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“Meu pai dizia: componho música para o universo!’

TEXTO Débora Nascimento

01 de Agosto de 2016

Moacir Santos Jr.

Moacir Santos Jr.

Foto Lídio Parente/divulgação

[conteúdo vinculado ao especial da ed. 188 | agosto de 2016]

Principalmente após Moacir Santos ter construído uma carreira musical ímpar e inatacável, os elogios de colegas, críticos e fãs em torno de sua obra formaram uma voz uníssona. Mas, os que tiveram a chance de conhecer o artista pernambucano pessoalmente, acrescentam qualidades a ele: a de um homem cortês, elegante, disciplinado, simpático e bastante generoso. Nesta entrevista, seu filho, Moacir Santos Jr., dá mais detalhes sobre a personalidade do pai, as lembranças que o maestro tinha de Pernambuco, o cotidiano pessoal e profissional tanto em sua casa, no Rio de Janeiro, onde o arranjador dava aulas para futuros ícones da bossa nova, quanto na Califórnia, onde o compositor e multi-instrumentista estabeleceu uma respeitável carreira internacional e faleceu em 6 de agosto de 2006. Nessa residência em Pasadena, Moacir Santos Jr., músico amador e militar reformado, mora e preserva o legado paterno.

CONTINENTE Havia um interesse do maestro em retornar a Pernambuco para fazer algum concerto?
MOACIR SANTOS JR. Sim, imagino que ele pensava nisso. Há um sabor especial em rever sua própria pátria.

CONTINENTE Como foi perceber o carinho das pessoas com relação a Moacir Santos, na sua vinda a Pernambuco, para o Festival Moacir Santos, no Teatro Santa Isabel, em 2013?
MOACIR SANTOS JR. Incrível! Fiquei impressionado como os brasileiros estenderam o seu amor a ele para mim. Havia muitos que vieram de cidades distantes, como Flores, por exemplo, apenas para assistir ao festival. E tentaram me saudar pessoalmente, apertar as minhas mãos, ou tirar fotos comigo, em memória, respeito amoroso ao meu pai, celebrando a sua vida. Durante a sessão da mesa redonda, ouvi depoimentos de três jovens senhoritas sobre quanta influência positiva meu pai teve sobre elas, sobre o sucesso em suas vidas. Foi muito forte e emocionante ouvi-las uma por uma. Depois, tive que contar uma piadinha em relação ao meu pai e eu, para fazer as pessoas sorrirem por um momento.

CONTINENTE Quais eram as memórias mais recorrentes que ele tinha de Pernambuco? Do que mais gostava de lembrar do Nordeste do Brasil?
MOACIR SANTOS JR. Houve ocasiões demasiadas para nomeá-las especificamente. No entanto, descobri uma coisa, que eu tinha curiosidade por anos: o porquê de papai gostar tanto de tapioca. Até que eu tive experiência própria, quando visitei a cidade de Olinda em 2013. Tapiocas são deliciosas!

CONTINENTE Sua casa no Rio de Janeiro era bastante frequentada por músicos, os alunos de Moacir. Quais as lembranças mais vivas que você tem desse período? Há alguma história específica que poderia nos contar?
MOACIR SANTOS JR. A nossa casa foi sempre cheia de músicos. Posso imaginar facilmente estar rodeado por eles. Quando coloco um CD de Baden, lembranças surgem de Vinicius, meu pai e Baden compondo. Eles foram mestres de letras. Eu me lembro de Nara Leão tomando cafezinho com minha mãe, à espera do seu horário de aula. Eu gostava quando eles vinham, eu me tornava um garçom. Imagine minha mãe preparando uns “salgadinhos”, todos eles tocando ou falando sobre um verso, isso ou aquilo sobre alguma música famosa nascendo ali mesmo.

CONTINENTE Quais músicas Moacir costumava ouvir em casa?
MOACIR SANTOS JR. Música clássica, relaxante e de meditação.

CONTINENTE Moacir deixou muitas composições inéditas? Se sim, você já sabe como esse material será utilizado?
MOACIR SANTOS JR. Eu preservo seu estúdio em casa. Está quase da forma como ele deixou. Exceto quando Andrea (Ernest Dias) passou um tempo na Califórnia, enquanto estava analisando a música de meu pai. Eu dei pleno acesso, para o sucesso da sua realização acadêmica. Ainda é difícil para mim mexer nos pertencentes de meu pai.

CONTINENTE Além de ter sido lançada uma biografia sobre Moacir Santos, está sendo planejado um filme sobre ele. Quais outras obras em torno do maestro são preparadas? Haverá relançamentos de discos?
MOACIR SANTOS JR. Não no momento. Mas gostaria de produzir um CD com um mix das músicas dele.

