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Lançamento

Agá

Leia trecho de 'Confissões de um personagem grotesco', primeiro capítulo do romance Agá, última obra publicada em vida por Hermilo Borba Filho, relançada pela Cepe Editora

TEXTO HERMILO BORBA FILHO

03 de Julho de 2019

Ilustração HERMILO BORBA FILHO/REPRODUÇÃO

[conteúdo na íntegra | ed. 223 | julho de 2019]

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PRIMEIRO CAPÍTULO

Hoje é sexta-feira

Hoje é sexta-feira. Embora eu nunca tenha estado na Turquia, considero-me um Agá em muitas coisas poéticas e prosaicas: na cama, na mesa, na bebida, na arte, na conversa, na mentira, no jogo. Isto de ser um Agá é muito importante, até por incluir a grafia da inicial do meu nome, e acho que como sou, e como já fui, marcado por tantos acontecimentos, este não me é menos caro. Afinal de contas, partindo da inicial, decomponho o meu nome letra por letra e me vejo na companhia de alguns vultos com nome na eternidade transitória: Homero, Eliot, Rabelais, Modigliani, Ignazio Silone, Louis-Ferdinand Céline, Ofélia. Sou um pouco responsável por eles, já que estão no meu prenome, e não vou falar dos meus sobrenomes, não quero incorporar mais gente que cairia no perigo bastante incômodo de ter de recorrer a outras áreas profissionais como a dos militares, a dos banqueiros, a dos comerciantes, a dos editorialistas, a dos parlamentares.

Como comecei a dizer, hoje é sexta-feira, e em toda sexta-feira, por mais incrível que isto possa parecer, tenho a minha dose de martírio, umas mais, outras menos amargas, e não vejam nisto um estigma do Cristo.


Foto: Hermilo Borba Filho/Reprodução


Deu-se o fato de que eu ia passando por uma praça, a pé, contra os meus hábitos, já que sempre prefiro andar voando, quando fui assaltado por um cachorro que, firmando-se nas patas traseiras, erguia as dianteiras para o meu rosto, olhos nos meus olhos, não me atingindo, mas tentando socos como os boxeadores em sacos de areia, vez por outra virando-se e, com uma das patas, chamando outros cães que se mantinham a distância. Gente ia e vinha pela praça: homens de volta ao lar com embrulhos embaixo do braço, babás conduzindo crianças, casais de namorados, empregadas domésticas, e eu me admirava de que nem se voltassem para mim, era como se nada daquilo estivesse acontecendo. Eu me defendia da melhor maneira possível e até mesmo evitava tocar no cão, não fosse ele enfurecer-se ainda mais, pois até então só ameaçava e não me dera uma só bocanhada. O jogo já estava me cansando e logo me lembrei da recomendação da minha mulher: Não faça esforço físico!, — tudo por causa das mazelas coronárias. E num átimo a coisa ficou resolvida: os cães avançaram, todos se juntaram ao meu redor, focinhos no chão, quando olhei para baixo vi que eles haviam devorado meus sapatos sem que me causassem um só arranhão. Respirei aliviado, mas só por um momento, porque o cão-chefe já se erguia novamente nas patas traseiras e com as dianteiras reiniciava o mesmo jogo. Que devorariam eles dessa vez? Uma peça do meu vestuário ou uma parte do meu corpo? Não sei por que cargas d’água tive uma inspiração súbita, com certeza soprada pelo Espírito Santo, e lancei para o cão a frase menos lógica deste mundo: Quer foder comigo? Seu pelo deixou de ficar eriçado, os olhos raivosos foram abrandando, as fauces fecharam-se, mais um pouco se transformava num indiano de turbante colorido e sorria para mim: Quem come sou eu — ao que lhe respondi: Isto tiraremos na sorte. Salvava-me de uma situação enrascada e me metia em outra. Já estava imaginando que os dados o favoreciam e começava a sentir o cu reclamando quando o indiano, galantemente, curvou-se e, do chão, apanhando-a, me ofereceu uma cobra coral. Imaginei-me logo picado, correndo para o soro antiofídico, proibido de beber durante seis meses, mas dos riscos os menores: agarrei a coral pela cabeça e logo ela se transformou em meus sapatos de lona marrons, que tenho há sete anos, desde que fui ao Paraguai. O indiano afastou-se, sorridente, tudo me saíra pelo melhor, olhei em volta e a praça continuava na mesma, ninguém tomara conhecimento do incidente.

