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Depoimento

Buen camino!

Uma narrativa sobre 12 dias de viagem, percorrendo 280 km, entre Porto e Santiago de Compostela, uma das rotas possíveis do Caminho de Santiago, em dias mais luminosos que estes de pandemia

TEXTO MARIA ALICE AMORIM*

01 de Junho de 2020

A concha do peregrino é símbolo milenar e universal do Caminho de Santiago

A concha do peregrino é símbolo milenar e universal do Caminho de Santiago

Foto Gilberto Vieira/Divulgação

[conteúdo na íntegra | ed. 234 | junho de 2020]

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Jesús é de Sevilha. Quase desliza sobre as pedras da centenária escadaria. Se move em todas as direções, quer ajudar, sugerir, informar. Penso: ali está a Sé Catedral; ao lado, as credenciais, desenhos e caligrafias imaginados em traços de ouro. E, na fantasia de papel, sabemos, valem muito mais que o mais precioso dos metais. Ele vai falando de supetão, sem que precisemos antecipar nada. Pergunta se queremos algo. “Não, Jesús, gracias. Que bacana revê-lo, aqui estivemos há duas semanas. Era domingo, igreja com as portas quase fechadas, lembra?”

Passava das seis da noite. Somente restavam seis vagas e talvez conseguíssemos ao menos as três, correndo no triciclo motorizado. O tuc-tuc desceu saltitante a breve ladeira, imagem plena do que buscava, às pressas, aquela tríade. Não é que ficasse distante o endereço recomendado, o cenário medieval até pedia os nossos pés sobre ele, a caminhada serviria de reconhecimento para a aventura do dia seguinte. A Ponte da Arrábida ao fundo, o lusco-fusco nos incendiava. Afinal, ali estava, em pedra e tijolo, luz e cores, o princípio de tudo: o roteiro debulhado por meses em livros e écran.

O albergue, casa de pedras fincada na parte mais baixa do terreno, seria nosso primeiro pouso noturno. No quarto, ocupado, uma das quatro camas delimitava território. Numa cadeira, a identificação: Anne-Marie. Cidade: Rennes. Voilà, provavelmente uma francesa. Sim, francesa, que chega – salut! – e nos cede o quarto para a exclusividade do trio. Muda-se para o quarto vizinho, onde, instalada uma sul-africana, Elizabeth, entabulamos conversa animada, alternando o inglês e o francês.

Fins de verão, mal amanhece a segunda-feira, corremos para o banho e as providências da partida. Bonjour, nos saúda Anne, bebendo o café recém-preparado com água aquecida pela serpentina que carregava na mochila, mais o pó da bebida para acordar o dia e uns bombons, para quando a glicose desse os sinais de baixa. Me pede: “Diga aos seus amigos quantos anos tenho”. Repito, quase sem acreditar, 79 anos. O ar jovial, o ritmo acelerado, o corpo magro e milhares de histórias de exercícios pedestres em solidão, para nos provocar a, pelo menos, tentar entender que o melhor caminho é o exercício de viver o aqui e o agora sem drama.

Descendo a ribeira do rio poderíamos chegar à foz, ao oceano. O papo com a nova amiga, de tão animado, não me deixa perceber a travessia do Douro em sentido contrário. O norte era o nosso destino. Atravessamos a ponte de volta, não sem antes vestir a mochila com uma capa de cetim vermelho, sob olhares de madrugadores passantes, os passageiros do metrô. Gaia que nos perdoe, a nossa alegria agora pede outras direções.

Reposicionados, o mergulho nas setas amarelas vai deixando atrás uma das mais lindas e queridas cidades: o Porto.


Banho de mar em La Guardia incluiu o pôr do sol sobre o centro histórico.
Foto: Gilberto Vieira/Divulgação

A Santiago não se chega, se vai, repetem os peregrinos há séculos. Vamos então. No percurso até Matozinhos, a vida debulhada em detalhes vibrantes, muito mais que apenas trágicos, me faz vislumbrar a densidade da personagem francesa e entender a sua incessante busca interior nas trilhas que segue percorrendo mundo afora. Então, passo a compreender perfeitamente o desejo de um escritor em publicar biografia da amiga andeja, o que a deixava visivelmente radiante nos papos entabulados nessas breves horas peripatéticas. Na Praia do Cabo do Mundo nos despedimos. O seu corpo jovial exigia ritmo muito mais desenvolto que o dos três amigos brasileiros, juntos.

