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1964

Leia relatos como a da adolescente que virou “perigosa trotskista”, o psiquiatra que se arriscou para salvá-la e outras histórias da ditadura militar brasileira

TEXTO Samarone Lima

01 de Março de 2014

Foto Arquivo Público do Estado de São Paulo

TATIANA”: GUERRILHEIRA DESARMADA
Sylvia Montarroyos, garota da classe média recifense, de 17 anos, apaixonada e idealista, entra numa organização política durante o golpe militar e é transformada num “monstro” do comunismo. À beira da morte, chega ao Hospital da Tamarineira e é salva por Othon Bastos. Cinquenta anos depois, histórias como a dela se tornam públicas e revelam a humanidade dos pequenos gestos.


Sylvia Montarroyos, quando jovem, usou o codinome "Tatiana" na vida semiclandestina. Foto: Reprodução

No dia 2 de novembro de 1964, “Tatiana” tinha 17 anos, era uma simples “militante de base” de uma organização de esquerda, o PORT (Partido Operário Revolucionário Trotskista). Estava dormindo na casa de um operário, em Prazeres.

Enquanto ela estava no quarto, o “Comitê Regional” da organização – do qual não fazia parte – se reunia na cozinha: o irmão Carlos, junto com outros companheiros, além de seu grande amor, o uruguaio Pedro Makovsky Clemenchveck, de 23 anos, que usava o codinome “Gustavo” e a chamava de “Petiza”. Tatiana não participava da reunião porque nela iam ser tomadas “resoluções altamente importantes e secretas”. Em seu livro de memórias, disse que “dormia tranquilamente o sono dos justos e dos inocentes, e tinha sonhos cor-de-rosa”.

Ela foi acordada bruscamente por Gustavo.

– “Estão atirando, Petiza.”

Um infiltrado na organização tinha passado os dados à Polícia, que cercara a casa. Tentaram fugir, correndo por trás, e conseguiram chegar à praia, quando foram alcançados. Ela estava descalça e de camisola. Foram presos e levados para a Secretaria de Segurança Pública, comandada pelo secretário Álvaro da Costa Lima, na Rua da Aurora (centro do Recife). Nem em seus piores pesadelos, poderia imaginar que começaria uma descida aos infernos da ditadura, que acabara de nascer.

Não imaginaria, também, que quase 50 anos depois voltaria de Portugal, onde vive há muitos anos, para contar tudo o que sofreu, pelo seu envolvimento político, à Comissão Estadual da Memória e Verdade Dom Helder Câmara, criada em Pernambuco em 1º de junho de 2012, com a finalidade de investigar violações de direitos humanos em Pernambuco, praticados por agentes públicos, de 1946 a 1988. O foco da Comissão são as violações ocorridas durante o regime militar, a partir de 1964.

Muito menos, que iria reencontrar um herói discreto, o psiquiatra Othon Bastos, que a livrou da loucura, quando foi internada no Hospital Psiquiátrico da Tamarineira, em pleno estupor, à beira da morte. De tantas torturas, ela chegou a pesar 23 quilos. O médico arriscou a pele e a levou da Tamarineira, da ala onde estavam criminosos à espera de julgamento, em seu carro particular, para um atendimento-modelo em psiquiatria, no Hospital Pedro II.

“No primeiro depoimento, a portas fechadas, ela estava muito nervosa, chorou, ficou desconfiada. Cada pessoa que abria a porta, deixava-a sem segurança. Estava com medo, ainda, de que acontecesse alguma coisa”, lembra a historiadora Socorro Ferraz, integrante da Comissão. O seu primeiro testemunho aconteceu em 24 de agosto de 2012. “Ela disse que estava escrevendo um livro e queria saber se a Comissão dava algum apoio.”

Tatiana era o nome usado por Sylvia de Montarroyos na vida semiclandestina que mal começara a viver, naqueles primórdios do golpe. Já tinha retornado ao Recife algumas vezes, mas sua história permanecia em silêncio. Na última vinda, encontrou um cenário diferente – várias Comissões da Verdade funcionando, escutando depoimentos, esclarecendo casos obscuros do período. “Ela viu que era um momento novo, que as pessoas estavam falando. Depois do depoimento fechado para a Comissão, disse que queria falar em público”, conta Socorro.

***

Tatiana chegou à Secretaria de Segurança como um ser à parte. Corpo franzino, olhos assustados, rosto delicado, cabelos longos. Carregava uma ingenuidade e uma inocência que vinham de uma criação extremamente protetora, típica de família de classe média do Recife da década de 1950. Estudara em colégio de freiras, com direito a aulas particulares de inglês, francês, canto e balé.

“Nós éramos quase todos de famílias ricas ou abastadas, mas, por puro idealismo, havíamos largado tudo e estávamos ali, sem conforto e sem dinheiro, com uma vida toda feita de esperanças, lutas, amor e chimarrão”, lembra.


Recentemente, Sylvia Montarroyos em seu depoimento à Comissão da Verdade.
Foto: Clemison Campos/JC Imagem

Na sede da polícia, a primeira bofetada. Os homens foram levados para o andar de baixo, ela ficou numa sala, sozinha. Quando escutou os primeiros gritos das torturas nos companheiros, procurou um policial, aterrorizada.