Fui para casa, tranquei-me no gabinete, bebi uma talagada dupla de uísque, logo ouvi o ruído da chave na fechadura da porta da frente, era com certeza Eva que voltava de suas andanças, portei-me como sempre, nada de revelar o mistério, beijei-a, jantamos calmamente, olhei-a retocar a maquilagem no espelho do quarto de dormir, disse-lhe que não sairia de casa, ela não gostou, preferia estar em cena sabendo-me nos bastidores ou mesmo num papo alcoólico no bar do teatro, mas fiz finca-pé, provei-lhe por A + B que tinha de dar andamento ao chatérrimo trabalho de reescrever por míseros cruzeiros a pesquisa de um sujeito atilado mas que nada entendia das leis da escrita, ela se conformou, fiquei de apanhá-la depois do espetáculo para irmos jogar biriba a leite de sapo em casa de uns amigos. Eva estendeu-me a ponta da língua, seu beijo nunca é chocho, quase a levo para a cama. Olhe a hora! — foi o que ela disse.

Voltei ao gabinete, nada de reescrever necas, apenas abri a gaveta da secretária, tirei a pasta com o romance que iniciara em 1964 e que pretendia continuar escrevendo, li as notas, o arcabouço, pensei em toda aquela gente, tive uma náusea. Para que inventar estórias quando a importante era a minha, quando me aconteciam coisas estranhas, quando toda uma seiva saía dos meus anos, quando uma palavra, apenas uma palavra, por exemplo coxas, poderia desencadear todo um processo, ideia puxando ideia, acontecimento acontecimento, isto sem contar com os meus martírios das sextas-feiras e a vida feérica, alucinante, extravagante que eu levava com Eva? É melhor inventar em causa própria, embora baseado na verdade incompreensível para os demais. Afinal de contas, estou escrevendo no tempo da censura e para ela cago. Só posso garantir uma coisa: nunca escarrei na cara de Deus e com palavras Ele pouco se importa, vai lá ligar a um dos inúmeros escribas do século XX que agora mesmo pode ser desintegrado por uma bomba chinesa, ianque, russa, francesa, inglesa, até mesmo brasileira, que esta já engatinha seus primeiros passos? É verdade que as palavras deste escriba também podem desencadear furacões chamados de Dorothys, terremotos made in Japan, maremotos apelidados de Jules Verne, revoluções ditas bolivianas, mas nunca tantas vítimas como se supõe, com certeza, dos cálculos científicos baseados na explosão de um daqueles engenhos de não sei quantos megatons na cidade de New York. Foi Joyce quem disse não saber escrever sem ferir ninguém e isto se aplica a mim como uma carapuça, eu mesmo me incluindo no número dos feridos. Assim, é tocar para a frente e denunciar todos os males e todos os bens, os que de mim partem e os que dos outros vêm.