O Caminho Português da Costa se inicia pela costa atlântica, serpenteia entre passarelas, delicadeza de sistema dunar, fauna e flora preservados, em área protegida conhecida por Parque Natural do Litoral Norte. Ó mar salgado, se o teu sal estava pleno de tantas lágrimas de Portugal, naquele momento o que salpicava a brisa, em nosso rosto, eram as refrescantes gotas de verão, sabor à maresia, percorrendo desde as entranhas e fazendo o coração palpitar de alegria com a fruição do ambiente natural e seus entornos.

Marcas de civilizações falam de antigos frequentadores, como os tanques romanos de salga de peixe e preparação do condimento garum, cavados nos penedos da Praia de Angeiras. Ou, em Perafita, o Obelisco da Praia da Memória, monumento nacional em homenagem ao desembarque da esquadra de 7.500 homens, comandada por D. Pedro IV com o intuito de instaurar um regime liberal no país. Ou, ainda, as três gravuras da área de S. Paio, em Labruge, indicativas de acampamento viking na região, desenhadas talvez na Idade do Ferro ou já na Idade Média. Uma delas, o algiz, runa ou elemento do alfabeto e da simbologia nórdicos, significa evocação de proteção divina.

***

“Para viajar, basta existir.” Era o que defendia, indiretamente, o papo sedutor de Anne-Marie, e alguns dias adiante se explicitaria em versos do poeta Fernando Pessoa, num cartão de letras aquareladas e exposto em vitrine de loja na Vila Praia de Âncora, próxima de uma livraria alfarrabista. Banco de Livros: usados, antigos e raros. Assim era o nome do sebo onde poderia ter comprado alguns folhetos de literatura de cordel, se a proprietária não tivesse tirado uns dias de folga, conforme nos disse por telefone. Uma pena, no nosso plano de viagem só cabia uma noite em cada pouso.


A bandeira vermelha abriu diálogos pelo caminho. Teve quem
perguntasse se a imagem era de Che Guevara
.
Foto: Stela Maris/Divulgação

Mas, não importa, pensei. Embora essa fosse uma bagagem altamente leve e pouco volumosa, o despojamento que pedia o caminho nos trazia lições. O resumido volume físico do que carregamos vai sendo compensado, de maneira profunda, pelas raízes e ramagens que se expandem de modo exponencial. A praia, por exemplo, com areal extenso e águas de temperatura em torno de 14°C, antes mesmo de receber a energia do banho congelante, nos regalou com a energética companhia de três argentinos deliciosamente simpáticos e politizados. Fizeram questão de nos cumprimentar, assim que enxergaram nossa bandeira vermelha. Lula livre, sim, e viva a democracia. Nos esbaldamos em conversações, não poderíamos deixar de trocar palavras de solidariedade pelas nossas mazelas político-econômicas e sociais.

O primeiro banho de mar pelo caminho não foi esse. Mal inauguramos o roteiro, colocamos em prática o desejo de nada planejar a não ser que seguiríamos o percurso conforme nos pedissem o corpo e as intuições, e nada de antecipar destinos reservando o local de dormida. Assim, a segunda dessas 13 noites errantes decidimos passar num vilarejo de pescadores, Vila Chã, em simpática pousada familiar onde almoçamos. Comemos, conversamos, conhecemos os quartos. O ambiente, impregnado de objetos e memórias familiares, nos deixava a sensação de extensão de nossa própria casa. Os donos, ela espanhola, ele português, tinham um filho morando em João Pessoa, Paraíba. Mais um mote, mais conversa. Instalados, fomos correndo relaxar na areia da praia e ver o sol se pôr no mar, depois, claro, de mergulhinho delicioso nas águas de 12°C.