–“Estão batendo neles!”

–“Não estão, não”, respondeu um agente, com cara de enfado.

–“Aqui não se bate em preso político.”

O mesmo policial completou, com um sorriso de satisfação:

– “Isso são só os ladrões que estão apanhando. Daqui a pouco param. Agora, vá para dentro da sala e durma.”

Horas depois, já madrugada, Tatiana viu os companheiros passarem de volta pela porta, sangrando, cambaleantes, com as roupas rasgadas. Tentou falar com Gustavo, mas algo nele já estava quebrado para sempre. Sua geração assistia, da forma mais brutal, aos primeiros movimentos da ditadura.

Deixada sozinha em uma sala, ela aproveitou a pouca importância que seu tamanho e tipo físico despertavam nos policiais. Saiu tateando no escuro, abriu uma porta, caminhou e passou pelo último guarda da Secretaria, que a viu, mas não deu atenção. Trêmula, ofegante, com o coração em disparada, ela estava livre. Aos 17 anos, era uma das primeiras presas políticas de Pernambuco. A partir daquele momento, a primeira fugitiva do regime. Correu para casa de um tio. A família, em desespero, providenciou um esconderijo, em Olinda.

Durante um mês, ficou à espera de um plano de fuga, elaborado pela família, sob o comando do pai, Adeildo, conceituado chefe de gabinete da Assembleia Legislativa.

Mas era tarde. No período em que ficou reclusa, quase sem contatos, ela não sabia que a meiga, delicada e ingênua Tatiana tinha se tornado outra mulher.

FURIOSA TROTSKISTA”
Sob o comando de Álvaro da Costa Lima, Tatiana transformou-se no alvo número um da ditadura. As TVs começaram a exibir sua foto, em intervalos regulares, com o apelo: “Procura-se”, ou “Quem a viu?”.

Passou a ser descrita como “perigosa terrorista”, “criminosa sagaz e diabólica”. As estações de rádio reproduziam as informações. O passo seguinte foi a distribuição, em aeroportos de todos os estados, de cartazes com sua foto.

“Mulher-chefe”, “mulher-chave” do Partido. “Furiosa trotskista, “elemento da mais alta periculosidade”. Os jornais seguiram à risca os informes da polícia, publicando matérias que exaltavam sua beleza, associada a uma alta periculosidade. O Diário da Noite estampou: “Tatiana: beleza também conspira”. No jornal carioca Correio da Manhã, ela se transformou na “Bela guerrilheira que fugiu da polícia”.

A família preparou um detalhado plano de fuga. Saindo do Aeroporto dos Guararapes, um voo a levaria até Porto Alegre. O chefe da Panair, no Recife, estava no esquema. A carteira de identidade falsa, com o nome de Sandra, ficou perfeita. Um dos familiares de Gustavo, seu grande amor, o lado uruguaio de sua vida, estaria em Porto Alegre, ela seria levada a Paisandu, no Uruguai, onde ficaria morando. Em troca, os pais de Tatiana cuidariam de Gustavo, dariam a ele assistência familiar e jurídica. Tudo estava pronto, mas Tatiana não sabia que agora era a “famosa terrorista”. Na véspera da viagem, escreveu um bilhete e fugiu novamente, dessa vez, da família.

“Minha gente:

Obrigada por tudo. Por mais que viva, nunca vou poder pagar a vocês o que têm feito por mim. Mas a minha vida não está aqui, e nem longe do Recife. Eu vou atrás dela. Por favor, não se preocupem comigo, e me perdoem se lhes faço mal. Vocês são maravilhosos, merecem só o melhor. Que Deus os abençoe.

A prima e sobrinha que vai amar sempre vocês, e vai sempre lembrar de vocês com um carinho muito grande, e ser sempre muito grata a vocês todos, por tudo, e eternamente,

Sylvia.”

A “perigosa trotskista” saiu de Olinda e caminhou até o Recife. No mesmo dia da fuga, alguém a viu, telefonou para a delegacia mais próxima; minutos depois de chegar à casa de um amigo, foi cercada e presa. Estava de volta à Secretaria de Segurança Pública.

A recaptura foi transmitida pela TV. Sylvia relembra com detalhes:

“Houve um corte na transmissão ao vivo que a televisão fez da minha recaptura, que Álvaro da Costa Lima tentava mostrar como uma vitória da polícia, quando ela apenas a recebera de bandeja, um presente que, por puro cansaço, eu lhe dera. Houve um corte, mas não a tempo de salvar a imagem do secretário de Segurança Pública. Ele estava dizendo cobras e lagartos sobre mim e, num dado momento, não aguentando mais tanta mentira, não me contive e lhe cuspi na cara.”

O ato custou caro. A fúria dos torturadores começou na Secretaria e depois ela foi levada para o IV Exército. Ficou em uma jaula pequena no Quartel de Tejipió e deixada por vários dias em um subterrâneo escuro na floresta, nua e quase sem alimento. O sofrimento foi abrandado por “três anjos da guarda”, que a ajudaram de alguma forma (leia na página 31). Eram soldados simples, que não aceitavam aquele tipo de tratamento. Chamavam-na de “Mocinha”. 

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