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Jorge Furtado: De volta ao faz de conta urbano

Referência no audiovisual brasileiro contemporâneo, cineasta retorna à ficção com 'Real beleza', drama sobre triângulo amoroso

TEXTO Luciana Veras

01 de Agosto de 2015

Cena de 'Real beleza'

Cena de 'Real beleza'

Foto Fabio Rebelo/Divulgação

"A gente só sabe bem aquilo que não entende.” A frase de Guimarães Rosa é proferida por Anita, personagem de Adriana Esteves em Real beleza, e ilumina várias das questões problematizadas pelo cineasta gaúcho Jorge Furtado em seu novo filme. Em cartaz nas salas do país inteiro nesta primeira quinzena de agosto, o sexto longa-metragem do realizador de O homem que copiava (2003), Meu tio matou um cara (2004) e Saneamento básico – o filme (2007) explora as relações interpessoais que se podem estabelecer a partir da busca pela graciosidade infinita e pela perfeição.

Os protagonistas: João (Vladimir Brichta) é um fotógrafo em decadência, que, após um incidente, volta a rastrear candidatas a modelo em cidades do interior do Rio Grande do Sul; Maria (Vitória Strada) é a adolescente que ele encontra e em quem identifica a fagulha da tal “real beleza”; e Anita é a mãe da jovem, casada há duas décadas com Pedro (Francisco Cuoco), um homem mais velho, culto e, não por acaso, reticente quanto à ideia de permitir que sua única filha abandone os estudos para se lançar ao mercado das top models.

De todos os enigmas da experiência humana, a beleza talvez seja o mais curioso. “Une todas as pessoas, é algo que todos nós reconhecemos. Mesmo que não saibamos explicar, é misteriosa e interessante. Por que achamos uma pessoa bonita? Como isso muda de época?”, indaga Jorge Furtado em entrevista à Continente. João, o fotógrafo, encanta-se pela filha e também pela mãe, enredado por diferentes perspectivas de formosura. Anita, a mãe, acolhe o desejo por aquele estranho que pretende levar sua filha dali, sem, no entanto, neglicenciar a beleza e a harmonia da vida que leva ao lado do marido – que, por sua vez, declama, em citações pinçadas de clássicos da literatura, a graça da existência cotidiana. Todos estão em tempos diferentes, em momentos distintos, porém unidos por essa noção do belo.

Regressando à seara ficcional após O mercado de notícias (2014), incursão no mesmo gênero documental que o consagrou com o curta-metragem Ilha das flores (1989), o diretor conta que escreveu o roteiro com o ator baiano Vladimir Brichta em mente. “Fui direto nele, depois convidei a Adriana, e o Cuoco veio logo a seguir”, diz. É o primeiro filme em que Vladimir e Adriana, marido e mulher na realidade, contracenam – aspecto que vem sendo explorado no material de divulgação de Real beleza, em parte porque se trata de um casal com grande inserção no universo das telenovelas, em parte porque isso parece, de fato, atiçar a curiosidade dos espectadores.

“De fato, é o primeiro filme dos dois juntos. Como havia cenas de romance, de sexo na cama, queria que tivesse bastante integração entre eles. Daí, logo pensei que Adriana é uma grande atriz dramática, que até faz comédias superbem, mas que para fazer drama tem uma intensidade incrível. Então, por que não chamá-la? Sem contar que fica até mais fácil para trazer um ator e ele poder viajar ao lado da sua mulher”, observa o diretor, que rodou o longa durante o mês de outubro de 2013, em Garibaldi, Três Coroas e São Francisco de Paula, cidades da Serra Gaúcha.

À facilidade para escalar o trio de adultos se contrapôs o esforço em achar a atriz que receberia a missão de interpretar a aspirante a modelo. “Foi uma história totalmente diferente. Botamos anúncio em jornais, procurando meninas de 14 a 18 anos que quisessem ser modelos. Apareceram mais de 300 garotas. Daí selecionamos 40, que são as que estão no filme. Aquela parte de documentário é real”, comenta Jorge Furtado, aludindo a uma sequência em que diversas adolescentes posam para a câmera de João em Real beleza. “Dessas 40, selecionei 10 e aí fiz testes de atuação. Terminei escolhendo Vitória, que, além de ser muito bonita, tinha altura e porte de modelo, preenchendo todos os requisitos. É o primeiro trabalho dela como atriz”, acrescenta o diretor que, em Houve uma vez dois verões (2002), já revelara o ator André Arteche.

O olhar certeiro para descobrir joias a lapidar soma-se ao conforto de trabalhar, literalmente, em casa. Real beleza é uma produção da Casa de Cinema de Porto Alegre, da qual Furtado é um dos sócios, e tem na equipe nomes recorrentes em todos os seus trabalhos de cineasta – a exemplo de Nora Goulart (produção-executiva), Giba Assis Brasil (montagem), Rosângela Cortinhas (figurinos), Fiapo Barth (direção de arte) e Alex Sernambi (fotografia). “É a mesma equipe, mas tem sempre uns novos, viu?”, brinca, aos risos. “Isso facilita muito, porque todo mundo já sabe como cada um trabalha, o clima da filmagem é tranquilo, sem estresse. Costumo dizer que a gente brigou em 1993, então já faz tempo. Na verdade, não sei filmar sem eles. Cinema é uma arte de equipe. Tanto que eu nunca boto o crédito de ‘um filme de Jorge Furtado’ num trabalho meu. É sempre a publicidade que acaba botando e, quando posso opinar, tiro. Para mim, de todas as expressões artísticas, o cinema é a que é mais de turma.”

E é também, na visão do cineasta gaúcho, a poderosa junção entre palavra e imagem. “Foi essa relação que sempre me interessou no cinema. A disputa, a solidariedade, a união… Quando esses mundos se encontram, o poder é imenso. Imagina pegar tudo que a literatura, a pintura e a fotografia têm e colocar para dançar com as imagens. É por isso que é tão poderoso, é por isso que fui atraído a fazer cinema, em que é possível escrever e filmar, e assim agrupar mundos irreconciliáveis. Acho que, se eu soubesse desenhar muito bem, faria histórias em quadrinhos”, confessa.

Se as HQs perderam um autor que certamente a elas se dedicaria com afinco, o cinema e a televisão acolheram um profissional que se tornou referência no audiovisual brasileiro contemporâneo. Na cadência dos diálogos e na naturalidade com que as situações se encadeiam, Real beleza tem a marca e a expertise de Jorge Furtado. O que pouco não é nem nunca será. 

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