Foto: Hermilo Borba Filho/Reprodução

Ia eu andando — e novamente não voando — por outra praça quando me vi cercado por pessoas importantes que se puseram a entrevistar-me. O primeiro que me saltou à frente foi Macunaíma: Você tem o meu caráter? — Se eu fosse como você, sem nenhum caráter, já seria herói nacional. Como todo artista, dentro do conceito de Unamuno, espalho contradições, mas, pobre de mim, não consigo ser um mau-caráter e nem sequer cheguei a realizar o sonho da minha vida: viver de rendimentos para me colocar acima do caráter. — O grupo se alvoroçou e Macunaíma afastou-se para dar lugar a Benedito: Eu sou preto retinto. Tem alguma coisa contra os pretos? Você casaria com minha irmã? — Sempre convivi com pretos, inclusive você, a quem admiro como um verdadeiro herói que dá porradas a torto e a direito, bom dançarino, bom conquistador, justo e injusto, acima do bem e do mal. Sexualmente fui iniciado por negras e delas me lembro como boas mulheres, boas em todo o sentido erótico. Herança, com toda a certeza, do Capitão, de quem não tomei somente o nome, um ex-senhor de engenho da primeira decadência, cujas amantes negras lhe deram muitos prazeres e muitas dores de cabeça à sua mulher, minha mãe. Tenho grandes amigos negros e para lhe ser totalmente franco uma certa melancolia em relação às negras. Como fugir da dureza de sua carne, das suas ventas acesas, da graça do seu andar, das ancas, do bodum? Se sua irmã tem todas estas qualidades, Benedito velho, claro que me casaria com ela, mesmo que para isto fosse alcançado pelas penas da bigamia. — Ele riu com ar descrente e, de brincadeira, me deu uma lapada com o deus-me-perdoe, soltando sua frase célebre: Aprovado pelo Laboratório Bromatológico de Chapuletada! — Saiu aos pulos e eu tive de enfrentar Mateus, bexiga na mão, com voz esganiçada: Acha que existem coisas melhores do que dinheiro e mulher? — Olhe, eu poderia fazer literatura e desfiar por aí um rosário de cretinices para provar que estas não são as coisas mais importantes da vida, apresentando-me como um sujeito bem-comportado. Mas estou inscrito no rol dos escritores malditos e tenho que ser coerente, dizer as coisas como penso que elas são. Dinheiro é ótimo e, como dizia Colette, não dá felicidade mas acalma os nervos, com ele se ajeitando a vida da maneira que se quer, tudo no terreno material, claro, porque quanto aos nossos fantasmas a história é outra, mas pelo menos trata-se do corpo e um corpo bem tratado é um bocado de caminho andado: podendo comer um strogonoff não vou comer fígado de alemão, podendo dormir com ar-condicionado não vou suportar calor e muriçocas. Você está me entendendo? Quanto a mulher, muitas já passaram pela minha vida e me marcaram como acontecimentos importantes, mas vou lhe dizer uma coisa: sou um sujeito danado de monógamo. Quando amo uma mulher só amo aquela. Coisas melhores do que dinheiro e mulher? Duvido. Só a luta pela santidade. — Foi o quanto bastou para ele se pôr a dançar, dando-me bexigadas, canhestramente acompanhei sua dança até ser detido pelo braço por um personagem em quem reconheci o nosso Dom Casmurro: Admite a traição na mulher? — Ainda dançando, arfante, consegui forças para a resposta: Na dos outros. Se a minha me trair, será tratada à velha maneira nordestina que pode ir, conforme o ímpeto do momento, de uma boa surra com cipó-de-boi até a exibição diária, no seu prato, à hora do almoço, do instrumento cortado do seu parceiro, ela definhando aos poucos de causar dó… nos outros. — Dom Casmurro não se mostrou satisfeito e já ia abrir a boca para nova pergunta quando se viu afastado brutalmente por Calabar que mais gritou do que falou: Não acha que eu tinha razão em ficar com os holandeses? — Depois de tantos anos os historiadores quebram a cabeça com o seu problema, uns afirmando que você tinha razão e outros que não. Tenho uma secreta simpatia pelos traidores porque, na realidade, são uns corajosos. E lhe digo mais: minha simpatia se estende aos assassinos, ladrões, pederastas, às prostitutas, aos traficantes e libertinos, que todos eles estão necessitados de Redenção. Você me faz esta pergunta, depois fica calado, e não me diz as causas que o levaram ao que se costuma chamar de traição. Todo homem tem uma razão para sair das normas. Quanto à repercussão do seu ato na minha descendência confesso-lhe que me interesso muito pouco, ou nada, por holandeses e portugueses. Sou um romancista que acha não poder viver fora da sua época e se algum dia tiver de escrever sobre você eu o trarei para os tempos atuais. E aí como vai ser? Louis-Ferdinand Céline foi colaboracionista durante a última guerra e talvez seja o maior romancista do século XX. Soljenítsin passou pelos campos de concentração de Stalin, foi reabilitado por Khrushchov, está novamente em desgraça, e é o maior romancista russo depois de Dostoiévski e Tolstói. Chaplin não pôde viver nos Estados Unidos