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Ensaio

Justiceiro e vingador

A nova face da lei no cinema e na ficção seriada criminal brasileira

TEXTO LUIZA LUSVARGHI

03 de Janeiro de 2020

'O doutrinador', de Gustavo Bonafé e Fábio Mendonça, foi lançado em 2018

'O doutrinador', de Gustavo Bonafé e Fábio Mendonça, foi lançado em 2018

Foto Aline Arruda/Divulgação

[conteúdo na íntegra | ed. 230 | fevereiro de 2020]

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A percepção
do bandido e do marginal como contestador e revolucionário é muito forte na cultura latino-americana e, em especial, no Brasil. Esse conceito está presente em diversas obras de ficção literárias e audiovisuais. Historicamente, a corporação policial, criada em 1808, passa a adotar o termo civil por decreto em 1866, o que não impediu que ela sempre fosse vista mais como aliada de governos autoritários em nosso país, braço urbano do Exército, do que responsável pela segurança pública de seus cidadãos. Portanto, dificilmente ocuparia espaços de protagonismo na sociedade e na produção ficcional. Delegados, investigadores, de modo geral, sempre foram papéis secundários, tanto no cinema quanto na televisão, quando não os bandidos. O mocinho brasileiro, o cowboy do nosso cinema, sempre esteve mais presente no cangaceiro que no policial. Quem seriam os modernos justiceiros brasileiros, os heróis das narrativas criminais na atualidade?

Forças especiais, investigadores solitários (advogados, jornalistas), excluídos sociais. É o que podemos deduzir a partir de séries como O mecanismo (Netflix, 2018-2019), O caçador (Globo, 2014), Na mira do crime (Record, 2015), Força-tarefa (Globo, 2009-2011) e de filmes como Alemão (2014), que também foi exibido como minissérie, Tropa de elite (2007) e a sequência Tropa de Elite: o inimigo agora é outro (2010), a segunda maior bilheteria da história do cinema nacional – com mais de 11 milhões de espectadores – e, mais recentemente, O doutrinador (2019). O Capitão Nascimento pertence a uma força policial especial, e, em ação, ostenta crueldade e violência digna dos bandidos que persegue. Para fazer justiça, há que romper com a lei.

Produzido para ser lançado no período que antecedeu as eleições de 2018, no Brasil, em que se elegeu o candidato ultradireitista Jair Bolsonaro, o filme O doutrinador (2018) teve sua estreia em novembro de 2019 e faz parte de um projeto envolvendo filmes e série, gravadas simultaneamente. A série estreou dia 1º de setembro, no canal Space, com a mesma estrutura narrativa do filme, e algumas cenas extras. A franquia tem ainda três spin offs programados, Penélope, Santo e Os desviantes, produzidos em longa-metragem e quadrinhos, e o filme deve ter uma sequência neste 2020.

A obra foi baseada na HQ homônima criada por Luciano Cunha e escrita em conjunto com Marcelo Yuka, ex-componente do grupo Rappa, morto no ano passado, trazendo um militar do exército aposentado, que teria integrado uma força especial do exército, e que se converte num super-herói e mata para fazer justiça com as próprias mãos. Na versão cinematográfica, o ex-militar se transforma em um policial de uma divisão especial, o DAE (Divisão Armada Especial), que caça políticos e que tem a filha morta por uma bala perdida. Dentre os vilões, a classe política é alvo preferencial. No filme, a elite política da fictícia Santa Cruz é composta por figuras caricaturais que lembram ora políticos de esquerda, ora de centro, de nossa história recente, todos mancomunados para surrupiar o país, como a ministra Marta Regina (Marília Gabriela), a candidata à presidência Julia Machado (Helena Ranaldi), seu opositor Antero Gomes (Carlos Betão), além do governador Sandro Corrêa (Eduardo Moscovis). Dentre os políticos, não se salva ninguém.


O cangaceiro (1953), filme do diretor Lima Barreto, representou os jagunços quase ao estilo dos cowboys. Foto: Reprodução

A direção do longa-metragem é de Gustavo Bonafé e Fabio Mendonça. Miguel, o personagem de O doutrinador, defende a violência como solução para acabar com a criminalidade endêmica de um país “sem guerras”. Assassino frio, ele liquida pastores, políticos e faz seguidores entre a juventude, que passa a circular com a camiseta “Matem Todos”, estampada com a máscara do personagem, substituindo as tradicionais máscaras usadas pelo justiceiro do filme V de vingança (2005). Este, uma distopia anarquista criada pelos cartunistas britânicos Alan Moore e David Lloyd, dirigido por James McTeigue, baseado na história do ativista Guy Fawkes, e que se converteu em ícone de movimentos antiautoritários.