O tornozelo direito remoía dorzinha intermitente. Natural, pensava. Depois de uma noite macia, a retomada dos passadiços de madeira nos levava à Vila do Conde, às paisagens medievais nas margens do Rio Ave, que certamente tanto inspiraram José Régio, consagrado escritor e artista da cidade onde nasceu e morreu. Tomamos o café da manhã com mais três amigas brasileiras, uma mineira, duas baianas. Chamava a atenção o casal de indianos na mesa ao lado. Aproveitando a proximidade, trocamos umas palavras. Intimamente me perguntava que atrativos espirituais trariam prováveis hinduístas e budistas a um roteiro originalmente cristão e, agora, me parece, mais turístico que religioso.

Daí foi um pulo para pensar que tipo de crescimento interior se busca e/ou se consegue em experiências dessa natureza. Quase ao final da caminhada do dia, peregrinos canadenses me perguntam para que decidi seguir roteiro pretensamente sagrado empunhando uma bandeira vermelha. É uma promessa? Um pedido a Santiago? Assim entabulamos um papo sobre democracia e questões sociais. Interessante como o simples gesto de empunhar a bandeira do Lula Livre rapidamente abria comunicação direta e franca com o mundo, até mesmo a comunicação oblíqua dos que não ousavam falar abertamente e lançavam ao vento comentários depreciativos, talvez supondo a não apreensão do idioma.


Encontramos esses cavaleiros peregrinos várias vezes no Caminho, que confere certificado se feito a pé, a cavalo ou de bicicleta. Foto: Stela Maris/Divulgação

Nesse meio tempo, uma surpresa vestida de simplicidade e delicadeza. Alina, búlgara de Sófia, habitante de Londres e simpatizante do Brasil, país que ainda não havia conhecido, embora não deixasse de compreender o que se passava conosco. Curioso que, de maneira despretensiosa, o fato de empunhar uma bandeira acoplada ao bastão de peregrino pudesse agregar tantos olhares sobre o Brasil e, mais que isso, estabelecer diálogos com o mundo a partir de questões emblemáticas de cidadania, relações internacionais, capitalismo, socialismo, carisma.

E como se não fosse pouco empunhar o estandarte – bastão e emblema –, me protegia do sol no rosto um boné vermelho, azul e branco, cores e nome de Cuba. “Eres cubana?”, me perguntavam, inclusive um simpático senhor, cavaleiro andaluz que seguia o trajeto em companhia de mais dois amigos, montados em lindos cavalos, e que, se no princípio do papo, pensava que sim, eu era cubana, depois reconheceu o sotaque de estrangeira. Rimos e o papo continuou fluindo. Nos vimos ainda pelo menos duas ou três vezes, e a cada reencontro, cumprimentos e euforia.

Em Póvoa de Varzim, minha companheira de viagem, Stela, e eu paramos numa rua central para descansar um pouco, enquanto aplicava um relaxante muscular na minha estropiada perna direita. Imediatamente se aproxima uma jovem senhora, entusiasta da democracia e do Lula Livre, querendo ser fotografada com as brasileiras e sua bandeira. Pede permissão e posta a imagem nas redes sociais. Na beira-mar, outra pausa para repousar a perna. Um funcionário da limpeza urbana nos cumprimenta em inglês, pergunta se precisamos de ajuda. Agradecemos. Podemos falar em português mesmo, somos brasileiras, acrescentamos. Comento sobre o meu desejo de conhecer a localidade chamada Amorim. Prontamente se oferece a guiar-nos em visita. Agora mesmo, se quiserem, diz. Ingênua generosidade? Fica pra próxima a pesquisa sobre possível procedência de antepassados paternos.

Alguns dias à frente, numa praça de Caminha, Portugal, somos xingadas por dois inconformados com nosso posicionamento político. A compensação vem a galope: duas peregrinas alemãs vibram ao nos ver circulando com a bandeira em punho. Ainda que assim não fosse, não nos deixaria morgar delicioso bacalhau, o prato do dia naquela sexta-feira 13, lua cheia, no restaurante Cova da Onça, graças aos amiguinhos João e António, caçadores, e Ernesto, pedreiro, freguês da casa, que, pelos olhos embaçados, já andavam levantando uns copos bem antes do meio-dia, quando nos viram na calçada de um café querendo cardápio bacana para almoçar.

