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Biografia: Os escritos de Santiago

As 25 mil páginas deixadas pelo antigo mordomo da família Moreira Salles foram todas lidas por pesquisadora que pretende escrever sobre ele

TEXTO Laís Araújo

01 de Dezembro de 2014

Flora

Flora "encontrou" o seu personagem no filme de João Moreira Salles

Foto Divulgação

Era meia-noite, 20 de novembro de um ano impreciso, no Bairro da Gávea, Rio de Janeiro: enquanto limpa porcelanas da casa, Santiago é chamado pelo chefe dos garçons à mesa com cerca de 60 convidados, todos chiques, visitas da Europa. Vai, sem compreender o motivo, e é surpreendido por um pedido geral de silêncio da senhora, sua patroa, que avisa aos presentes sobre o aniversário do mordomo. Brindam com taças do champanhe Laurent-Perrier. Ele, que havia abdicado de uma viagem de férias para zelar pelo jantar importante, bebe junto e vive um momento maravilhoso, que descreve posteriormente – enquadrado a distância em escalas de cinza no documentário Santiago – como o melhor presente possível.

Dois mil e doze, aniversário de 100 anos de Santiago, Nova Jersey, EUA: passados oito anos de sua morte, uma pequena e elegante festa acontece em sua homenagem numa sala com janelas medievais da Universidade de Princeton. Organizado por Flora Thomson-Devaux, tudo é detalhadamente pensado para o evento: ela, que além de usar salto alto e xale sobre os ombros, encomendou um arranjo de flores tropical, porém discreto para a ocasião, convida três amigos, que sabiam do seu afeto por Santiago, para celebrar a data. Leem trechos do Inferno de Dante, poemas de Carlos Drummond e Jorge Luis Borges, escutam Bach, e bebem Laurent-Perrier (num gesto sensível e ilegal, já que Flora, com menos de 21 anos, não poderia beber em solo estadunidense). O único deslize da noite, porém, são as taças. Na indisponibilidade das corretas, os amigos bebem o champanhe francês que ele adorava em taças de vinho, detalhe indiferente para muitos, mas que nunca aconteceria numa festa sob a responsabilidade de Santiago.

“Senti que tudo era insuficiente, porque Santiago era o mestre dos espetáculos, das grandes festas de gala. Não dava para tentar rivalizar, mas eu tinha que fazer algum gesto para marcar o momento. Senti que ele teria gostado”, conta Flora, hoje com 22 anos, botafoguense doente e forte sotaque carioca, apesar de ter nascido numa pequena cidade da Virgínia. A improbabilidade geográfica não foi forte o suficiente para ganhar da série de episódios que levou Flora a se tornar a única pessoa a ter lido as cerca de 25 mil páginas deixadas por Santiago Bardariotti Merlo, todas catalogadas com cuidado e amarradas com uma fita vermelha.

Conhecido por ser, pelo menos a princípio, protagonista do documentário Santiago, que João Moreira Salles levou 13 anos para finalizar, ele chegou a Flora também no formato audiovisual, durante uma exibição do filme numa cadeira na universidade. A primeira impressão que ela teve foi a de que o mordomo parecia um personagem de Borges, alguém como Ireneo Funes, homem um tanto infortunado que tomba de um cavalo não domado e perde a memória temporariamente, descobrindo-se paralítico ao recuperá-la, mas conseguindo, a partir desse momento, enumerar todos os desapercebidos detalhes de suas lembranças, em diversas línguas, que aprende sem esforço algum. Santiago, que rezava em latim, deixou suas páginas escritas em português, inglês, italiano, espanhol e francês.

Foram Carmen Miranda e a imprecisão do Google Tradutor que fizeram Flora estreitar sua relação com a língua portuguesa, com o Brasil e com Santiago, por consequência: uma amiga de sua irmã traduzia a biografia de Carmen assinada por Ruy Castro com a ajuda do serviço online e Flora sentiu que poderia fazer um trabalho melhor que o do site. Foi contratada e levou a tradução adiante, a partir do capítulo 26. “Traduzir o livro foi apaixonante, intoxicante, tanto quanto descobrir a geração de ouro dos anos 1920 e 1930 da música brasileira”, conta. Imersa na língua e na cultura, decidiu estudar por um ano no Brasil e na Argentina, causando choque em alguns amigos e familiares, que não compreendiam a razão para se afastar da prestigiada Universidade de Princeton. Ela veio ao país em 2011, começando pelo Rio de Janeiro. Havia conhecido João Moreira Salles no seu segundo ano da faculdade, quando ele ministrou uma aula sobre Ética da Representação. Sabendo que Flora iria para a cidade, sugeriu que suas pesquisas fossem realizadas no Instituto Moreira Salles (IMS), a casa da Gávea onde sua família morou e que Santiago considerava ser o Palácio Pitti, de Florença.