A HQ O doutrinador foi lançada em revista durante as manifestações de junho de 2013, surgindo no momento em que diversos segmentos da sociedade brasileira reivindicavam a volta do Exército ao poder, num movimento que culminou com o impeachment da então presidenta Dilma Roussef. Dessa forma, o que parecia corresponder a uma ânsia de justiça, revelou-se uma reação violenta e contraditória a conquistas de setores menos privilegiados e a mudanças profundas no comportamento moral e sexual que ocorrem em meio a denúncias de corrupção e fake news.

O filão thriller político de ação sobre corrupção e Lava Jato ganhou expressão nacional e internacional com o sucesso das duas sequências de Tropa de elite, e com outros títulos, como a franquia Polícia Federal, a lei é para todos (2017), que alcançou mais de um milhão de telespectadores com abordagem semelhante sobre corrupção política. A série brasileira da Neflix O mecanismo (2018-2019), de José Padilha, com duas temporadas, também se encaixa nesse perfil.

As narrativas criminais brasileiras e latino-americanas giram frequentemente em torno do crime organizado, ou de aventureiros de moral ambígua. A linha entre o bem e o mal, entre mocinhos e bandidos, é tênue. Apesar de a estrutura narrativa da nossa ficção audiovisual reverberar o modelo hollywoodiano, a ficção seriada criminal e as obras cinematográficas incorporam outras tradições culturais locais e regionais, mesclando thriller de ação, suspense e policial ao melodrama.

No ensaio Bandidos (2015), Eric Hobsbawm conta que o seu interesse pelo tema surgiu da observação de que, na Europa, eram numerosas as histórias dessas personalidades frequentemente associadas ao mesmo tipo de mito, e sempre apresentando o marginal como um portador de justiça e redistribuidor de renda, o que raramente coincidia com a verdade.

Na primeira versão, publicada em 1959, o historiador criou o conceito de bandido social a partir de mitos como o italiano Salvatore Giuliano, um dos mais famosos bandidos sicilianos. Era separatista e aliado do MIS, o Movimento de Independência Siciliano, posto que os três partidos organizados do período, o Democrata Cristão, o Socialista e o Comunista, opunham-se a esse movimento, o que lhe conferiu uma aura de revolucionário. Sua vida foi retratada no filme Salvatore Giuliano (1961), de Francesco Rosi. Nele se inspirou ainda Mario Puzo para escrever O siciliano (1984), que se transformou em filme dirigido por Michael Cimino, em 1987, trazendo Christopher Lambert como Giuliano. O compositor italiano Lorenzo Ferrero dedicou-lhe uma ópera, em 1986.

A mais recente edição do ensaio de Hobsbawm reforça a existência desses mitos na América Latina, sobretudo nas figuras de Lampião e Pancho Villa: “(…) o banditismo social constitui um fenômeno universal, encontrado em todas as sociedades baseadas na agricultura (inclusive nas economias pastoris) e compostas principalmente de camponeses e trabalhadores sem-terra, governados, oprimidos e explorados por alguém: por senhores, cidades, governos, advogados ou até mesmo bancos”.

Os bandidos sociais poderiam encarnar três figuras arquetípicas: o ladrão nobre, o combatente ou guerrilheiro e o justiceiro. Na Europa, a Itália foi o reduto clássico dos banditi, por ocasião da grande rebelião camponesa e guerrilha dos bandoleiros (1861-1865). No Brasil, entre o século XIX e XX, vamos encontrar, no Nordeste brasileiro, tanto os beatos, como Padre Cícero e lideranças religiosas messiânicas como Antônio Conselheiro, quanto os cangaceiros (Hobsbawm, 2015), dos quais o mais famoso foi Lampião. No México, a figura de Pancho Villa surge associada à vingança da morte da irmã.