durante muito tempo e é o gênio do cinema de todas as épocas. Você foi mais infeliz: esticou a língua. — Ele, realmente, esticou a língua para mim e, arrancando um pedaço de corda que tinha em volta do pescoço, atirou-o na figura imaculada de Joaquim Nabuco que, com nojo, procurava afastá-lo, enquanto me interpelava: A reforma agrária brasileira não será a abolição dos tempos atuais? — Primeiro, deixe-me confessar-lhe uma coisa: na minha juventude tive uma grande admiração por você, pela sua luta em favor dos negros, mas depois de, por acaso, escutar uma dezena de oradores, no Teatro Santa Isabel, dizer que ali Nabuco ganhara a causa da abolição, fui me tomando de antipatia. Não estou muito certo de que você, hoje, defendesse a reforma agrária, mas com toda a certeza, se ela vier dentro do espírito de cada região, cada vez mais urgente, abolirá de vez o regime feudal que impera pelo menos na minha zona (o meu calo doendo me importa mais que a sorte do Papa), liquidando em sua maior parte a má distribuição da riqueza. — Não cheguei a ver a reação de Joaquim porque uma mão feminina já me virava pelo outro braço e eu dei um grito de satisfação ao reconhecer a proxeneta Alzira Melo: A prostituição é necessária? — Fiquei encantado e, todo mesuras, fiz que ela se sentasse no banco, ao meu lado, os outros nos espiando com inveja, e falei-lhe quase ao pé do ouvido: Para mim foi, e você, melhor do que ninguém, sabe disto. Mas minha amiga Alzira, há várias formas de prostituição: a artística, a política, a econômica, a agrária, a cultural, onde quer que esteja o homem aí está a prostituição. Mas estamos falando da sexual e esta, segundo parece, vai se desmilinguindo aos poucos. Socialmente, a mulher, desde jovem, está se equiparando aos homens e, muito naturalmente, de cambulhada com batons, talcos, perfumes, dinheiro miúdo, carrega as pílulas dentro da sua bolsa. Satisfaz seu desejo e quando muito aceita um jantar, um passeio de automóvel, uma dança. Você está compreendendo? Isto da classe média para cima. Então se um rapaz pode ter, mais ou menos bem cantada, uma companheira para a cama sem qualquer tipo de compromisso, não vai gastar dinheiro na pensão de uma colega sua ou perambular pela zona. Eu disse que da classe média para cima, não foi? E disse bem: a classe média-baixa ainda terá de procurar prostitutas — dá cá e toma lá — porque a propaganda e a eficácia das pílulas alcançam muito mais outro tipo de pessoas. Isto é somente um raciocínio porque afinal de contas sempre haverá um tipo de mulheres, desajustadas por mil e um problemas, que venderão sua entrepernas para continuar vivendo. E sempre haverá um macho para cada uma delas ou vários para uma e na hora do aperto é tão cômodo comprar amor por cruzeiros desvalorizados. — Eu achava que estava falando coisas sérias, mas Alzira se torcia de rir. Pensei que fossem as minhas palavras a causa daquela hilaridade, mas não, logo descobri o motivo: era Hitler que avançava em minha direção. Meu primeiro ímpeto foi sair correndo, não de medo, mas de náusea. O curioso foi que ele me perguntou em alemão: Você está comigo contra os judeus? — E eu entendi a pergunta sem saber a língua. Não hesitei: Vai te lascar, Hitler! Causa-me repugnância responder sua pergunta. Não sei distinguir um judeu de um cristão a não ser que os veja nus, e assim mesmo, olhe lá. Para mim, o que conta é o homem, seja ele de que parte for. Você foi o responsável pelo maior genocídio da história do homem, através de todos os processos possíveis e imagináveis de torturas, levando a condição humana à maior degradação. Mas você não foi o único culpado, reconheço. Com você estavam seus auxiliares e — estranho — até mesmo seus adversários que contribuíram para a crise com o silêncio, a omissão, a covardia. Um judeu ama, odeia, mata, acaricia: é um homem. Um cristão faz a mesma coisa. E um maometano. E um budista. E que fez você? Gratuitamente (tenho um profundo desprezo por certas teorias hoje existentes que procuram explicar sua missão transcendental), lançou aos fornos crematórios, aos paredões, às forcas, às salas de torturas, cientistas, artistas, intelectuais, operários, camponeses, donas de casa, crianças, tudo isto para quê? Agora, você está sentado em seu braseiro no Inferno e os judeus continuam a prestar serviços à humanidade, com erros e acertos como qualquer povo. — Ele ergueu o braço, seus olhos fuzilaram, gritou Sieg, heil, e escafedeu-se por entre as árvores, logo substituído, por quem, meu Deus? — por Josef Stalin, que com muita calma me inquiriu: Acredita que fui difamado? — Não, bigodudo. Você começou por trair a memória de Lenin e, logo em seguida, empolgado pelo poder, incentivando o culto à personalidade, foi matando, um por um, todos os seus velhos companheiros bolchevistas. Estendeu na Rússia uma rede de delação e espionagem, sufocou a intelligentzia, torturou, matou, criou terríveis campos de