CONTINENTE Além de genial, seu pai demonstrava ser um homem confiante, generoso e otimista. Mas havia algo de que se queixava?
MOACIR SANTOS JR. Nunca houve queixas. Ele foi naturalmente uma pessoa positiva, um mestre excelente, mais do que se poderia medir, e carismático. Sua biblioteca aqui em casa demonstra que era também um intelectual. Durante a minha adolescência, soube que meu pai ficou órfão com a idade de três anos. Mas nunca vi ou ouvi meu pai reclamar sobre a vida. Ele tinha esta forte personalidade e ambição de chegar ao estrelato no mundo da música. Ele já tocava bem vários instrumentos. Além disso, estudou bastante música com os melhores mestres daquela época. Foi generoso com pessoas, ajudando-as, doava instrumentos musicais. Foi um grande motivador, sendo outra de suas qualidades. Poderia compartilhar diversas histórias, que se transformariam num livro. Tenho saudade de meus pais imensamente. Assim que ele chegou ao estrelato, minha mãe já estava ao lado dele, proporcionando um grande apoio na vida. Meu pai costumava dizer que éramos o “Trio de Ouro”. Sinto-me abençoado sendo filho deles.

CONTINENTE Pelo tanto que ele realizou, dava a impressão de que era um workaholic. Era assim mesmo? Como era a rotina de Moacir? Gostava de ficar em casa? Gostava de viajar?
MOACIR SANTOS JR. Admirava sua autodisciplina e metodologia. Ele tinha um sistema cotidiano para o estudo. Estava sempre analisando e ansioso para aprender, isso era a sua marca registrada ou estilo. Quando ia para um compromisso, ou simplesmente ter seu carro lavado, enquanto esperava, estava sempre lendo um livro. Impressionante! Ele gostava de viajar ao Brasil. Enquanto, aqui na Califórnia, ele ia à praia ou observar a Mãe Natureza nas montanhas. Ele me ensinou a nadar, quando eu era garoto no Rio de Janeiro. Ele nadava como um peixe. Foi um pai muito legal! Desde que eu era criança, sentia algo especial sobre meu pai, uma admiração; eu queria ser como ele. Não tinha ideia sobre seu talento musical e o gênio que ele foi. No início, no Rio, vivíamos no subúrbio. Eu o esperava chegar da Rádio Nacional, sentava no muro da frente de casa. Então, ele chegava, sempre me trazia uma fruta ou um biscoito. Gosto de biscoito champanhe por causa dele. Ele entrava em casa, cumprimentava minha mãe com um beijinho, removia seu casaco do terno, gravata. Arregaçava as mangas da camisa, lavava as mãos e dizia: “Cleo, vou levar o nosso príncipe para um passeio de bicicleta enquanto você termina de preparar o nosso jantar”. Era nosso ritual familiar, um trio unido. Meu pai foi quem me ensinou como usar corretamente faca e garfo em configuração social, e muitas outras conveniências. Fui criado de forma disciplinada num adorável ambiente e em meio à música.

CONTINENTE Do que ele mais gostava com relação à música? Compor, gravar, arranjar, tocar, ouvir ou realizar shows?
MOACIR SANTOS JR. A música era o seu mundo! Compor facilmente foi outra habilidade que ele também possuía, fui testemunha disso. Era incrível!

CONTINENTE De qual disco dele você mais gosta? E por quê?
MOACIR SANTOS JR. Eu gosto de todos os CDs, mas existem algumas faixas que tocam a minha alma. Por exemplo, Astral Whine. Papai escreveu esta música em Nova York. Minha mãe não se sentia bem. Ele teve que caminhar à farmácia, estava nevando. Ele, então, pedia mentalmente a Deus pela cura dela e, ao mesmo tempo, sua inspiração musical surgiu, ele escreveu essa linda composição. Gosto de todos os discos dele, mas Coisas tem uma vantagem em relação aos subsequentes. Foi um álbum que transmitiu a assinatura do talento dele. Eram composições à frente de seu tempo. Elas hoje são joias, agarram qualquer um por sua exclusiva riqueza de ritmo, melodia e qualidade. Relembro claramente do que ele me dizia: “Componho música para o Universo!”

CONTINENTE Do que ele mais tinha orgulho na vida e na carreira?
MOACIR SANTOS JR. Meu pai foi um homem da humildade. Percebia-o satisfeito com as realizações de alto nível em sua carreira musical. Mas a sua ambição era escrever música clássica. Ele já havia escrito trilha sonora para vários filmes; o próximo passo seria escrever música clássica. 

 

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