QUESTÕES DE CLASSE
A canção Banditismo por uma questão de classe, do grupo pernambucano Nação Zumbi, expressa exatamente esse sentimento de desencanto que leva o marginal a ser considerado como herói, como vítima da desigualdade social. Ela faz parte da trilha de um filme referencial do cinema brasileiro que ressurge das cinzas após o período Collor, sob o movimento da Retomada, Baile perfumado (1997), releitura do mito de Lampião a partir das únicas imagens de seu bando feitas pelo fotógrafo e documentarista Benjamin Abrahão, libanês radicado no Brasil, que foi secretário do Padre Cícero. A trilha do filme foi feita pelo grupo Nação Zumbi, que surge no início da década de 1990 dentro do movimento musical do Manguebeat, a partir da mescla de influências locais e populares com o hip hop. Diz a letra da canção: “Acontece hoje e acontecia no sertão/ Quando um bando de macaco perseguia Lampião/ E o que ele falava outros hoje ainda falam/ Eu carrego comigo: coragem, dinheiro e bala/ Em cada morro uma história diferente/ Que a polícia mata gente inocente”.

Pernambuco é o estado onde nasceu Lampião, o cangaceiro mais famoso do Brasil, venerado como santo, herói, por boa parte da população ainda hoje. “Seja marginal, seja herói”, pontuou o artista plástico brasileiro Hélio Oiticica em uma de suas mais famosas instalações, grande referência da contracultura dos anos 1960 e 70, do Tropicalismo.

A corrupção política, a segregação contínua e as diferenças sociais são componentes recorrentes nessas produções e na própria literatura, constituindo-se justificativas para ações delitivas como a única forma de inserção social possível.

O ciclo de Cinema Marginal brasileiro, que se deu em paralelo ao movimento tropicalista, tinha o manifesto dos Fora da Lei como texto fundador. O ciclo surgia no Brasil como contrapartida ao Cinema Novo e, de certa forma, aos Nuevos Cines, comprometidos ideologicamente com a transformação da sociedade pela redemocratização, mas que eram vistos como burocratizados e atrelados ao Estado no Brasil. Por esse motivo, eles trocam a palavra subversão por transgressão. Alguns dos principais filmes espelham esse momento e se nutrem de narrativas criminais e manchetes policiais: Matou a família e foi ao cinema (1969), O bandido da luz vermelha (1968), O anjo nasceu (1969). Um de seus expoentes, o cineasta Rogério Sganzerla, entretanto, afirmava que O bandido da luz vermelha, baseado em história real, era um faroeste sobre o Terceiro Mundo, que mesclava policial, drama, um autêntico filme de guerrilha.


O matador (2017), de Marcelo Galvão, distribuído pela Netflix.
Foto: Divulgação


Para Glauber Rocha, o western era o grande épico hollywoodiano (Pereira, 2005), visão que corresponde à da maioria dos intelectuais brasileiros. Durante o período silencioso do Ciclo do Recife, os filmes ambientados no Nordeste se estruturavam a partir da narrativa hollywoodiana. O filme Jurando vingar (1925), de Gentil Roiz, por exemplo, mostra caubóis nas matas pernambucanas. A ideia do faroeste como um trajeto épico de redenção, a busca de um futuro de glória movida a ideais patrióticos é bastante presente, e seduziu desde Glauber Rocha ao ator, diretor e produtor Wagner Moura, que declarou ser o filme Serra Pelada (2013), do qual participou, um “faroeste amazônico”.

O justiceiro é, sem dúvida, um desdobramento perigoso e bastante associado à ideia de bandido social. Nesse mesmo patamar, podemos colocar cangaceiros, bandoleiros e outros mitos modernos, como certos tipos de gângsteres e traficantes de drogas. Hobsbawm não via nos gângsteres o mesmo perfil dos bandidos sociais, pois acreditava que os primeiros criavam um mundo paralelo e as próprias leis, erigidas como contraponto à sociedade dita normal. No entanto, os traficantes latino-americanos, ou melhor, a face visível do tráfico se institui a partir da comunidade. E, embora revertam códigos de conduta, apropriando-se deles para criar sua própria ordem, demonstram respeito por tradições e cultura locais. São essas as principais características de personagens da vida real, como Pablo Escobar, e ficcionais, como Rosario Tijeras, a sicária do best-seller homônimo que se transformou em filme (2005) e série (2010), ou mesmo o Zé Pequeno de Cidade de Deus (2002).

