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Paraíba: Na terra dos lajedos

Situado numa das regiões mais secas do Nordeste, trecho geográfico conhecido como Cariris Velhos agrega formações rochosas peculiares

TEXTO E FOTOS AUGUSTO PESSOA

01 de Março de 2015

Foto Augusto Pessoa

Escondida numa serra pontilhada de enormes lajedos, uma mulher se transformou em personagem de projeção nacional, ao viver 25 anos numa gruta transformada em casa. Zabé da Loca, como é conhecida a pernambucana Isabel Marques, aprendeu a tocar pífano nos arredores de Buíque, quando tinha sete anos. Aos 16, migrou para a zona rural de Monteiro, na Paraíba, e, durante quase três décadas, morou debaixo de um enorme monólito, praticamente isolada do resto do mundo. Reconhecida como patrimônio cultural e eleita Revelação da Música Popular Brasileira, Zabé da Loca é exemplo da resiliência do povo do interior nordestino. Criada numa sociedade machista, ela engravidou ainda adolescente do fazendeiro que cedeu um pedaço de terra para sua família e, depois de fugir para a Paraíba, casar e ficar viúva, decidiu que passaria o resto da vida tocando sua flauta na solidão de uma gruta. Hoje, aos 90 anos, Zabé habita uma casa a 200 metros da antiga morada e relembra, com alegria, do tempo em que formava, com filhos e sobrinhos, uma das mais rupestres bandas de pífano de que se tem notícia.

Perto dali, uma placa com 80 m x 5 m avisa: “Você está chegando à ‘Roliúde’ nordestina”. Isso porque Cabaceiras se orgulha de ser a menina dos olhos do cinema nacional. Ali já foram rodados mais de 25 filmes, entre eles O auto da Compadecida, de Guel Arraes, e Viva São João, de Andrucha Waddington. Com o menor índice pluviométrico do país, a cidade, dizem os cineastas, é perfeita para filmar. Em cada esquina, é possível encontrar personagens da vida real que, como se diz, “dariam um filme”. Gente como seu Zé de Sila, a maior celebridade made in Cabaceiras do momento. Natural do Cariri paraibano, o comerciante exibe em sua bodega as fotos que fez ao lado de grandes nomes do cinema nacional e um apanhado de reportagens em que figura como personagem central. “Até do Texas já veio gente falar comigo. Gente que nem fala brasileiro”, diz o homem, enquanto mostra recortes de jornais e segue listando as peripécias de sua carreira artística.


Flautista Zabé da Loca viveu durante 25 anos numa gruta local

Cabaceiras é especial também por outros aspectos. A começar pelas suas ruas desertas, que parecem paradas num dia qualquer da década de 1940. As casinhas coloridas chamam a atenção e dão um toque singelo à paisagem. Essa sua vocação cenográfica é que tem colocado a pequena cidade na lista das principais locações do cinema brasileiro e que gerou o projeto Roliúde Nordestina, idealizado pelo escritor e pesquisador Wills Leal, para fortalecer o turismo na região e contribuir à preservação de importantes tradições locais. “Da mesma maneira que os cineastas norte-americanos notaram que Nova York não era o lugar ideal para trabalhar e descobriram Hollywood, os diretores brasileiros percebem que Cabaceiras é o lugar perfeito para filmar. Aqui, não chove praticamente nada, ou seja, garantia de luz o ano todo”, defende Leal. O primeiro filme rodado em Cabaceiras, A ferração dos bodes, da década de 1920, já apontava para um traço forte da região: a marcação dos animais a ferro.

BLOCOS DE ROCHAS
Mas é na zona rural, caracterizada por um ambiente extremamente pedregoso, que o Cariri ganha os seus contornos mais extraordinários. Com paisagens que intrigam pela rusticidade, a região resguarda sítios arqueológicos de configuração plástica única no Brasil. São centenas de blocos de rocha arredondados que lembram uma mesa de bilhar gigante. Soltos no platô, os monumentos são atração para quem se aventura pelas veredas que cortam a região.

A mais famosa conduz até o Lajedo de Pai Mateus, antiga morada de um curandeiro ermitão que jamais recebia dinheiro pelas curas e fazia questão de viver em total isolamento. Outra bela conformação rochosa é a Pedra do Capacete, um bloco de granito curiosamente solto no meio da imensidão. Chamam a atenção também as cores e texturas do lugar. Na época das chuvas – quando chove, é claro –, o lugar fica ainda mais bonito. Piscinas naturais se formam entre as pedras, fazendo com que o cenário ganhe mais dramaticidade.


O comerciante Zé de Sila exibe as matérias em que foi personagem

O complexo de rochas, que serviu de refúgio natural para os bandos durante a época em que o cangaço dava as ordens por ali, é mais que apenas um santuário ecológico. No imaginário popular dos caririenses, as pedras possuem poderes mágicos. Pinturas rupestres, camas indígenas de pedra e uma caatinga preservada, que revela centenas de espécies típicas do semiárido, compõem o cenário que tem, ainda, o privilégio de servir de observatório para o céu estrelado que brinda a região em dias de poucas nuvens.

Em noites de lua cheia, os lajedos ganham um tom prateado, enriquecendo, com seu impacto sensorial, o repertório de causos transmitidos pelas gerações e que servem de tema para os aboiadores durante as típicas pegas de boi dentro da mata, outra tradição que reúne vaqueiros vestidos a caráter e que, em alguns rincões, é reconhecida como valioso patrimônio imaterial.

Município de Cabaceiras ganhou o apelido de Roliúde Nordestina

Histórias inspiradoras, a propósito, são as que ainda hoje circulam pelas festas populares da pequena Zabelê, cidadezinha escondida na densa vegetação de caatinga que domina os chamados Cariris Velhos – um esquecido pedaço do Cariri paraibano que se une a Pernambuco num determinado ponto e depois se encontra com as serras paraibanas que limitam o Sertão.

Um dos acontecimentos mais famosos por ali relata que, por volta de 1855, a cidade foi atingida por um surto de cólera. Na pressa em sepultar os mortos, um homem foi deixado ao relento e, sob a forte chuva que caía, levantou-se e caminhou em direção à cidade, para espanto de todos. O “milagre” correu o mundo e serviu de inspiração para os repentistas que fazem dessa região do Nordeste um centro de produção da poesia, reconhecido como repositório de manifestações populares.


As pegas de bois são comuns na região

A própria paisagem, composta por blocos de rochas soltos entre mandacarus e xique-xiques, inspira essa vasta região do interior paraibano, repleta de histórias que remontam ao tempo da colonização e do ciclo do couro, quando o gado foi introduzido e com ele toda uma rica tradição. Segundo o escritor Bráulio Tavares, estudioso de fenômenos culturais ali surgidos, “essa área produziu alguns dos maiores talentos da cantoria no século 20, mas tão importante quanto a memória dos nomes ilustres, no entanto, é a presença viva da poesia na vida cotidiana da população em geral. É imenso o número de cantadores, glosadores, poetas diletantes e incentivadores da cantoria espalhados pelas cidades”.

Terra de artistas mitológicos do porte de um Zé Limeira, o poeta do absurdo, os Cariris Velhos, tal qual um antigo gibão de couro e a firmeza de um lajedo, guarda em si as marcas de um passado que sobrevive ao tempo. 

AUGUSTO PESSOA, fotógrafo e jornalista.

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