concentração, traiu, abusou da sua força. Que ganhou afinal com tudo isto? Devem ter sido terríveis as suas noites, preferidas para os seus despachos macabros, e fico imaginando como seriam seus pesadelos, a incerteza que se apossa de todo ateu quanto a uma outra vida, oscilando entre o tudo fazer e mergulhar no nada e o tudo fazer e assumir a responsabilidade. Se você, realmente, oscilava, admiro sua coragem, mas se acreditava que iria para o Nada o seu crime ainda foi maior porque não podia contar, sequer, com a Misericórdia. — Nenhum músculo da sua face se mexeu. Apenas levou a mão direita ao bigode e cofiou-lhe, dando-me as costas, afastando-se, desaparecendo, cruzando antes com João XXIII que já me estendia a mão para o beijo: Será que minha Igreja vai se acabar? — Acalorei-me: Isto é pergunta que se faça, Giuseppe? Agora não é possível, mas este bate-papo deveria acontecer enquanto tomávamos vinho e comíamos gorgonzola, à boa maneira camponesa. Não vai acabar coisa nenhuma. Passa por crises, há cisões, divergências, você não vai ser tão ingênuo a ponto de acreditar que seu sucessor haveria de pensar à sua maneira, mas caminha-se. Como pode acabar a Igreja, mesmo levando-se em conta os fariseus, aqueles que, em nome da Caridade, dedicam-se a chás dançantes beneficentes, natais de crianças pobres, associações importadas? Como desaparecer uma Igreja que está lutando contra o subdesenvolvimento, consciente da importância do homem na Terra, antes de alcançar o Céu? Findar-se uma Igreja onde há inquietação para todos os problemas? Permita-me uma franqueza: você, como santo, não terá acesso junto ao Espírito e falar-lhe sem rodeio para que revoe sobre os Mandantes, dando fim à guerra do Vietnã, por exemplo? Peça-lhe um favor especial, muito do meu interesse: que acabe com a servidão da América Latina. E depois, leve em consideração um pedido que lhe faço com toda a sinceridade: acabe com o celibato obrigatório dos padres. Os pobres… — Curvei-me novamente e posso garantir que ouvi João murmurar prometo. Ao me levantar, ele não estava mais à vista, substituído por um homenzinho de voz áspera: O que você fez do romance nordestino! O palavrão é necessário? — Ergui os olhos e vi que estava diante de mestre Graciliano: Está me acusando de quê? Venho tentando arrancar o romance nordestino do puramente anedótico, pretendendo colocar dentro da paisagem os problemas íntimos dos meus personagens. Isto já estou cansado de dizer: o que me interessa é o homem com todas as suas reações internas que podem ter ou não repercussão externa. Nada do homem condicionado pelo meio, mas do homem revoltado. Por outro lado, procuro recriar o Nordeste, num realismo mágico que, transfigurando seres e coisas, dê a medida exata de tudo o que aqui nos envolve. Sei que ainda estou bastante longe, mas continuo num artesanato doloroso. Palavrão? Que é isto? Só conheço palavras, com o seu peso, a sua medida, o seu valor. Não tenho vergonha de palavras e as emprego exatamente para designar as partes nobres do homem e da mulher, por exemplo. Estas palavras são insubstituíveis, como na conversa, na raiva, no ato do amor. Detesto os cretinos metidos a moralistas que agem como se o mundo fosse desabar porque chamo bunda de bunda mesmo e não pelo nojento bumbum. — Não sei se ele gostou do que eu disse porque logo tive de prestar atenção à voz irada que berrava para mim: O que é ser pernambucano? — Vi-lhe, primeiro, a batina, e não tardei a identificá-lo como o famoso Frei Caneca: Você foi dizer o que era e terminou como terminou. Aliás, todas as vezes em que a gente insiste em dizer o que é mesmo, lasca-se. Posso fazer um pouco de lirismo barato, confessando que para sair pela tangente? Isto é o tipo da coisa subjetiva e não posso falar pelos outros, somente por mim, mesmo correndo o risco de que já falei. Mas, vamos lá: ser pernambucano é estar ao lado dos movimentos libertários, é não se conformar com o subdesenvolvimento da zona rural, é tremer de horror diante dos mocambos e alagados, é não admitir que os ricos se tornem mais ricos e os pobres mais pobres, é comer os quitutes da nossa cozinha, é falar mal do Recife e não conseguir desprender-se dele, é amar e ter inimigos, é pedir ao garçom mais uma dose de Passport. Mas isto são atributos de qualquer homem em qualquer lugar. E chego a uma conclusão muito séria: não sei o que é ser pernambucano. — Vi nos olhos de Caneca que não havia sido feliz e ele só não investiu contra mim porque a figura gigantesca de Ascenso Ferreira interpôs-se entre nós dois, chupando seu charutinho, falando com a voz arrastada: Qual é melhor: comer e dormir ou trabalhar e suar? — Mas sem nenhuma dúvida comer e dormir. Tenho horror a repartições públicas, horários, obrigações que não estejam dentro do meu esquema. Mas Ascenso, comer e dormir, apenas, quando se é um liso, arrecadando um centavo aqui e outro ali, numa região onde uma ideia não vale uma