No Brasil, o ciclo de filmes do cangaço, baseados em personagens reais, como Lampião, e as minisséries sobre os mitos, vai cumprir esse papel de ficcionalizar a realidade. A primeira produção cinematográfica da Netflix no Brasil, o filme O matador (2017), de Marcelo Galvão, estrelado por um ator português, Diego Morgado, pegou carona nessa tradição cultural e aborda o universo do cangaço e dos jagunços, trabalhando com os cânones do gênero no cinema, porém, mesclado ao universo do western – no Brasil, alguns nomearam esses filmes como nordestern (Caetano, 2005). Ao reinventar o matador, que surge quase como um justiceiro e excluído, e colocar os cangaceiros no mesmo nível dos jagunços, matando por dinheiro, Galvão retoma esse repertório que ajudou a construir o gênero.

A imagem idealizada de caubóis que cavalgavam cavalos, uma constante dos filmes sobre o tema, e particularmente de O cangaceiro, de Lima Barreto, não condizia com a realidade (Freire, 2005). O uso do cavalo não era comum entre os cangaceiros, que se deslocavam a pé para evitar o confronto com as volantes, sendo este um dos maiores “desvios” da obra de Lima Barreto, preocupado em agradar as plateias internacionais. Uma forma de esconder a trilha deixada era andar em fila indiana, todos pisando na mesma pegada. O último ia de costas, apagando-a com um galho de árvore.

No filme de Galvão, Cabeleira, criado como bicho no sertão pelo matador Sete Orelhas (Dete Montenegro), vai assumir o lugar de seu protetor junto ao francês Etienne Chicot, ao qual se referem como o Gringo, passando a ser um matador de aluguel, para ganhar a vida, uma vez que mal sabe falar. No filme, seu código de honra não lhe permite matar mulheres e crianças, e suas limitações morais farão com que ele perca o posto para outro matador. Na vida real, é difícil acreditar que houvesse algum código moral que resistisse a um bom contrato.

Os cangaceiros conseguiram dominar o Sertão durante muito tempo, porque eram protegidos de coronéis que se utilizavam dos cangaceiros para proteger seus negócios, como matadores de aluguel. O tema da criação de um imaginário nordestino por conveniências políticas, abordado por Albuquerque JR (2001), e que se reflete em obras da literatura e audiovisuais, surge na obra de Galvão como um modelo aparentemente motivado por questões de mercado. Mas, como ocorre na maioria das ficções audiovisuais sobre o cangaço, quase sempre reverberam políticas conservadoras no que diz respeito à posse da terra.

A POLÍCIA E O PODER
A atualização do arquétipo justiceiro no Brasil mais recente, entretanto, tem outra faceta, e pode-se dizer que as duas sequências de Tropa de elite refletem esse momento. Diferentemente dos filmes de cangaço que se colocavam no Sertão, surgem os filmes que discutem a corporação policial. Cresce no país o anseio por tornar-se uma autêntica democracia, com uma polícia que não seja decadente, e que não se confunda com a população em geral, muito menos com os bandidos.

A continuação da franquia Polícia Federal – A lei é para todos, que também narra a história da Operação Lava Jato, foi autorizada a captar R$ 13,7 milhões por meio da Lei do Audiovisual, segundo dados colhidos pela Filme B, amplamente divulgados pela mídia. Os detalhes do projeto foram publicados no site da Ancine (Agência Nacional do Cinema). A inscrição do novo longa-metragem nas leis de incentivo do governo, no entanto, desapontou aos fãs do primeiro filme, quando os produtores abriram mão do financiamento público, após receberem diversas críticas pelo conteúdo bastante apelativo e voltado para o endeusamento das estruturas de investigação oficiais. Na época, o diretor do filme, Marcelo Antunez, disse ser favorável às leis de incentivo, mas alegou que não queria ter de enfrentar “conflito de interesses”. Do próximo filme da franquia, rodado no segundo semestre de 2019, devem constar o impeachment da então presidenta Dilma Rousseff, a prisão do ex-presidente Lula, as investigações e prisões do ex-presidente da Câmara dos Deputados, Eduardo Cunha, e do ex-governador do Rio de Janeiro, Sérgio Cabral. A morte do Ministro do Supremo Teori Zavascki e a gravação da conversa entre Joesley Batista e Michel Temer também estão incluídas, bem como as acusações contra o senador Aécio Neves. Pelas declarações feitas à imprensa, contudo, a Vaza Jato não vai ser incluída.

