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Hilda Hilst: Enfim, o aporte de leitores

Nos 10 anos da morte da escritora, serão lançados livro de cartas e uma biografia, além de estarem em produção dois filmes sobre a autora que queria ser lida em profundidade

TEXTO Priscilla Campos

01 de Julho de 2014

Hilda Hilst

Hilda Hilst

Foto Reprodução

No poema Autotomia, a polonesa Wislawa Szymborska utiliza o pepino-do-mar (de nome científico Holothuria) como metáfora para dissertar sobre a sobrevivência. O caminho proposto pelos versos de Szymborska é austero e belo: “Diante do perigo, a holotúria se divide em duas:/ deixando uma sua metade ser devorada pelo mundo,/ salvando-se com a outra metade.// Ela se bifurca subitamente em naufrágio e salvação,/ em resgate e promessa, no que foi e no que será (...)”.

Remanescer, para a polonesa, é então um ato que demanda certa coragem. É preciso entregar-se às tormentas; nos versos de Szymborska, a fuga não aparece como uma solução. Durante todo o poema, ela afirma: o indivíduo, assim como o pepino-do-mar, tem a capacidade de desatar-se em si mesmo. Esse exaustivo ritual parece ter sido executado com frequência por Hilda Hilst, falecida há 10 anos (1930–2004). Detentora de uma “literatura de raça”, como definiu o professor de Teoria Literária da Unicamp, Alcir Pécora, a escritora, dramaturga e poeta paulista deixou um legado imenso, ainda em processo de descoberta por leitores e críticos.

No decorrer de sua trajetória literária, e mesmo após a sua morte, entrevistas e resenhas debateram com fervor a suposta incomunicabilidade presente na escrita de Hilda. Em uma delas, concedida ao jornalista Delmiro Gonçalves e veiculada pelo jornal O Estado de S. Paulo, em 1975, a escritora é taxativa ao ser questionada sobre “certas críticas que são feitas a seus últimos trabalhos, achando-os incomunicáveis”:

“(...) Não compreendo isso; muita gente fala da dificuldade de entendimento do meu trabalho em prosa. Mas tudo é difícil, não é? Há uma personagem minha que diz: ‘Olha, tudo é difícil. Arrota agora, vê, você não conseguiu. Coça o meio das costas, vê, você não conseguiu; é difícil, não? Andar de lado e sentado é dificílimo, não?’. Portanto, se você escreve tentando de certa forma ‘rebatizar’ a palavra, pensar tua própria carne longe das referências é também muito difícil, não acha? Quero ser lida em profundidade e não como distração (…).”


A Casa do Sol, lugar onde escritora viveu em Campinas (SP), é sede do Instituto Hilda Hilst, no qual ocorrem encontros e residências artísticas. Foto: Divulgação

Até hoje, a obra hilstiana é tida como difícil e com alto potencial de afastar os leitores “menos dedicados”. É curioso observar como essa ideia parece ter ultrapassado qualquer âmbito jornalístico e acadêmico. Na página dedicada à escritora no site Wikipedia, tem-se acesso a vários detalhes de sua vida, prêmios, obras divididas por gêneros e datas... Porém a curiosidade de quem estiver procurando por uma definição, conceito, ou até mesmo adjetivos para essa literatura com ares de indecifrável, não será saciada, pois o tópico Estilo literário está, segundo o site, em construção.

Mesmo com essa deliberada falta de clareza na esfera escritor-leitor, Hilda está sendo cada vez mais disseminada e lida, principalmente pelos mais jovens. A estatística foi observada pelo presidente do Instituto Hilda Hilst (IHH) e também herdeiro dos direitos autorais da escritora, Daniel Fuentes, que teve como base a fanpage da fundação no Facebook, hoje com mais de 21 mil curtidas. “Quase 50% do pessoal que curte nossa página tem menos de 30 anos. Hilda tornou-se mais popular até entre adolescentes. Adaptações para o teatro vêm ajudando no processo de divulgação de sua obra também. Na minha opinião, tudo isso, somado à ampla distribuição que os livros têm, fazem de Hilda hoje uma autora em franca popularização. Que outro autor brasileiro teve, no último ano, mais presença na mídia?”


Foto: Divulgação

Após a publicação de 20 títulos pela editora Globo, processo iniciado em 2001, o Instituto é responsável por manter essa germinação popular tardia da escritora. Fuentes conta como foi a transformação da Casa do Sol, local onde a paulista viveu por quase 40 anos e recebeu diversos amigos, em centro cultural. “Hilda faleceu em fevereiro de 2004 e legou, além da obra genial, a Casa do Sol em uma situação muito complicada, no que diz respeito a dívidas. Dos sete herdeiros, apenas eu, meu pai (José Luís Mora Fuentes, grande amigo da escritora, falecido em 2009) e minha mãe (a artista plástica Olga Bilenky) queríamos a preservação do espaço. Meu pai encabeçou essa luta, mas, por um longo período, apenas utilizamos o local como um tipo de escritório administrativo. Produzíamos cultura, mas em projetos muitos pontuais. Isso mudou com o tombamento da casa, em 2011.”

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A partir daí, Daniel afirma que o Instituto alcançou grandes conquistas. Entre elas, a construção do Teatro do IHH, a visibilidade que a obra de Hilda obteve no mercado brasileiro e estrangeiro (em especial nos Estados Unidos), e também o programa de residências criativas oferecido pelo centro. “Em termos de vendas, Hilda cresce de forma clara e sustentável. De acordo com os dados baseados nos direitos autorais, de abril do ano passado para este agora, ela cresceu 100% em participação no mercado”, conclui. O IHH ainda comporta o acervo da escritora com cerca de três mil exemplares, duas mil fotos, 150 minutos em filmes super-8 e quase 200 horas em áudio.