bufa? O jeito, então, é trabalhar e suar numa violência danada. Trabalhar, dói, como diz Augusto Rodrigues, e confesso que detesto o suor. Nada como uma rede embaixo de uma mangueira, tendo à mão a bebida preferida. Mas há uma coisa: com toda esta conversa fiada posso lhe garantir que trabalhar um romance não é a mesma coisa que trabalhar um partido de cana. — Ascenso deu uma das suas gargalhadas e saiu gingando, enquanto repetia um pequeno trecho da carta que escrevera, pouco antes de morrer: Adeus, buchadas gostosas… E logo, lépido, saltitante, irrequieto, quis Ánibal Fernandes saber: Como vai o Recife? — Como haveria de ir? Subindo. Fala-se já no Grande Recife. Uma cidade metida a besta onde já é uma aventura cruzar uma rua. Cada tempo traz as suas marcas. Por que vamos ficar somente contemplando a Fortaleza do Brum, os solares de Dois Irmãos, o Teatro Santa Isabel, o Pátio e a Igreja de São Pedro? Bom, que sejam contemplados, mas numa área urbana do tamanho da nossa, as velhas ruas e os velhos prédios têm de ceder a avenidas e arranha-céus, em coerência com o novo espírito, onde medram as agências bancárias, os escritórios de corretagem e publicidade, os de planejamento econômico, os destinados a arrancar dinheiro de sabidos e incautos. Ainda ontem me dizia um sobrinho seu que o Recife estava diferente do de há dez anos. Para mim, muito mais, que o conheci na década de 1930. Mas que tem isto? As cidades, como as pessoas, transformam-se muito e também como as pessoas não se pode afirmar de pés juntos que para bem ou para mal. Mudam. E daí? O que não pode mudar no Recife são os rios, o mar, o céu, as árvores. Mas o resto… A juventude é outra, conhecendo a cidade como ela é. Nada de entoar um réquiem, mas aderir à música nova. Dança-se melhor. E o que é mais importante: canta-se melhor. — Ainda o ouvi gritar, com a sua voz esganiçada, mas logo, partindo não sei de onde, chegou à canção de Caetano Veloso, Soy loco por ti, America, e não ora para menos, porque, quem vejo? O próprio John Kennedy que indagou, entre curioso e assustado: Continua sendo perigoso ser norte-americano? — Continua perigoso é não ser norte-americano, principalmente nascendo-se na América Latina. No Vietnã também. E em outros pontinhos espalhados por este vasto mundo. Só é perigoso ser norte-americano para os negros e os soldados que vão lutar noutras áreas para manter sempre de pé o espírito da democracia, hélas: — Depois desta, tive um instante de descanso, embora vendo que outras figuras me rodeavam, indecisas porém. Quem rompeu o silêncio foi Lawrence, não o da Arábia, mas o D. H. e, falando bem de perto, constatei que tinha mau hálito: Considera-se meu descendente? — Quase lhe digo sim para escapar ao fedor, mas me revesti de coragem: — Não, a não ser pelo gosto que ambos temos do sexo, mas estamos distantes pelo processo, pela combinação, pela técnica, por você ter sido, no fundo, um puritano e eu um dionisíaco. Tenho o mais profundo respeito pela sua obra mas confesso que, em sua maior parte, ela me deixa frio com todas as especulações muito mais próprias do gênio inglês que do latino-americano. Além do mais, pratico um romance do tipo confessional, pelo menos na minha fase atual, e neste sentido me sinto muito mais descendente de Santo Agostinho, Santa Teresa, Saint-Simon, Samuel Pepys, Rousseau, Restif de la Bretonne, Anaïs Nin, Albertine Sarrazin, Genet e Miller. Mas quero aproveitar a ocasião para lhe dizer que meus romances, ao contrário do que muita gente pensa, não são imorais. Têm, antes, um conteúdo tão carregado de misticismo que às vezes me sinto com asas. Por outro lado, todos devoram os livros que abordam o sexo com honestidade. Há também os adoradores do sexo desonesto. E que tem? Érico Veríssimo me escreveu, dizendo: “Uma senhora minha conhecida leu os seus livros com repugnância, mas tão fascinada pelo todo que só os largou no final”. De resto, Lawrence, há apenas uma desvantagem na leitura de um livro erótico: é que só pode ser segurado com uma mão. — Lawrence, parece-me, gostou da insinuação porque riu mansinho e fez um sinal, com a mão, para Dona Clarabela do escriba Ariano Suassuna. A mulherzinha avançou, de piteira em punho, louríssima, com trejeitos, e pensou irritar-me quando perguntou: Você é autêntico? — Tive vontade de levá-la para a cama, mas não podia fugir da sabatina: Sou. Nos meus erros e nos meus acertos. Eu poderia dizer que não, que sou um pouco asmático, como Joaquim Simão. Mas não. Você jamais há de me ver realizando uma coisa, tanto do ponto de vista humano como do artístico, que não seja ditada pelas minhas mais profundas forças. Sou autêntico e para que isto se produza não poupo ninguém. Nem a mim. Às vezes sou meio mentiroso, meio saltimbanco, meio pelotiqueiro, mas tudo são jogos para que a autenticidade se derrame com maior facilidade. — Ela me beijou na ponta da orelha e cedeu o lugar ao Conselheiro Acácio que