O fato é que, desbravando rotas de Caminha, nos despedimos em grande estilo de Portugal, ou seja, principalmente pelos prazeres dos roteiros a pé, dos papos, boa comida e vinhos. Íamos agora ao encontro do amigo Gilberto, nos esperava no cais do ferryboat para travessia rumo à Espanha. Que surpresa massa rever Alina. Ficamos por ali e, enquanto isso, um alentejano falante, João, festeja a nossa brasilidade. É de Cuba do Alentejo e se alegra também pelo boné que levo na cabeça. Sabendo que pra bom conversador nunca é difícil catar assunto, o tema das coincidências cubanas rendeu animada rodada de memórias de infância e vida alentejana do cubano português.

Pelo estuário do Rio Minho aportamos na Galícia. La Guardia é lugar de pesca e de praias.

***

Conseguimos vaga num hotel antiguinho, com ares art déco, e muito perto do mar. Quero mais banhos e, logo que vemos a Praia de Area Grande, os mais velhos do lugar, espalhados em aconchegantes sombras, perguntam se vai haver manifestação, se o rosto na bandeira é o do Che Guevara. Há versos de Rosalía de Castro reproduzidos em vidraças de restaurante da ribeira: “Canta xente..., canta xente/ por campiñas e por veigas!/ Canta polo mar abaixo/ vén camiño da ribeira!”. Descemos as pedras do calçadão até a areia fina. O mar gelado pede rituais. Pouco a pouco, faço o que famílias inteiras não ousam. Duas ou três crianças mergulham um pouco e quase imediatamente saltam fora. Na hora mais linda do pôr do sol, peregrinos franceses nos circundam e falamos sobre política. Somente uma pilgrim belga, que andava por perto, questiona a atitude, para ela impossível, de agregar ao Caminho de Santiago a defesa de bandeiras políticas. Para o jantar, escolhemos apenas pelo nome o que parece ser um dos mais típicos restaurantes da localidade: Chupa-Ovos. A garçonete sugere a comida e os vinhos, perguntamos seu nome. Jesús, mas podem me chamar de Xús, acrescenta, alegremente. Conhece o Brasil, adora, e tem família em Goiás. Pede para guardar a bandeira, enquanto nos esbaldamos com vinhos e comidas de tradição galega.


Santa Trega é o mais emblemático dos castros romanos da Galícia.
Foto: Stela Maris/Divulgação

Dia seguinte, antes de nos despedir de La Guardia, corremos em busca de transporte que nos leve ao Monte de Santa Trega, altitude de pouco mais de 300 metros e uma infinidade de vestígios da ocupação romana anterior à Era Cristã. É o mais emblemático e visitado dos castros galegos, um patrimônio classificado pelo governo espanhol como Bem de Interesse Cultural. Encantadora, deslumbrante paisagem, que nos faz retomar a caminhada ainda mais revigoradas. Gilberto havia saído sozinho. Quando paramos, Stela e eu, para o almoço do sábado, nova surpresa. Aí estavam Alina e Gilberto, também reunidos pelos acasos do caminho, e nos deliciamos com um peixe da região, meiga, que, em galego, é também bruxinha boa. Caminhada pós-almoço. As Mariñas, em Mougás, Oia, é perfeito para a contemplação. Pôr do sol, lua cheia, os quatro no mesmo alojamento, a tudo isso chamamos sincronicidade.

Começa muito cedo o roteiro seguinte em direção a Vigo. Enquanto atravessávamos bosques e rochedos, uma macieira carregada de frutos nos seduz. Quando íamos tentando colher uma simples maçãzinha, eis que surge uma peregrina na curva do caminho. “Olá, buenos días, que tal?” nos cumprimentamos. E seguimos as três por um trecho do caminho. É espanhola, da Galícia, e se chama Eva. A que nos livrou da tentação de comer fruto proibido. O cenário marinho, de enormes rochas e vista para as Ilhas Cíes, tem aura de mistério e alumbramento. Ao descer a trilha, e de volta ao nível do oceano, vista de mais perto, Rocamar é fascinante. Impossível não parar, por pouco que seja, para exercícios de despojamento e contemplação.


