Clique ao lado para visualizar o sumário da nova CONTINENTE.

Perfil

Monsieur Leloup e seus cadernos de cinema

Do Quartier Latin ao Bairro de Casa Forte, professor de francês percorre há 70 anos salas de exibição e vive num mundo de filmes

TEXTO MARCELO ABREU
FOTOS MARCELO SOARES

 

01 de Janeiro de 2019

O professor Gérard Leloup registra, em cadernos, todos os filmes a que assiste no cinema

O professor Gérard Leloup registra, em cadernos, todos os filmes a que assiste no cinema

Foto Marcelo Soares

[conteúdo na íntegra | ed. 217 | janeiro de 2019]

contribua com o jornalismo de qualidade

Quem frequenta
cinemas no Recife já deve ter encontrado com ele. Poucos, no entanto, talvez imaginem que aquele senhor alto, de olhos claros e nariz proeminente, ombros um pouco curvados pelos anos, que senta nas últimas cadeiras, geralmente sozinho, caladão, seja uma enciclopédia de cinema, assíduo de salas de exibição desde os anos pós-Segunda Guerra Mundial, quando era adolescente e vivia em Paris. Gérard Leloup é um francês que mora no Recife, entre idas e vindas, desde 1966. Foi professor da Aliança Francesa e ainda hoje dá aulas particulares de francês.

No apartamento onde mora no Bairro de Casa Forte, zona norte do Recife, Leloup mantém uma mesa comprida na qual atende a seus alunos. Sobre a mesa, há folhas de papel, borrachas, lápis, canetas, tesoura, óculos. E alguns cadernos grandes sobre cujas páginas o professor cola o ingresso de cada filme visto recentemente. Como sabe que o tempo apaga as informações impressas nos ingressos, anota à mão, nas páginas dos cadernos, a data de exibição, o local e ficha técnica de cada filme. “Estou um pouco atrasado com as anotações”, explica o professor, mostrando ingressos recentes que precisam ser catalogados. Os cadernos vão se acumulando – páginas e mais páginas preenchidas com nomes de filmes, diretores, atores, produtores, roteiristas, montadores – e eles se tornam a memória em detalhes de um homem apaixonado pela sétima arte há, pelo menos, 70 anos.

Apesar de nunca ter sido um profissional do cinema, Gérard Leloup conhece a área como poucos. Nascido em Paris em 1935, não viu muitos filmes na infância devido à eclosão da Segunda Grande Guerra, quando tinha quatro anos, e a subsequente ocupação da cidade pelos alemães. Por precaução, foi mandado pelos pais para um vilarejo fora da capital, para ficar com a avó. Aos 10 anos, com a liberação de Paris, retornou à cidade grande e começou a frequentar, inicialmente, os cinemas do seu bairro, o Quartier de la Gare, no décimo-terceiro arrondissement, perto da Igreja de Notre Dame de la Gare.

“Todo sábado à noite, meus pais levavam toda a família para ver um filme”, relembra Leloup de uma prática comum, décadas atrás, em boa parte do mundo. Através de um primo mais velho, funcionário de um cinema no interior, conseguia ingressos para pré-estreias no imponente Colisée, na Avenida Champs-Élysées, em Paris. Numa dessas oportunidades, viu um dos filmes que mais lhe encantou na vida: Othello, de Orson Welles, lançado em 1951.

AUGE DA CINEFILIA
“Filmes que são considerados de arte, hoje, naquele tempo passavam normalmente. Obras de diretores como René Clair, Marcel Carné, Jean Delannoy”, lembra o professor, que estava em Paris também durante o surgimento da nouvelle vague. “Vi muitos filmes de Godard na época, como A chinesa. Lembro que o púbico não gostou muito, mas eu gostei.”