É muito raro que uma série policial brasileira dê destaque para o desempenho feminino. O mecanismo é um desses casos. A delegada Verena Cardoni, interpretada por Carolina Abas, inspirada pela policial Erika Marena, que teria criado a alcunha de Lava Jato, é uma personagem com densidade e nuances, que é capaz de ser rígida, cumprir seu papel profissional com eficiência e se apaixonar, preferencialmente, pelo homem errado, interpretado no caso por Claudio Amadeu (Lee Taylor). É ela quem brilha ao lado de Selton Mello, o Ruffo, que se torna uma referência para a amiga Verena. Os delegados da Polícia Federal e a própria ambientação da delegacia, as cenas de ação, mescladas à vida de cada um, são primorosas. E lembram os melhores momentos das duas sequências de Tropa de elite e Narcos (Netflix, 2015-2017), trabalhos anteriores de Padilha.

A cena de Ruffo, no INSS, perplexo e revoltado diante de uma aposentadoria que deixa a desejar ao final de uma longa carreira, traduz com propriedade não somente o seu drama pessoal, mas o cotidiano de milhares de brasileiros, e evidencia a falência de instituições que supostamente deveriam contribuir para amparar os seus combativos profissionais nesse momento. O doleiro composto por Enrique Diaz tampouco compromete, e sua habilidade de sedução para arrebatar políticos pouco empenhados em fazer algo mais do que desfrutar de uma situação de foro privilegiado, é adequada e concisa. Nada de espetacularização ou rigidez estereotipada. O bandido de colarinho branco, quem diria, é um bom pai.

Os problemas surgem quando a série decide mostrar os bastidores do poder. A representação de Lula e Dilma, realmente, é patética, capaz de deixar qualquer estudante de sociologia ruborizado. O aviso de que qualquer semelhança com os fatos é mera coincidência também soa estranho, uma vez que o roteiro foi baseado no livro O juiz Sergio Moro e os bastidores da operação que abalou o Brasil, do jornalista Vladimir Netto, lançado em 2016. Os personagens de Lula e Aécio Neves, na série José Higino e Lucio Leme, respectivamente, são caricaturais. A presidenta Janete tem nome e trejeitos de piriguete. Mas essas opções se prestam a um roteiro que vê governos e grandes empresários de forma totalmente sectária. O mesmo não ocorre com os policiais.

Já o filme Polícia Federal – A lei é para todos é mais maniqueísta. Ao representar a mesma Lava Jato e seus personagens tremendamente estereotipados não deixa muita margem de dúvida para a audiência identificar na tela grande quem é quem no filme – dificilmente alguém deixaria de reconhecer no ator Marcelo Serrado o juiz Sérgio Moro. Até mesmo a personagem Bia, interpretada pela atriz Flávia Alessandra, também inspirada em Erika Marena, parece colocada ali para “amenizar” o que seria um thriller político de ação, o que acaba empobrecendo a importância de sua atuação e o seu papel dentro da trama.

O mesmo ocorre com a hacker adolescente Nina (Tainá Medina), de O doutrinador, que esteticamente nos remete à irreverente cyberpunk Lisbeth Sallander, da trilogia Millenium. Nina, vendedora numa loja de HQs, no entanto, é totalmente submissa e deslumbrada com a atuação de seu mentor e, a princípio relutante em se unir a ele, logo se converte em cúmplice de seus atos terroristas. As únicas vozes dissonantes nessa paranoia fascista são as de Isabela (Natália Lage), a mulher de Miguel, e a do policial Edu (Miguel Assis), parceiro de Miguel, personagens cujos discursos são totalmente fragilizados pelo caráter golpista dos inúmeros cooptados pelo esquema criminoso de propinas, o que inclui o Tenente Siqueira (Tuca Andrada) e o policial Diogo (Nicolas Trevijano).

O final de Tropa de elite deixava entrever esse problema, mas ali Brasília e o poder público funcionavam ainda como a criança-diabo de O bebê de Rosemary (1968). Tudo que é sugerido, imaginado, é mais instigante. As séries e filmes brasileiros possuem escassa tradição de representar o poder de forma convincente. Generais, presidentes, são quase sempre sombras fugidias. Na hora de discutir o governo e a política, a história é sempre a partir do ponto de vista do oprimido, do vencido, que está alijado do poder, que nunca se coloca no lugar desse outro, como fez o próprio Glauber Rocha, em Cabeças cortadas (1970). O thriller Getúlio (2014), dirigido por João Jardim, é um dos raros exemplos em que um homem de poder é o protagonista.