Baiona foi o primeiro porto da Europa a receber a notícia do descobrimento da América. Quando por lá passamos, havia exposição fotográfica no centro histórico.
Foto: Stela Maris/Divulgação

O mar de Baiona também nos seduz, não menos que o traçado medieval de suas vielas e ladeiras. Um varal de fotografias ao ar livre exibe pessoas, paisagens, trajes típicos, festas e danças tradicionais da região. Um monumento homenageia a caravela Nina, que aí atracou em 1493, com a notícia do descobrimento da América, por Cristóvão Colombo. Uma placa enorme sinaliza as relações de irmandade estabelecidas com cidades estrangeiras, entre elas Rafael Freyre, na Província de Holguín, Cuba. Depois de zanzar pela Real Vila de Baiona, um banho de mar na praia de Santa Marta é presente de deusas e renovação dos ares rumo a Ramalhosa e Nigrán.

Atravessamos uma ponte romana. Caminhamos pelas pedras de antigos povoados e, num recanto onde passávamos, o cesto de oferendas de frutos e pães aos peregrinos estava vazio. Pena, a fome se instalava sorrateiramente e ainda faltava correr longo trecho até Nigrán.

Com o sol a pino, percorremos enorme passarela sobre via expressa. Distanciando-nos da costa e, depois de muito caminhar, aparece a salvação e se chama Noela. Assim mesmo, o feminino de Noé, conforme nos explica, e, sorte nossa, para salvar nosso barco, quase à deriva. Convida-nos para um suco, quando estávamos já nas proximidades da praia, e conversamos e conversamos.

Fala dos sete banhos de mar, em dias seguidos, para limpeza energética. Imediatamente contei os meus banhos, não tinham sido em dias seguidos, mas estavam quase chegando a sete. Conta Noela que, nos festivais de verão em Baiona, adora participar das danças folclóricas, vestida a caráter. A seguir, nos acompanha até a Praia da América, nos despedimos com fotos e muito carinho. Corro para o mergulho da tarde, um banho de felicidade. Delicioso mar de águas peroladas. Saindo da praia, casualmente reencontramos Noela, agora regressando a casa e, nós, ao prumo.

Em Vigo, mal pousamos a mochila no albergue, seguimos para uma cantina de comida regional, ambiente alegre, descontraído, inclusive pelas conversas com a garçonete Lola, a estatura miúda inversamente proporcional à enorme presença de espírito e tiradas de humor. A cozinha galega nos fisgou para sempre, com o caldo galego, os pulpos à la feria, os pimientos de Padrón. No dia seguinte, segunda-feira, o café da manhã no boteco da esquina do albergue nos presenteia com a desenvoltura, os gestos coreografados e o ar sedutor de Manolo, corrente prateada no pescoço, camiseta de algodão sob camisa de tecido, jeans corte reto, botina preta de salto. Certamente boêmio contumaz que chegou por ali antes da gente e depois de virar a noite com aquele jeito de toureiro ou bailarino de flamenco. Mas, não, não é andaluz, é galego, nos diz. Rimos muito depois, lembrando da figura e debatendo sobre, afinal, quem ele desejava fisgar. Digo que era a Gilberto. Gilberto, a mim. Saímos, e o nosso elegante bailaor, deliciosamente almodovariano, permanece espalhado no balcão, de papo com a garçonete.


As rotas do Caminho de Santiago são sinalizadas com o desenho da concha amarela sobre fundo azul, como este junto à casa. Foto: Gilberto Vieira/Divulgação

A saída de Vigo foi uma longa caminhada, entre crianças e jovens em seu primeiro dia de aula de novo ano escolar. O café da manhã, em Cabanas, ganhou um banho de energia com a interlocução apaixonada entre nós, o trio da bandeira vermelha, e um grupo de peregrinos poloneses. No destino seguinte, Redondela, levamos a bandeira para o banho de mar na Praia de Cesantes. Um grupo de senhoras, sob a sombra de árvores enquanto esperava o transporte para o centro da cidade, nos pede explicações. Perguntam se se trata de protesto, ato político. A conversa flui, nos apoiam, oferecem solidariedade, tal qual os poloneses do início do dia. Fincamos a bandeira na areia, o banho é que termina rápido. Chuva, relâmpagos, raio, trovões nos devolvem ao albergue. Valei-nos, Iansã.