logo indagou, muito curioso: Vossa Excelência acha que assim como são as pessoas são as criaturas, pois não? — Nada achei de acaciano na sua pergunta, tanto que o levei a sério: Nem sempre, meu preclaro Conselheiro. Vossa Excelência, por exemplo, é muito mais pessoa do que certas criaturas que conheço escrevendo colunas diárias de resultado cômico, do que certos escritores de uma literatura bem-comportada, do que certos músicos que ainda insistem nas fórmulas gastas, do que certos pintores que ainda desconhecem — não é incrível? — a câmera fotográfica, do que certos políticos que teimam em desconhecer a transformação pela qual passa o mundo. — E então foi a vez de Monteiro Lobato, sempre com a sua ideia fixa: O petróleo deve ser nosso? — Nada de hesitações: O petróleo é nosso, Lobato. Você comeu exílio por causa disto, não comeu? Olhe, já li muita coisa a respeito do problema e ficava pensando num troço muito simples: por que o subsolo do Brasil não dava petróleo? Depois, pouco a pouco, foram surgindo, aqui e ali, jazidas. Havia petróleo. Por que não era explorado? Havia a Standard Oil (Por que mudaram o nome para Esso?). Falta de recursos? Não se precisa ser economista para saber que a coisa era autofinanciável. Mais: superautofinanciável. Explicação: os trustes estrangeiros. Mas isto é somente em relação ao petróleo, Lobato? Nunca eu que vá acreditar numas coisas dessas. Continuamos na condição de robôs, de teleguiados, pouca coisa melhorou. O petróleo é nosso, sem dúvida, mas debaixo da terra. Ou então partimos para uma sublocação. Prefiro não dar palpite para não ter de ir morar no Chile. — Aí, então, foi que a coisa engrossou, porque mal Lobato se afastava, surgia-me pela frente a figura de Tiradentes, com voz rouca — pudera — querendo saber: A liberdade é necessária para o desenvolvimento de um país? — Eu tinha de ser totalmente franco com aquela respeitável figura: Acho que não. Você pensava que sim e estirou a língua por toda a eternidade. Mas quero me explicar: a que tipo de desenvolvimento você quer se referir? Ao econômico-financeiro? A Rússia está na vanguarda ao lado de outros países. A Alemanha Ocidental, também. Os Estados Unidos, nem se fala. A Inglaterra, parece que sim. A França vai mais ou menos. A maioria deles detém o poder da bomba de hidrogênio. E isto basta? Veja se na Rússia se pode falar à vontade, se nos Estados Unidos foi resolvido o problema do negro, se na Inglaterra não existem cortiços, se a França não tem seus planos colonialistas. Não falo da Alemanha Ocidental porque a visão que dela tenho me é ditada pela revista Humboldt, cujas traduções são péssimas. A liberdade, meu pranteado e rouco Tiradentes, louvada por todos os governos, que todos se julgam revolucionários, tem que ser dividida: liberdade econômico-financeira e sufocação da cultura; liberdade agrária e censura teatral; liberdade têxtil e castração da literatura. Você reparou que somente a música erudita escapa disto? Neste sentido, a música erudita é uma merda. Liberdade de falar? Como? Em público ou em particular? Em público é impossível. Em particular, somente depois de verificar que não existem gravadores ocultos. Os processos variam, meu caro Alferes: você estirou a língua e nós corremos o risco de ficar sem ela. Estirar mais o quê? — Tiradentes ficou tão impressionado com as minhas palavras que se dirigiu a um Ficus benjamina e, escolhendo um galho mais forte, espontaneamente voltou a enforcar-se. Não tive tempo de acudi-lo porque já me via acossado por Antônio Conselheiro: Você é um fanático da literatura? — Não sou fanático de coisa nenhuma, beato. Muito menos da literatura. Escrevo romances confessionais porque, no fundo, não tenho a coragem de viver integralmente. Leio russos, finlandeses, italianos, norte-americanos, franceses, ingleses, gregos, latino-americanos, alemães, japoneses, mas nada substitui a vida. Preferiria viver perigosamente a escrever um livro que merecesse o Prêmio Nobel. Isto se as coronárias deixassem. Como não deixam, escrevo. — A minha música, inspirada em lendas brasileiras, continua sendo válida? — Eu estava diante de um gênio e um gênio da minha mais particular admiração: Villa, quando nos encontramos, há tantos anos, já reconhecia em você o único brasileiro de repercussão universal. Depois veio Pelé. Sua música é eterna enquanto o homem for eterno sobre a face da terra. A única coisa que lamento é você não estar entre nós ao surgirem Baden Powell, Tom Jobim, Chico Buarque de Holanda, Edu Lobo, Gilberto Gil, Caetano Veloso, Billy Blanco. Em ponto menor, o que você fez, em música, com as lendas brasileiras, é o que muita gente, inclusive eu, tenta fazer em vários ramos da arte brasileira. Espero reencontrá-lo no festim dos eleitos. — Villa regeu com o charuto um pedacinho das baquianas e depois afastou-se para jogar bilhar. Quem me mandara, outra vez, andar em praças públicas num dia de sexta-feira?


