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“Os tempos exigem mais eficiência na gestão”

TEXTO Olívia Mindêlo

01 de Agosto de 2016

O zoólogo e ex-presidente do Instituto Brasileiro de Museus (Ibram) Carlos Brandão

O zoólogo e ex-presidente do Instituto Brasileiro de Museus (Ibram) Carlos Brandão

Foto janine moraes/divulgação

[conteúdo vinculado ao especial da ed. 188 | agosto de 2016]

Zoólogo de formação, Carlos Roberto Ferreira Brandão atuou por mais de um ano como presidente do Instituto Brasileiro de Museus, o Ibram, deixando o cargo no último mês de junho. Qualquer um que lide com a tarefa de pensar políticas públicas para museus neste país e, mais ainda, executá-las em uma autarquia federal ligada ao Ministério da Cultura, sabe do peso dessa função. Em entrevista à Continente, o gestor, também professor e pesquisador da USP, fala sobre os perfis contemporâneos dos museus, suas possibilidades para além das definições e a força dessas instituições como centros de memória, elemento fundamental da constituição de uma sociedade. Leia trechos dessa conversa a seguir.

CONTINENTE O senhor acompanha a construção das políticas públicas para museus desde os anos 1980. Como analisa as mudanças no contexto brasileiro e latino-americano?
CARLOS BRANDÃO Os museus começaram a sofrer processos de revisão de seus objetivos, junto a uma série de outras instituições, a partir de maio de 1968, com a revolução dos estudantes em Paris. Nessas manifestações, eles colocavam em xeque o papel dos museus tradicionais, sobretudo o Museu do Louvre, e os museus reagiram a isso, mudando a perspectiva de sua atuação, ampliando o seu escopo e incorporando novas tecnologias, novas formas de fazer cultura. Isso acabou reverberando aqui na América Latina, numa reunião de 1970 que até hoje é chamada de Mesa de Santiago, uma mesa-redonda organizada pelo Icom (Conselho Internacional de Museus), que propunha que os museus adotassem um papel mais contundente de desenvolvimento social. No caso brasileiro, em 2003, tivemos um processo muito importante de escutar os profissionais, e muitos contribuíram para um documento que ficou conhecido como Política Nacional de Museus, que antecedeu a Política Nacional de Cultura, e isso acabou embasando a criação do próprio Ibram.

CONTINENTE Como, diante desse contexto, o Ibram tem atuado?
CARLOS BRANDÃO Na verdade, o Ibram foi criado em 2009, quando recebeu essa denominação, mas já vinha atuando desde antes como Demu (Departamento de Museus), incorporando no seu cotidiano essa filosofia e essas funções. Por exemplo, durante vários anos, oferecemos oficinas sobre constituição de museus, capacitação, inventário das referências das comunidades… Então, o Ibram já vem atuando dentro dessa perspectiva, que chamamos de museologia social, há bastante tempo. Claro que, como todo órgão público, ele não está imune às crises, às dificuldades. Nossas atividades também foram se aperfeiçoando, adequando-se a certas normas de controle, e tudo isso gerou a necessidade de a gente mudar um pouco a nossa forma de atuação. Hoje, temos uma capacidade mais limitada do que tínhamos antes, para oferecer essas oficinas presenciais pelo Brasil inteiro. O Ibram não tem recursos suficientes para atender a todas as demandas. Por isso, estamos buscando maneiras alternativas, apostilando essas oficinas e criando plataformas digitais que deixem de exigir a presença de um professor em cada museu, por exemplo.

CONTINENTE Vemos uma quantidade crescente de museus hoje, mas existe grande dificuldade no Brasil com a manutenção desses equipamentos culturais. Quais são os principais problemas?
CARLOS BRANDÃO Estamos passando por uma crise e os museus não estão imunes. O Estado brasileiro está diminuindo, na verdade. Os museus também estão sofrendo esses efeitos. Tanto os museus do Ibram quanto os de outras esferas públicas e particulares. Os museus privados ainda têm algumas possibilidades melhores, mas isso é dinâmico, depende muito das circunstâncias. Vemos que a tendência é aumentar o número de museus, mas os tempos exigem mais eficiência na gestão.

CONTINENTE Estamos diante de uma mudança de paradigmas dos museus ou de uma diversidade típica da fragmentação contemporânea?
CARLOS BRANDÃO São dois movimentos simultâneos. Ao mesmo tempo em que contestamos as formas ultrapassadas, vão se propondo novas maneiras. Hoje, há uma multidão de tipos de museu. Na plataforma MuseusBR (online), por exemplo, eles podem se definir como quiserem, mas um museu nunca é de um tipo só. Museu pode ser histórico, mas especializado na história das relações de trabalho ou com forte viés religioso. Mesmo os museus de arte eram todos museus de arte e agora, museu de arte moderna, de arte contemporânea, de belas-artes. Isso ocorre em todas as áreas. Os museus estão se multiplicando e isso é uma reação à fragmentação que a sociedade vem vivendo. Essa fragmentação pode ser vista como um enriquecimento. Temos mais tipos de museus e a cidade se vê de maneiras diferentes.

CONTINENTE Por que é importante ir a um museu?
CARLOS BRANDÃO Porque o museu é um centro de memória e ela é importante na constituição de uma sociedade para serem evitados erros que já foram cometidos no passado, para a inspiração nas coisas boas que aconteceram, para conhecer a história das manifestações culturais. Tudo isso compõe um painel muito importante que os museus podem oferecer à sociedade.

CONTINENTE De um lado, temos um boom dos museus tecnológicos, de alto investimento. Do outro, museus comunitários. O que é mais importante: a estrutura ou a narrativa?
CARLOS BRANDÃO A narrativa é o mais importante. A questão tecnológica entra como suporte à narrativa. A não ser que seja um museu tecnológico, quer dizer, que tenha a tecnologia como o seu tema de trabalho. Mas, por exemplo, a tecnologia aplicada no Museu da Língua Portuguesa era para divulgar a língua, ou seja, um apoio de que o museu se utilizava para tratar dos conceitos ligados à língua. Mas não era a tecnologia pela tecnologia.

CONTINENTE Embora a tecnologia acabe atraindo também…
CARLOS BRANDÃO A interatividade nos museus, durante certa época, virou uma moda, mas todo museu é interativo. Existe uma interação intelectual com o objeto. Agora, se é necessário botar a mão ou não, vai depender do assunto que está sendo tratado, da estratégia e da possibilidade que o museu tem. Você pode ter um museu no qual não possa encostar, mas interagir com ele muito bem, e outros em que você coloca a mão em tudo, mas a interação intelectual não é perfeita.

CONTINENTE Qual a sua utopia de museu?
CARLOS BRANDÃO É o museu do futuro. Seria muito interessante que a gente tivesse um museu que musealizasse as nossas ideias de utopia e de futuro. Acho que o Museu do Amanhã, e aí vem minha crítica, se restringiu à questão mais ambiental, que, claro, é importantíssima, mas existem outras expectativas de futuro. Sempre fui fascinado por Julio Verne, por exemplo, o que ele imaginava que ia ser o futuro. Algumas coisas ele acertou, outras não. Isso talvez seja o que diferencia o bicho- homem de outros bichos: nós somos capazes de projetar o futuro. A gente erra muito quando faz isso, mas essa capacidade é instigante e ainda não encontrou espaço nos museus. 

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