Acompanhava tudo pelas revistas especializadas como Positif e Cahier du Cinema. No Quartier Latin (até hoje um bairro boêmio de estudantes, livrarias e cinemas), Leloup percorria a Rue des Écoles – com seus três cinemas, entre eles o Grand Action, onde lembra ter se impressionado como “um ciclo de Claude Chabrol”. Na Rue Christine fica até hoje o Studio Christine 21 (antes Action), um de seus cinemas preferidos. “É o que mais frequentei, pela programação e pelo ambiente”. Também viu muitos filmes no Champo (na esquina da Rue des Écoles com Champolion), que festejou recentemente seus 80 anos de existência.

O professor vai relembrando com gosto as salas que marcaram sua vida. “Na Rue de Rennes também tem um bom que é o L’Arlequin.” Frequentava o Saint-André des Arts (na rua do mesmo nome). O Studio des Ursulines, um dos mais antigos da cidade, também estava entre os seus preferidos.


O professor Gérard Leloup na sala do Cinema do Museu (Fundaj)

NO RECIFE
Funcionário do Ministério da Educação de seu país, hoje aposentado, Gérard Leloup ensina língua francesa desde os 20 anos. Em 1966, foi emprestado ao Ministério das Relações Exteriores e cedido à Aliança Francesa, instituição responsável pelo ensino da língua no mundo todo. Acabou vindo parar na representação da Aliança no Recife. Aqui, casou-se com uma pernambucana e tiveram uma filha em 1974.

Dos primeiros anos no Recife, lembra bem os cinemas do centro, como Art-Palácio e o Trianon e também o Coliseu, em Casa Amarela, onde, para sua surpresa, viu o clássico soviético O encouraçado Potemkim (1925), de Serguei Eisenstein, exibido durante os anos do regime militar.

Nunca se interessou em fazer cinema propriamente, mas chegou a utilizar uma câmera no formato super-8 para fazer umas imagens caseiras. Tem como hobby a fotografia. Durante muitos anos usou uma câmera Rolleicord (até que lhe roubaram na Bahia) e depois uma Yashica japonesa, ambas máquinas de alta qualidade para filmes no formato 6 x 6, utilizadas então por grandes nomes da fotografia. Hoje, Leloup fotografa numa câmera digital simples, sobretudo durante o Carnaval, em Olinda, e manda as fotos para alunos e amigos no Brasil e na França.

Mas o que ocupa o seu tempo livre são as idas ao cinema. Atualmente, frequenta sobretudo o Cinema do Museu, da Fundaj, e o Cine Rosa e Silva, que exibem filmes mais ao seu estilo. Chegou a ir muito ao Plaza, em Casa Forte, mas afastou-se, devido à programação comercial cada vez mais voltada aos blockbusters para adolescentes. Dia desses, conta, foi reconhecido por uma funcionária da bilheteria, que lhe perguntou o motivo da sua ausência.

CENSURA NA ARGENTINA
Em 1974, Gérard Leloup foi transferido para a Aliança Francesa da cidade de Santa Fé, no norte da Argentina, onde morou seis anos e vivenciou o duro período da ditadura militar no país, implantada em 1976. Ele tornou-se o responsável pelo cineclube semanal que acontecia na Aliança da cidade, exibindo filmes em cópias de 16 milímetros, emprestados pelo serviço cultural da Embaixada da França.

Mesmo sendo sessões que reuniam poucos curiosos, as exibições tinham de ser aprovadas pelos censores militares. Certa vez, eles encrencaram com o filme La chienne (1931), de Jean Renoir, com Michel Simon, porque o título em espanhol – La perra (A cadela) – era considerado pesado. “Passamos de toda forma numa sessão secreta para petit comitê e ninguém entendeu o motivo da proibição”, relembra. Em Santa Fé nasceu seu filho, em 1976.

Em 1980, voltou ao Recife com a família e ficou mais 10 anos. Ensinou a centenas de alunos na Aliança, nas instalações da Rua Gervásio Pires e depois no Parque 13 de Maio. Com a crise econômica no Brasil em 1990, regressou à França por cinco anos. Aposentado desde 1995, voltou de vez ao Recife. Passou a se dedicar às aulas particulares. O cinema, é claro, também é um dos temas presentes nas aulas de conversação como os alunos.

