesmo escritor, os proventos de Joca vêm de seu home office, onde junta a fome por frilas com a vontade de comer. Foi nesse apertado quartinho atulhado de livros, anotações, desenhos e perdidos pedaços de bacon que Joca concluiu o terceiro romance, A tristeza extraordinária do leopardo-das-neves.

A fome de bola desse renitente torcedor do São Paulo o levou cozinhar a obra em somente dois meses. Talvez a velocidade seja a responsável por uma escrita tão leve, limpa dos trocadilhos, das frases sinuosas e das imagens complexas que temperaram livros como o romance em contos Não há nada lá, as narrativas fragmentárias de Hotel Hell ou os contos autobiográficos de Curva de rio sujo.

Isso não significa, no entanto, que seja um livro feijão com arroz. Ao contrário: tal como o chinês da anedota, o ágil romance equilibra vários pratos giratórios ao mesmo tempo. Um taxista psicopata amante da música clássica, um escrivão insone cujo pai está moribundo, uma bióloga com pretensões televisivas, um entregador coreano apaixonado e evangélico, uma enfermeira especializada em cuidados paliativos para pacientes terminais. Cada um dos personagens ganha o olhar parcimonioso do chef – além de uma criatura estranha que nunca sai de casa e do melancólico leopardo-das-neves cujo canto foi enjaulado.

Todos se movem ao redor de um crime enigmático, praticado em um zoológico noturno, e todos se cruzam no bairro paulistano do Bom Retiro, caldeirão multicultural (Joca vai detestar esse clichê) onde fervilham bolivianos, judeus, coreanos, nordestinos – e até cuiabanos como Joca, que há alguns meses vive ali perto, no Bairro de Santa Cecília. Apaixonou-se pela área ao bater perna por quase dois anos reunindo material para a dramaturgia de Bom Retiro 958 metros, peça encenada pelo radical Teatro da Vertigem. 

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