O mecanismo, série dirigida por José Padilha para a Netflix, abordou os bastidores da Operação Lava Jato. Foto: Divulgação

As formas de financiamento indiretas, entretanto, e a internacionalização crescente do mercado de audiovisual local, seja por meio de coproduções, seja por meio da TV paga ou de plataformas de streaming, como a Netflix, favorecem o surgimento de thrillers políticos, dramas sobre corrupção, poder e democracia com mais liberdade para críticas. Infelizmente, o resultado, no caso de O mecanismo, ainda deixa muito a desejar.

E a infeliz campanha da Netflix, com “lojinhas” de penduricalhos anticorrupção instaladas em aeroportos foram tão eficientes quanto as instalações Hipno Experience da série transnacional El hipnotizador (2015-2017) da HBO no Shopping Cidade de São Paulo. O projeto despertou a atenção de todos, mas ninguém sabia ao certo a que se referia aquilo. Afinal, em um ano eleitoral repleto de patos de borracha e Pixulecos, qualquer movimento em prol da Lava Jato poderia ter feito o mesmo.

A Netflix, quando se trata de produzir séries e filmes regionais e, ao mesmo tempo, transnacionais, fatalmente esbarra em apropriações indébitas das realidades locais. O israelense Fauda, um thriller político, causou reações do público no Oriente Médio, assim como O mecanismo no Brasil. A série de Padilha, pela sua péssima repercussão entre setores da esquerda e da crítica de cinema brasileiros – Lula chegou a declarar que iria processá-los e houve mobilização para uma campanha pelo cancelamento de assinaturas –, é um dos exemplos. Desde o anúncio do veto de Cannes às produções da Netflix pelo festival, entretanto, vêm pipocando notícias diversas sobre as agruras da rede em desenvolver produtos interculturais sem ofender ninguém ou causar polêmicas.

Problema difícil de resolver. Não são os desvios ideológicos derivados da (má) ficcionalização da realidade que contam, nem os diálogos trocados. Afinal, ninguém se preocupou com o pastiche de Rio de Janeiro exibido pela trilogia de vampiros adolescentes de Crepúsculo – Amanhecer parte 1 (2011), ou com a histriônica guerra de gangues cariocas de Velozes e furiosos 5: Operação Rio (2011). Trata-se de sua insipiência ao retratar a elite política e empresarial, que é sua proposta, e do carácter reducionista de sua trama. Quanto mais a série tenta aprofundar a questão do processo de lavagem de dinheiro e da corrupção no Brasil, e explicar o tal do “mecanismo sistêmico”, pior fica, pois o conceito político que envolve sua criação é tremendamente superficial.

MODELOS HÍBRIDOS
O que falta para termos obras reflexivas e complexas como Z (1969), de Costa Gavras, O caso Mattei (1972), de Francesco Rosi, ou Investigação sobre um cidadão acima de qualquer suspeita (1970), de Elio Petri, apenas para citar alguns títulos?

Os seriados brasileiros, e até os filmes mais simplistas, já conseguem retratar a favela sem parecer que é cidade cenográfica, certamente a maior contribuição de Cidade de Deus para a estética audiovisual brasileira. Os policiais deixaram de ser aqueles sujeitos que entram pelas portas dos fundos para limpar a sujeira dos ricos e dos quais a gente mal se lembra. Mérito que, na televisão nacional, começou em O rebu, criação antológica de Bráulio Pedroso, e que no cinema nacional é mais claudicante, mas se faz sentir cada vez mais em produções como Operações especiais (2015), Alemão (2016), minissérie e filme, Federal (2010) e Polícia Federal – A lei é para todos (2015).

O modelo de financiamento dessas obras e o atrelamento das concessões de mídia à política, historicamente, pode justificar porque isso ocorreu em boa parte de nossa produção audiovisual. O que é preocupante é que essas produções estão contribuindo para a criação de heróis superpoderosos, de equipes especiais e anticorrupção, e não para o avanço de uma consciência democrática. Naturalmente, existem outras formas de abordar o discurso do poder, mas dificilmente elas devem surgir com a perspectiva que se coloca diante de nós, com a desestruturação dos poucos instrumentos de democratização de acesso aos recursos de produção.