A casa, que antes existia em preto e branco na sua mente, virou parte da sua rotina, assim como o registro de suas impressões sobre o Rio de Janeiro. Flora passou a escrever no blog Questões estrangeiras, da revista Piauí, e pautou a imprensa carioca com suas opiniões: ao escrever que a PUC lembrava o Ensino Médio, porque quase ninguém parecia querer estar ali, viu sua impressão virar matéria sobre a qualidade do ensino privado; ao fazer um breve comentário sobre o personagem brasileiro do filme A pele que habito, recebeu de resposta uma coluna de Caetano Veloso, que conversou com Pedro Almodóvar, o diretor, para complementar seu pensamento.


Os conjuntos de textos foram cuidadosamente empacotados pelo autor.
Foto: Flora Thompson-Devaux/Divulgação

Ela passou seis meses no Rio, onde viu nascer tímido e crescer barulhento seu amor pelo Botafogo, experienciou o ritmo caótico da cidade, conviveu com Eduardo Coutinho, provou todo tipo de suco de fruta. Foi para Buenos Aires – “uma cidade linda e cinza, mas que não é o Rio de Janeiro” – onde decidiu cometer a autoproclamada maior loucura de sua vida acadêmica: matou uma semana de aula para voltar ao Rio e viver o Carnaval. E foi em Santa Teresa que, num daqueles momentos epifânicos, escolheu o tema de sua monografia: investigar a fundo Santiago e seus papéis nunca lidos – todos disponíveis no IMS, onde, entre outras, pesquisava as músicas de Carmen Miranda e Noel Rosa que, naquele dia, ouvia sendo tocadas nas ruas do Rio pela primeira vez. Meses depois, encontraria nos escritos de Santiago que o Rio de Janeiro parecia uma “lata de lixo grandiosa” durante o Carnaval.

WIKIPÉDIA ANALÓGICA
Voltou para a Argentina após a Quarta-feira de Cinzas, mas, com a certeza do que queria estudar, retornou ao Rio em junho de 2012, para consultar os papéis datilografados no IMS. Numa experiência imersiva, mergulhou nas caixas fora de ordem e iniciou sua pesquisa, lendo os papéis em francês, língua que não dominava. “João (Moreira Salles) não achava que haveria interesse, pois Santiago era um homem que transcrevia, que organizava os livros dos outros. Poderia ser considerado uma wikipédia analógica muito particular, uma enciclopédia caseira de cinco idiomas. Lendo todo aquele material, percebi que tinha uma visão de Santiago muito parecida com a posição do autor dentro da crítica literária: ele era um ser abstrato, construído pelo seu texto, pelo que escrevia. Faltava a ele uma biografia, e eu sentia um grande vazio. Não era somente sua obra que eu buscava agora, eu pretendia conhecê-lo.”

E o personagem de João Moreira Salles (a quem chamava de Joãozinho) sugeria ser um autor para além da cópia, no documentário a seu respeito. No filme, Santiago logo apresenta sua “velha metralhadora”, a máquina de escrever Remington na qual, por 40 anos, escreveu todos os seus abortos mentais. Num deles, escolhido por Flora como um de seus preferidos, ele se descreve como um “vendedor de partículas de ilusão, com abortos mentais que o perseguem pela madrugada como fogos-fátuos, que torturam e tiram a paz do espírito, causam insônia e também a impressão de que se é rei de um país inabitado”.

Mordomo da família Moreira Salles e escritor desconhecido, que catalogou o comportamento e as tragédias de 500 dinastias, Santiago Badariotti Merlo era filho de imigrantes italianos, nascido em 1912, em uma pequena cidade rural chamada Sunchales, na Argentina. Serviu presidentes e embaixadores pela América, gostava de castanholas e de Beethoven, nutria respeito e admiração pela aristocracia que pesquisava e pelas famílias para quem trabalhou, mas era igualmente crítico delas (o que ele quase não transparece no filme, comportamento que Flora credita à noção de respeito que conservava, sobretudo por João – “nunca por falsidade”).

“Ele ficou com os Moreira Salles por 30 anos, admirava-os muito e se dava muito bem com a família. Mas, em consequência disso, as pessoas veem o Santiago do filme como o mordomo que idolatrava as famílias ricas e nobres. Não é o caso”, afirma a pesquisadora. “Ele tinha uma crítica muito áspera a certas famílias para quem trabalhou: comenta sobre os diplomatas pomposos que depois escrevem suas inúteis memórias, sobre as famílias que não liam os livros dos quais ele tirava poeira, sobre as que guardavam para si obras-primas que mereciam estar em museus, e ele se indignava porque o povo não podia vê-las. Ele sabia que não teria tido acesso, se não fosse mordomo.” Entre as críticas, com uma escrita que privilegia a caracterização à descrição de incidentes específicos, “Santiago sempre pede perdão, sempre se desculpa”.