Entrando em Pontevedra, Guadalupe, ou Lupe, nos oferece sugestões imperdíveis de comida saborosa e bom vinho galego. Restaurante à maneira das tasquinhas portuguesas, ambiente acolhedor, despretensioso, pequeno, público fiel, cardápio irrepreensível. Mais uma vez, as meigas fritas se apresentam entre as melhores companhias. Flutuamos, de tão felizes. No momento do jantar, outra bela descoberta. Restaurante tradicional da cidade, vizinho à estação de trem, chama-se Gambrinus. Ambiente charmoso. Está decidido, é aí que vamos comer, até em homenagem ao Gambrinus recifense, point boêmio de saudosa memória. Na madrugada do dia seguinte, nos encanta percorrer o centro histórico. Cruzamos o Rio Lérez, por onde passava a Via XIX, caminho romano que ligava Bracara Augusta (Braga) a Luco Augusto (Lugo) e Astúrica Augusta (Astorga).

A hora da comida era sempre uma espécie de ápice das errâncias, contemplações, reflexões. Em Caldas de Reis, chegamos ao cume em dose dupla. Primeiro, na taberna O Muíño, restaurante de cozinha tradicional às margens do Rio Umia, onde celebramos nossas andanças na companhia de um português de Póvoa do Varzim e brasileiros de São Paulo, Rio de Janeiro, Amazonas. Grupo sintonizado politicamente, vez por outra nos encontrávamos no caminho, festejando as afinidades. Depois, um segundo momento nos pegou de surpresa.

Estávamos hospedados numa casa de família. Recebidos à tardinha, com deliciosa limonada, pela venezuelana Bárbara e pelo galego Jesús, lá estavam eles, quase meia-noite, esperando que voltássemos do jantar para um brinde, ao nosso encontro, com um vinho do Porto. Conversamos longamente sobre a situação política da Venezuela e do Brasil. O marido se declara um apaixonado pelo país da mulher. Ambos querem voltar à América Latina. Madrugadinha, após poucas horas de sono, Bárbara nos serve o café da manhã. Estava incluso no serviço, nos diz. Nos despedimos afetuosamente.


Sozinhos ou em grupos, os peregrinos enfrentam intempéries e cansaço, mas se desejam com alegria: "Buen camino!". Foto: Stela Maris/Divulgação

Em dois dias chegaríamos a Santiago. O clima muda, sentimos frio ao circular pelas ruas de Padrón, no final da véspera do grande dia. Relembramos: aqui morreu Rosalía de Castro, a poeta do “rexurdimiento” do idioma galego, a mesma que escreveu o livro En las orillas del Sar, o rio que margeia a cidade onde dormimos e que, finalmente, fica a um pulo de Santiago. De uma colina da Rocha Vella avistamos a Catedral. E não é uma miragem. No percurso do último dia acompanhamos atos de desagravo da população contra uma usina de tratamento de resíduos que, se chegar a funcionar, afetará, inclusive, trechos importantes do Caminho de Santiago.

Bravo. Bravo. Bravíssimo. Grita o nosso primeiro recepcionista na capital galícia. Tem cara de clochard, ou talvez seja um hippie tardio, ou adepto do jainismo. O certo é que o despojamento que a gente vinha tentando praticar nesses 280 km percorridos numa dúzia de dias se materializa, em carne e osso, à luz do dia, numa calçada de Santiago de Compostela. “Me conta, me conta, como foi a sua experiência de iluminação?” É a pergunta que escuto, poucos dias depois, de amigos ansiosos pela narrativa de viagem. Chegará algum dia a ser respondida?

MARIA ALICE AMORIM, jornalista, escritora, pesquisadora de cultura popular.

* Nota da edição: Este relato de viagem, escrito ao sabor de memória fresca por Maria Alice, em 2019, e editado por nós para este junho, nos oferece leveza e alegria que soam como lembrança de algo que nos escapou, nesse momento triste de pandemia, desgoverno e mortes no Brasil. Que sirva de bálsamo e esperança por melhores dias às nossas leitoras e leitores.

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