Foto: Hermilo Borba Filho/Reprodução

Entendo de decompor a letra agá. Antes de tudo, é bom que se saiba ser ela a oitava letra do alfabeto e oito é o número do dia do meu nascimento. Como fugir, portanto, do mistério da letra agá? Vejamo-la graficamente, primeiro em minúsculas: h. É um homem sentado: eu, um copo de uísque ao lado, relendo Os irmãos Karamazov, à espera de minha mulher que chegará dentro de pouco tempo para almoçarmos. Virá carregada de problemas que se juntarão aos meus e teremos motivo para conversas e discussões intermináveis durante o resto do dia. Ela é tudo para mim: mãe (quando acordo, minha escova de dentes já está com a pasta, a bermuda estendida aos pés da cama, o Isordil para as coronárias num prato ao lado das torradas e do café); filha (sou mais velho do que ela uns bons 15 anos e costumo chamá-la de menina, o que a irrita); secretária (encarrega-se de toda a minha correspondência, da minha conta bancária, dos meus telefonemas, dos meus apontamentos, dos livros que empresto, das minhas férias e das minhas licenças, das minhas consultas médicas, dos meus exames de fezes, dos meus telegramas, dos meus editores); amante (entre quatro paredes, na cama larga, concorda com a minha teoria e a minha prática de que tudo é válido entre um homem e uma mulher. Também toma iniciativas, não se limitando ao tradicional papel passivo, tem nádegas perfeitas e uns seios que mais parecem uns modelados de uma estátua, no momento do orgasmo emitindo uns sons roucos, de garganta, que se assemelham ao arrulho de uma pomba. Que mais quero eu?). Reparem, prestem atenção, este h também sou eu, adolescente, numa banca de colégio, à noite, sem prestar atenção à Álgebra de Serrasqueno, sentindo uma vaga inquietação nas virilhas, prenúncio de uma masturbação bem cuidada, imaginando mil maneiras da cama de molas não ranger, atento, no entanto, ainda àquela hora, para o ruído produzido por uma manga madura ao cair no chão juncado de folhas, erguendo a mão e pedindo para ir fora, o bedel me olhando por cima dos óculos, pondo em dúvida a minha micção ou a minha caganeira; também sou eu numa mesa de bar, a cerveja quente, fazendo hora para uma cópula mecânica, ouvindo o zunzum da conversa dos outros mas sem prestar muita atenção, ansioso apenas para afogar o ganso na mulher do médico, hora que me seria dada por Pirangi, o vigia do mercado, implacável no badalar das horas do velho sino; sou eu à mesa de jantar, da família primeiro, de estranhos depois para sem-vergonhamente matar a fome de vagabundo, eu diante dos vários birôs que ocupei dos pífios aos importantes cargos, eu diante da cama do meu primeiro filho, braço estendido, dando-lhe uma transfusão de sangue para nada, para a morte, eu nas aulas, nos aviões, nos carros, na bacia sanitária, no ato de escrever e no de me submeter a interrogatórios policiais, eu, um minúsculo h, verificando que meu nome, com o l duplo com que o Capitão me registrou no cartório nos idos de 1917, somos oito no ano também, e oito foi o dia em que nasci. Tudo são mistérios e nada me arrancará deles, também não me esforço por decifrá-los, melhor assim, arrepio-me todo à ideia de uma análise, pode ser que me transforme num sujeito de manias, de mais manias.

E vejam, agora, o desenho do H maiúsculo. Que coisa incrível! A qual das hastes pertence o falo? Será uma masculina e outra feminina ou as duas masculinas? Quem está botando em quem? Esta letra é uma cópula em pé, mas se a deitarmos teremos um papai-e-mamãe; é uma cerca, das muitas que pulei, à noite, de madrugada, para encontrar mulheres nem sempre sadias; se entendermos de prolongar-lhe as hastes veremos que elas irão até o infinito à procura de espetar asteroides no mínimo; o travessão liga dois pontos indissoluvelmente por mais que as hastes se distanciem; novamente as hastes, prolongadas para baixo, irão até o Hades, podendo antes descobrir petróleo; com este H encontro palavras mágicas como Hoje, Horóscopo, Hermes, Hades, Hermillo, Hetaira, Hotentote, Holofernes, palavras que não desejo explicar e outras ainda que prefiro guardar somente para mim. Nunca fiz um H floreado para escrever meu nome, como era costume na época, até mesmo o Capitão não fugindo dessa magia, antes preferindo riscar simplesmente os dois traços verticais e logo em seguida o horizontal: sentia- me um carvalho, com a nostalgia do carvalho que não existia nas minhas bandas, e então procurava árvores que o substituíssem, paus linheiros, madeiras de lei das muitas que abundavam nas ainda não devastadas matas da zona sul, ou então me comprazia, nos passeios campestres, a ligar, imaginariamente, por um travessão, cana a cana, e todo o partido se transformava em agás verdes e amarelos, roxos listrados; pode-se, também, abaular as hastes, tanto a da direita como a da esquerda, tornando-as côncavas, recipiente para lágrimas, sangue, esperma, álcool — ou convexas, e aí tenho um símbolo exato da vulva só que com o talho representado pelo travessão, em sentido horizontal, e confesso humildemente que ao desenhar tal agá na parede da velha casa me via logo dominado por uma forte ereção e não me continha enquanto não atingisse o orgasmo seco que esperma ainda não tinha; uma haste vertical e outra convexa dão mais exatamente a imagem da cópula em pé, uma haste vertical — pode-se escolher qualquer uma das duas — e outra côncava trazem-nos a exata medida de um enrabamento, mas não, talvez as duas côncavas seja mais exato, reparando bem; uma maior e outra menor — isto é possível — podem muito bem ser eu de mãos dadas com a minha mulher que é baixota, de frente, para uma fotografia em preto e branco; se pusermos o agá em alto-relevo, então, sim, teremos uma catedral e, mais espichado, uma ponte que bem pode ser a que me liga a um passado já tão remexido e ainda, no entanto, com tantas surpresas para mim mesmo.(...)

Extra:
Veja a íntegra da matéria da edição 199 sobre o encenador Hermilo Borba Filho, quando se comemorava o seu centenário.

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