No documentário, numa passagem dolorosa, difícil de assistir, Santiago repete, entre ordens da equipe e barulho de claquete, uma frase de Bergman que recorda sempre: “Somos mortos insepultos, apodrecendo debaixo de um céu cruel e completamente vazio”. Alguém que pensava muito na morte e com uma dependência acentuada da vida que guardava na memória, o argentino se referia ao apartamento no Leblon, locação dos enquadramentos inspirados em Yasujiro Ozu e onde passou seus últimos anos de vida, como “seu túmulo” (não por acaso, referia-se à realização da obra como seu próprio embalsamamento).


Foto de Santiago foi encontrada pela pesquisadora em seus
percursos. Foto: Reprodução

Edvaldo Caveari, amigo de Santiago, por tempo breve copeiro da casa da Gávea, e também funcionário do escritório do embaixador (localizado num edifício na Glória, onde hoje funcionam a Piauí e a Videofilmes), cuidou dele em seus últimos meses de vida e herdou tudo o que deixou. Flora foi até ele, numa cidade interiorana de 10 mil habitantes chamada Aperibé. Gratos pelo interesse de uma norte-americana pela pilha de coisas que se empoeirava na garagem, ele e esposa levaram a pesquisadora aos cerca de 300 títulos pertencentes a Santiago, metodicamente catalogados com localização, data e, por vezes, a fita vermelha, o que ajudou na construção da narrativa sobre a sua vida. Ajudou num entendimento melhor da sua personalidade também: Edvaldo contou que Santiago o ensinou a se manter invisível, a não se manifestar e também a pôr em ordem as coisas na mesa. Mas, ao notar que ele tinha aprendido bem demais, o mordomo vez ou outra entrava enciumado numa sala recém-arrumada e invertia os talheres para que seu trabalho não ficasse tão perfeito assim.

QUEBRA DE PÁGINA
“Era inverno na Patagônia e o aeroporto já estava para fechar. Estava com minha malinha e com o livro Guerra e paz, porque demora uma eternidade para ser lido e isso traz algum conforto. Mas estava muito frio. Achei que ela havia desistido e não queria mais falar comigo”, conta Flora, sobre o dia em que foi ao encontro de uma sobrinha de Santiago perto das cordilheiras andinas. Era agosto de 2013 e a pesquisa na América do Sul, interrompida pelo fim de intercâmbio pouco depois da ida a Aperibé, retornava com o apoio de Princeton (numa reunião com nove reitores, Flora levou as castanholas de Santiago e explicou a importância e a pressa de coletar informações, antes que pessoas morressem e papéis se rasgassem, convencendo a Universidade de que, entre todas as outras propostas, era a pesquisa sobre a vida dele que trazia mais mérito e experiência pessoal à proponente: ganhou a bolsa para prosseguir). Antes de sair do Rio, fez “ligações deselegantes” para cidades argentinas, procurando pessoas com o sobrenome Bandariotti Merlo ou com alguma conexão com os nomes rabiscados e fotografias que achava pelo caminho. Uma delas, por sorte, encontrou. Entre as coisas que Edvaldo guardava estavam um diário empoeirado e uma fotografia de casamento com o nome Pirucha – que, após investigação, descobriu chamar-se Haydée –, que atendeu sua ligação.

A espera no aeroporto foi causada por uma confusão com datas e, no outro dia – brava consigo mesma e emocionada pelo encontro –, Pirucha estava lá, levando a pesquisadora em direção à sua casa na pequena cidade de Las Lajas, na província de Neuquén, quase nos Andes. Narrando o episódio, Flora faz uma descrição poética do local: “Era tão deslumbrante, que parecia ficção, aquelas montanhas arrogantes, quase transparentes, de tão celestiais. E a Patagônia parecia que já tinha sido o fundo do mar, planícies infinitas e secas, com uma poeira macia”.

Na casa, junto a quatro sobrinhos-netos de Santiago, estavam seus discos de samba, livros, retratos e suas memórias, intituladas Scherzado ou Autobiografía breve y grotezca con varios tiempos que, sin ser de Beethoven filosofa Sinfonía, tiene ciertos “movimientos” de una enigmatica fiesta... São as memórias de um homem singular, com relatos da Buenos Aires dos anos 1930, das famílias para quem lá trabalhou, e da cidade do México, a partir de 1945, onde se empregou na embaixada americana e teve os anos (que descreveu para os amigos próximos e para si) como os mais felizes de sua vida. “Santiago era, ao mesmo tempo, uma pessoa viva e ativa e um homem pós-moderno, de opiniões fortes e atividades mentais frenéticas, que acabou por se fechar nos livros. O México foi onde ele viveu mais fora do papel”, afirma Flora.