A mais recente novidade organizada pela fundação é o site no modelo e-commerce chamado Obscena Lucidez. Na plataforma, são vendidos diversos produtos temáticos em torno da vida e obra hilstiana: livros, camisetas, agendas, cadernos tipo moleskine, pôsteres e até capas para celulares. De acordo com Fuentes, um dos pontos mais interessantes do site são os pacotes promocionais que envolvem a venda dos livros. “O espírito é democratizar de forma radical o acesso à obra dela”, afirma. Hilda, de fato, nunca foi tão pop. Dois novos livros devem ser lançados até 2015 pela editora Globo: uma compilação de cartas da escritora e, o mais aguardado, a biografia de Hilda, ainda sem nenhum detalhe divulgado.


Além de ações como manutenção de acervo e construção de teatro, o Instituto Hilda Hilst desenvolveu uma linha de produtos com referência à autora. Foto: Divulgação

Entre as novidades, o cinema também receberá o universo da escritora. Na lista, uma ficção produzida e protagonizada por Tainá Müller e dirigida por Walter Carvalho; e um “docudrama” intitulado Contato, Hilda pede contato, com direção da cineasta Gabriela Greeb. “Eu fui convidada por Mora Fuentes para pensar em um filme ‘poético’ sobre Hilda e aceitei. Fiz algumas visitas à Casa do Sol e, numa delas, me deparei com uma caixa de fitas cassetes, as experiências de Hilda em comunicação com o além. Daí surgiu a ideia de uma narrativa em primeira pessoa, invertendo a situação original da gravação”, conta. O filme, realizado pela produtora de Gabriela, homemadefilms, e que tem como diretor de fotografia o português Rui Poças (Tabu), ainda está em busca de patrocínio para ser finalizado. “Os patrocinadores preferem filmes que deem retorno imediato, que não sejam muito profundos, e, bem, Hilda é para poucos”, avalia a cineasta.

CORPO E POESIA
Aura mística, personalidade despudorada e libertária, Hilda nasceu em Jaú, município localizado na região central de São Paulo. Ainda na infância, seu pai foi diagnosticado como esquizofrênico. Em entrevista publicada na França, no ano de 1977, a escritora fala da importância da figura paterna para o seu início literário: “Quanto a meu pai, eu criei essa aura mágica em torno dele. E acho que isso se devia principalmente à sua beleza, que era o que mais me intrigava quando falavam sobre ele. Uma beleza como aquela em um homem me deixava desconcertada. (...) Acho que o que aconteceu com ele, quero dizer, o fato de ele ter enlouquecido, foi para mim o tiro de largada. Foi a partir de então que comecei a escrever”.

Aos 20 anos, Hilda lança seu primeiro livro de poesias, Presságio. Um ano depois, Balada de Alzira, um de seus futuros clássicos, chega às livrarias. Nele, a escritora começa a delinear duas temáticas que se farão presentes em sua obra: a busca de Deus e a morte. Em Da morte. Odes mínimas, de 1980, Hilda escreve, destemida: “Não me procure ali/ Onde os vivos visitam/ Os chamados mortos./ Procura-me/ Dentro das grandes águas/ Nas praças/ Num fogo coração/ Entre cavalos, cães/ Nos arrozais, no arroio/ Ou junto aos pássaros/ Ou espelhada/ Num ouro alguém,/ Subindo de um duro caminho// Pedra, semente, sal/ Passos da vida. Procura-me ali./ Viva”.


A atriz Luciana Domschke interpreta a escritora, sob direção de Gabriela Greeb, em Contato, Hilda pede contato. Foto: Divulgação

A estreia na prosa acontece com Fluxo-floema, um dos livros motivadores de discussões acerca do estilo literário adotado por Hilda. Parece que ela pressentia essa recepção desconfiada e distante dos leitores: “(...) eu preciso escrever, eu só sei escrever as coisas de dentro, e essas coisas de dentro são complicadíssimas, mas são... as coisas de dentro. E aí vem o cornudo e diz: como é que é, meu velho, anda logo, não começa a fantasiar, não começa a escrever o de dentro das planícies que isso não interessa nada (...) capitão, por favor me deixa usar a murça de arminho com a capa carmesim, me deixa usar a manteleta roxa com alamares, me deixa, me deixa, me deixa escrever com dignidade”, escreve no primeiro capítulo.

Na prosa, Fluxo-floema é seguido por Kadosh, Tu não te moves de ti e A obscena Senhora D, esse último trazendo outra temática forte na literatura hisltiana: a sexualidade. Os personagens desse conjunto são todos tragados pelo fluxo de consciência de sua escrita, e participam de um ciclo que envolve maldição e salvação; elementos do sagrado e do profano em constante simetria de linguagem, como Hilda sabia tão bem construir.

De volta ao poema de Szymborska, é possível traçar uma afirmativa sem reservas: Hilda Hilst e a poeta polonesa estão ligadas por certo tipo de bruxaria que só a literatura pode proporcionar. “Sobre uma das bordas, a morte, sobre outra, a vida./ Aqui, o desespero, ali a coragem.// (...) Nós também sabemos nos dividir, é verdade./ Mas apenas em corpo e sussurros partidos./ Em corpo e poesia.” Diante de tais versos, não há discussão: Hilda é também habitante das profundezas do oceano; nunca ninguém praticou a autotomia com tanta beleza quanto ela. 

PRISCILLA CAMPOS, estudante de Jornalismo e estagiária da Continente.

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