O filósofo Fredric Jameson acreditava que as narrativas criminais correspondiam a uma segunda fase da pós-modernidade, que se caracterizou, numa primeira etapa, como disrupção da narrativa tradicional linear, para se organizar em torno da transgressão, da ocorrência do crime, como um falso plot. Com esse movimento, as narrativas criminais delineiam um painel da vida contemporânea nas cidades urbanizadas pela industrialização capitalista e expõem seus conflitos e mazelas, hipótese que ele desenvolve em seu livro Raymond Chandler: the detections of totality, de 2016.

Algumas das atuais produções brasileiras criminais estão forjando um modelo híbrido de thriller político e de ação que reproduz os roteiros esquemáticos da ficção seriada estadunidense, centrados numa verdade, que nunca é discutida, em heróis voltados para suas carreiras em nome de ideais da pátria e do mundo, para salvar a família e a humanidade, num vale-tudo que não descarta a utilização da violência, até mesmo da corrupção que condenam.

Nem todas as séries do gênero criminal são puramente centradas numa mensagem política reacionária, caso de Rotas do ódio (2018-2019), A divisão (2018), e Pacto de sangue (2018), por exemplo. Mas certamente essas produções concorrem para um total descrédito das instituições, diante de um contexto tão conflitante, em que crimes como a morte de Marielle Franco permanecem insolúveis, e a moral conservadora parece ser evocada tão-somente por interesses pessoais e partidários.

Cena de Bacurau (2019), com o personagem Lunga, interpretado por Silvero Pereira.
Foto: Victor Jucá/Cinemascópio/Divulgação

A grande vertente de filmes nacionais criminais não é a narrativa policial, mas aquela que aborda a organização criminal, gênero classificado por Hollywood como gangster film, que popularizou o maior sucesso internacional de um filme brasileiro desta década, Cidade de Deus (2002). Nesse tipo de narrativa, a balança pende quase sempre para os bandidos ou heróis solitários, o cidadão comum que busca a verdade, que quer sair daquele mundo para uma vida melhor (papel que, no filme de Meirelles, coube ao adolescente Buscapé, interpretado por Alexandre Barbosa), ou, ainda, na recente série A irmandade (2020). A sociedade e a corporação policial, no entanto, não facilitam. É assim também em Carcereiros (2019), em que o agente penitenciário Adriano é interpretado pelo galã global Rodrigo Lombardi. O filme é inspirado no livro de mesmo título escrito por Drauzio Varella, e a adaptação segue o sucesso da série homônima, produzida pela Globo, em 2016.

Na contramão dessa tendência, surgem obras reflexivas sobre a questão da democracia no Brasil, a maioria no gênero documentário, com destaque para O processo (Brasil/Alemanha, 2018), de Maria Augusta Ramos, e Democracia em vertigem, de Petra Costa (Brasil, 2019), ambos coincidentemente dirigidos por mulheres e com investimento de capital estrangeiro. Segundo afirmou Costa, no lançamento do documentário, ela optou por trabalhar com a Netflix e investidores estrangeiros para evitar interferências. As últimas declarações do governo sobre Ancine, editais e o futuro do cinema nacional não permitem vislumbrar uma perspectiva muito otimista desse cenário, como pontuou a produtora de Bacurau (Brasil, França, 2019), Emily Lesclaux, diante de questionamentos de críticos e jornalistas presentes à coletiva de lançamento do filme em São Paulo.

Não haverá mais filmes patrocinados pela Petrobras, histórica apoiadora do cinema nacional, e nem aval para produções que abordem temas considerados “inapropriados”, o que inclui temática LGBT – o presidente vetou edital com essa temática no dia 21 de agosto de 2019 – e, certamente, política.

A narrativa distópica e premonitória de Kleber Mendonça e Juliano Dornelles, em Bacurau, mostra um Brasil à mercê de um Estado totalitário e corrupto, e usa elementos de thrillers de ação hollywoodianos para mostrar, em um espelho reverso, o poder da resistência cultural, que se faz, inclusive, pelo uso da violência. No entanto, enquanto a obra da dupla pernambucana alude à importância do coletivo e das pessoas comuns, a maioria das narrativas criminais brasileiras contemporâneas parece mais interessada em investir no justiçamento solitário baseado em super-heróis de caráter e sanidade duvidosos.

LUIZA LUSVARGHI, jornalista e pesquisadora de cinema e audiovisual. Autora de O crime como gênero na ficção audiovisual da América Latina (2018) e coorganizadora de Mulheres atrás das câmeras – Cronologia das cineastas brasileiras de 1930 a 2018.

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