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A hiperconectividade e a exacerbação da cultura do narcisismo

TEXTO Lília Simões

01 de Janeiro de 2017

"Atuando como uma extensão narcísica de corpos e desejos, dispositivos mudam o estatuto da imagem"

Ilustração matheus calafange

[conteúdo vinculado ao especial da ed. 193 | janeiro 2017] 

Em sua forma acabada e fechada, um filme funciona também como organismo plástico, aberto, livre e passível de mil interpretações, sem que isso influencie a singularidade de sua essência. Em cada experiência diante da arte, a obra revive em uma perspectiva original. Foi assim que Umberto Eco, tão sensível, descreveu nossa interação com as diversas formas de arte. Por que não poderíamos dizer que são essas, também, nossas formas de experiência com as pessoas? A cada encontro, interpretamos e somos interpretados de modo livre.

Diferentemente da obra de arte, no entanto, estamos o tempo todo transformando nossa essência. A arte tem sido uma excelente companheira para pensar o humano; não à toa, a psicanálise recorre a esse instrumento para compreender ou ilustrar nossos dilemas. Existem artistas que compreendem a atmosfera do humano de forma extremamente sensível. Para mim, um deles é Ingmar Bergman. Mas onde caberia falar de um filme de Bergman em um texto sobre sexualidade, corpos e desejo nas dinâmicas da hiperconectividade? Simplesmente porque estamos falando de desejo, algo intrinsecamente humano e desmedidamente bergmaniano.

Há uma cena de Persona que aparentemente pode ser banal. Uma personagem em conflito está prestes a fazer uma viagem. Poderia ser um conflito qualquer, mas, em se tratando do diretor, pulamos do concreto ao existencial. Neste ponto, a personagem poderia ser eu, você, ou qualquer outra pessoa pensando sobre o quanto, muitas vezes, é esgotante viver e se adequar aos diferentes papéis na sociedade. Ela solta uma frase forte como um soco: “o irrealizável sonho de existir, não o de parecer, mas o de ser”.

A partir daí, podemos pensar: por um lado, estamos conectados ante a multiplicidade do mundo e suas diferentes possibilidades, por outro, há a premissa de se adequar. Pensadores da contemporaneidade têm refletido bastante sobre a liberdade que a atualidade nos proporciona, no sentido de sermos cada vez mais livres para ser. O afrouxamento de algumas fronteiras aumentou nossas possibilidades de escolhas para que o ideal de ser não contrarie o que é específico de parecer. De outra forma, a dinâmica de vestir personagens ainda faz parte da sociabilidade, talvez não mais como necessidade de adequação a uma coletividade, mas a nossas próprias conveniências. As personas que encaramos atuam para alimentar nossas próprias satisfações.

Esse autocentramento e a sociabilidade têm dialogado de forma paradoxal no que a psicanálise, por exemplo, costuma chamar de cultura do narcisismo. Joel Birman, em seu livro O sujeito na contemporaneidade: Espaço, dor e desalento na atualidade, fala de sujeitos que têm privilegiado mais o Eu, sustentando sua singularidade, desvencilhando-se da máscara social ao mesmo tempo que investem em experiências performáticas num mundo que se assemelha a uma vitrine de possibilidades identitárias, excessos e consumos.

Nesse contexto, os dispositivos tecnológicos funcionam como uma extensão narcísica de corpos e desejos. Incrementam mutações no estatuto da imagem e do corpo, provocando uma estetização da vida cotidiana na busca pela satisfação. Consumimos e somos consumidos nas experiências cotidianas dos usos que fazemos nos aplicativos de relacionamentos, por exemplo. Redes de relacionamento sempre existiram, mas nunca estiveram tão personalizadas e dinâmicas. Em uma breve expedição etnográfica pelos aplicativos de paquera que transitam entre o virtual e real, damos de cara com imagens, histórias e interesses em um perfil alimentado por nós mesmos, para sermos vistos e para moldar a forma como somos vistos.

Experimente baixar, instalar e usar alguns desses aplicativos. A primeira etapa consiste em montar o seu perfil, ou seja, como você será visto pelos outros usuários do app. Isso significa colocar fotos e preencher alguns dados, como idade, trabalho, interesses e localização. Alguns aplicativos se dão o trabalho de listar amigos em comum, o velho “diga-me com quem andas que te direi quem és”, mesmo que você não ande com essas pessoas. A partir daí, você escolhe ou é escolhido; se der match, na linguagem do app, algo como uma identificação imediata entre ambos, vocês partem para algo mais concreto. Ou não.

Tudo funciona no estilo self-service: escolho aquilo que quero de forma simples, prática e objetiva. Mostramos o melhor de nós na expectativa de encontrar alguém tão bom quanto. Até aí, nada diferente do que fazemos, quando estamos paquerando na vida real. O que altera é a maneira como diminuímos esforços, reduzimos os erros e evitamos decepções. Essas são demandas típicas da contemporaneidade: o mínimo de desprazer, a falta de tempo, a liberdade, possibilidade de fazer escolhas e o descomprometimento das relações.

O narcisismo encontra diversas formas de expressões no espaço e no tempo e em diferentes tipos de cultura. O que se discute, hoje, é que esse narcisismo se alimenta da forma espetaculosa como conduzimos nosso modo de ser e encontra nesses aplicativos a ferramenta perfeita para mostrar o quanto somos bonitos e felizes. Em contrapartida, essa necessidade de construir uma vitrine “perfeita” viria da busca em preencher um vazio.

Tal demanda se reflete no caminho como tornamos mais dinâmicas as nossas relações e a forma como vivenciamos a sexualidade. Na expectativa de preencher o vazio, continuamos a desejar e consumir relações momentâneas que aparentemente preenchem esse espaço. Por outro lado, por que parece ser tão difícil encontrar alguém que ocupe esse espaço definitivamente? Podemos recorrer a Zygmunt Bauman e suas ideias sobre a fluidez e liquidez das relações, ou mesmo a Gilles Lipovetsky e seus escritos sobre o deserto do humano e intensa busca do bem-estar, com a valorização do Eu em detrimento do outro.

No irrealizável sonho de ser, terminamos criando aversão por qualquer experiência de desprazer e evitamos ao máximo as contrariedades – o que se torna impraticável em relações duradouras, nas quais está implicado abrir mão de muitas de nossas próprias demandas. Por outro lado, o uso desses aplicativos se transforma em mais uma possibilidade de vivenciarmos nossa sexualidade de forma livre. Essa iniciativa de emancipação dos desejos e dos corpos, herdamos da modernidade e sua crítica a uma cultura patriarcal, puritana, hipócrita e “desmancha prazeres”. Viver com o máximo de intensidade e seguir o próprio impulso eram bandeiras da vanguarda moderna, desfrutada por muitos movimentos de contracultura. Terminou respingando em nós. 

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