JARDINS DE GROSELHA
Todos os anos, no entanto, o professor passa alguns meses no seu país de origem, entre maio e setembro, durante o verão no Hemisfério Norte. Fica na casa da família em Orsonville, vilarejo de 337 habitantes, localizado a 75 km ao sudoeste de Paris. Em torno da casa, mantém um jardim com flores e fruteiras que dão peras, morangos e groselhas. O vilarejo fica na região agrícola chamada La Beauce, onde há lavouras de trigo, beterraba e batata. Leloup divide o tempo entre a família, suas fruteiras e os cinemas de Paris.

Ele tem também uma relação muito próxima com Créteil, cidade da região metropolitana de Paris, onde morou quando jovem. Nos anos 1990, chegou a fazer parte do conselho de administração do Cinéma du Palais, um espaço do tipo que os franceses chamam de cinéma d’art et d’essai (especializado em filmes não comerciais). Ainda hoje é mantido como cinema de rua, com três salas. Atualmente, além do Palais, ele frequenta sobretudo o UCG Ciné Cité Les Halles, que mantém 16 salas dentro de um centro comercial da capital.

Acompanha tudo com as publicações semanais como L’officiel des Spetacles e o Pariscope, que servem de guias para a programação cultural. “O problema é que a quantidade de salas é fantástica, Paris é sem dúvida a cidade no mundo que tem mais cinemas”, diz, entre feliz e resignado.

PENSANDO NOS FILMES
Após a separação do segundo casamento, Leloup passou a morar só. A filha nascida no Recife vive na França e ele se encontra com ela e os dois netos nas temporadas de verão. O filho, nascido na Argentina, morou até recentemente em Caruaru. Ele tem televisão no seu apartamento no Bairro de Casa Forte, mas quase não liga o aparelho. Cinéfilo modelo, ele vai ao cinema sozinho. Excetuando os blockbusters de aventura, acompanha tudo, sem preconceitos. Vê com interesse a produção recente do Brasil e de Pernambuco. Mas seus filmes preferidos são mesmo os clássicos. Além de Othello, de Welles, cita como os preferidos Blow-up – Depois daquele beijo (1966), de Michelangelo Antonioni, e O boulevard do crime (1945), de Marcel Carné.

Quando encontra, nas salas de espera, amigos ou ex-alunos, troca algumas palavras, sempre cordial, formal e sorridente. Mas o foco é exclusivamente no filme. Incomoda-se com o crescente uso de celulares e com o hábito de se comer pipoca nos cinemas. Não vê isso na França, pelo menos nas salas que frequenta. “Eu deixo o celular em casa. Para que levaria? Franchement!. Na Franca seria un scandale.”

Instado a fazer uma comparação entre a plateia francesa e a brasileira, diz que tem outra coisa que lhe incomoda. É a pergunta que geralmente acontece após as sessões: “Você gostou do filme?”. “Aqui é uma pergunta comum e me irrita um pouco. Tenho de fazer esforço para dizer, ‘sim, gostei’. Você pode até gostar de um filme ruim e não gostar de um filme excelente. São coisas muito pessoais.”

Ele diz que aproveita os momentos depois das exibições para pensar. “Eu vou ao Cinema do Museu a pé, gosto de andar porque você pensa no que viu e, se o filme é forte, você está perturbado, é difícil dar uma opinião logo depois”. Depois das sessões, volta para casa caminhando, guarda-chuva na mão, refletindo sobre as próximas anotações nos seus cadernos de cinema. No Recife ou em Paris, os anos passam e Gérard Leloup mantém firme sua adesão à cinefilia à moda antiga. Se não estiver nas sessões do Museu, é porque está na França. Cuidando de suas groselhas e flanando pelos cinemas do Quartier Latin.

MARCELO ABREU é jornalista, escritor, autor de livros-reportagem como De Londres a Kathmandu e Viva o Grande Líder!
MARCELO SOARES é fotógrafo.

Publicidade

veja também

A sociedade pós-secular

O monolinguismo brasileiro, depois de Sylvia Molloy

Paula Garcia

comentários