Da felicidade documentada entre narrativas sobre a vertiginosa capital mexicana, ele passa ao tom triste e fúnebre, em 1951, ao seguir para a embaixada brasileira em Washington, nos Estados Unidos, onde dizia ver um morto a cada esquina. Sentia-se num local frio e isolado, e viveu essa pequena morte traduzindo livros e escrevendo uma crônica sobre a própria vida: uma prosa com rimas internas, como um poema épico da própria existência.

Flora tentou não romantizar o material que encontrou, mas sentiu dificuldades. Santiago havia deixado muitas coisas belas escritas, entre elas, a descrição da própria sexualidade. Na cena-chave do documentário de João Moreira Salles, Santiago pede que Joãozinho escute um segredo que guarda sobre ser parte de um grupo de seres malditos, mas a câmera é desligada.

“Há uma descrição em que Santiago conta como se deu conta de que era gay, o que chama de tremendo destino. Ele se referia a si mesmo como maldito, e diz que havia sido escolhido por Deus para ser um menino gay, que gostava de ópera, de Dante e de dinastias europeias, na pequena cidade de Sunchales no interior argentino, com 3 mil habitantes, praticamente uma aldeia na época.” Nos seus escritos pessoais, muitas vezes rasurava o que havia escrito e trocava nomes masculinos por femininos.


Flora Thompsom-Devaux registrou sua imagem junto às madonas caras a Santiago.
Foto: Flora Thompsom-Devaux/Divulgação

Os Estados Unidos foram o último país onde trabalhou antes de seguir para a Casa da Gávea dos Moreira Salles, no Rio de Janeiro. “Sobre a família não deixou nada escrito, mas ele admirava imensamente e se dava muito bem com o embaixador (Walther Salles), tanto que escolheu trabalhar para ele e topou ir pra outro país. Elisa (Gonçalves) dizia que Santiago fazia os arranjos de flores mais lindos que viu na vida. Amava os meninos, João sobretudo”, relata Flora.

Entre as muitas peculiaridades que ela descobriu enquanto seguia o caminho de Santiago, estava o seu hábito de distribuir alguns “abortos mentais” em papeizinhos, páginas com pequenos poemas e parágrafos bizarros, em especial nos seus últimos anos de vida, quando já saía pouco de casa.

No México, para onde Flora também viajou atrás de suas histórias, mas teve resultados infrutíferos, ela não encontrou a cidade que Santiago amava, mas achou seus vestígios. “Tentei recuperar o encanto que ele sentia pelos lugares, fui a palácios, museus, igrejas. Não posso conhecer quem Santiago conheceu tal como era antes. Mas posso parar em frente às madonas que ele adorava e elas estão iguais. Me posicionar em frente a obras e ver o que Santiago via também. Fico com um pé atrás de dizer isso, porque parece um misticismo desnecessário por alguém que foi uma pessoal normal, como você ou eu. Mas é emocionante, porque eu estava procurando contato. Tudo é uma tentativa de compreensão.”

PRODUTOS DE PESQUISA
É do México o grupo de realizadores que fez um documentário sobre a pesquisa de Flora, a ser lançado em breve. Com o cuidado de preservar a memória do homem que se tornou conhecido a partir do exercício autocrítico de João Moreira Salles, Flora digitalizou todos os seus escritos e atualmente estuda a melhor forma de levar a público as produções e a história de Santiago. “Temos falado da possibilidade de uma exposição sobre ele, embora nada tenha se concretizado. Mas seria um desperdício não disponibilizar.”

Nos Estados Unidos, atualmente Flora dá andamento ao seu doutorado (ela faz 23 anos neste dezembro, é válido ressaltar) e pensa em retornar ao Rio de Janeiro no começo de 2015, para realizar mais entrevistas e coordenar a transferência dos livros do argentino para o Instituto Moreira Salles. A biografia que escreve sobre Santiago ainda não tem data para ser finalizada e seu título flutua entre duas opções (que ainda não agradam totalmente à autora): La danza de las marionetas, o título que Santiago queria dar ao seu próprio livro de reflexões, ou The many deaths and singular life of Santiago Badariotti Merlo, autoexplicativo e preciso.

Num trecho do documentário a seu respeito, Santiago se pergunta para quem irá tudo aquilo que deixou escrito (“que fiz com tanto carinho, tanto amor”) e afirma que, se não for para alguém que realmente goste dos seus papéis, que tudo se queime. Parece não haver esse risco. 

LAÍS ARAÚJO, estudante de Jornalismo e estagiária da Continente.

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