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Leia trecho do livro 'Memorial das grandes ausências', de Aluízio Falcão, que reúne perfis que destacam a trajetória de 14 personalidades, a ser lançado em 2021 pela Cepe Editora

TEXTO ALUÍZIO FALCÃO

01 de Fevereiro de 2021

ILUSTRAÇÃO JANIO SANTOS

[conteúdo na íntegra | ed. 242 | janeiro de 2021]

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MODIGLIANI
Um pobre pintor em Paris

Esta narrativa sobre a glória póstuma de personagens muitas vezes quase anônimos quando vivos não obedece a um fluxo convencional. Tem como lógica única o não reconhecimento, no tempo certo, de méritos somente descobertos a posteriori. No capítulo passado mergulhamos na prosa desassossegada de Bernardo Soares e tivemos o atrevimento de convertê-la em poesia. Agora, na desordem intencional do nosso calendário, recuemos para o início dos 1900 e nos desloquemos para outro país. Estamos na França e tratamos de outra vítima do descaso dos contemporâneos: o pintor italiano Amedeo Modigliani.

O leitor razoavelmente viajado, mesmo sem maior interesse por pintura, certamente já viu em algum museu do mundo, visitado às pressas, aqueles rostos misteriosos, pescoços, braços e corpos alongados nas telas de um pintor chamado por este nome, Modigliani. São telas que hoje valem milhões em qualquer moeda. Mas já valeram míseros francos franceses, quando vendidas por ele mesmo nas duas décadas iniciais do século XX. Serviram então para matar a fome do grande artista que era só mais um pintor sem dinheiro dos muitos que vagavam entre Montmartre e Montparnasse.

Os seus quadros fogem à regra de qualquer escola. Abrigam-se, quando muito, sob o amplo guarda-chuva do modernismo – este rio farto em afluentes, muitos deles abolindo completamente a figura como forma de expressão. Modigliani jamais desfigurou na direção do cubismo e outros ismos cíclicos. E acho, no meu achismo de leigo, que ele agiu muito bem. Para cometer esta ousadia não busco o endosso de nenhum crítico, e sim as palavras sensatas de um velho e bom cronista brasileiro, que de vez em quando escrevia sobre pintura.

Sim, foi Rubem Braga. Para ele a figura humana, “tão variável em si mesma e tão emocionante, será sempre motivo para a arte”. Acrescentou que até compreendia e respeitava os artistas cansados de praticar o figurativismo. Achava normal essa oscilação da pintura, “ora se agarrando à vida, ora se satisfazendo a si mesma nas formas geométricas”. E, fechando o assunto, considerava o cronista que a observação das múltiplas formas da natureza, em especial as humanas, seria, em todos os tempos, o meio essencial para o artista atrair o olhar dos outros e oferecer o inexplicável prazer estético.

Essa crônica de Rubem encontra sintonia plena com as opiniões de Modigliani em uma discussão sobre arte que teve com Diego Rivera. O mexicano defendia o abstracionismo e as naturezas mortas e o italiano replicava:

ara trabalhar preciso de um ser vivo, vê-lo em minha frente. A abstração cansa e mata, ela é um impasse. É o ser humano que me interessa. Seu rosto é a criação suprema. Sirvo-me dele invariavelmente. Não quero ceder ao gosto do momento, pintando árvores e naturezas-mortas. Não quero, em nenhuma pintura, nem guitarra espanhola nem garrafa de vinho colocada sobre um recorte de jornal.

Segundo Christian Parisot, biógrafo e diretor do Archives Légales Amedeo Modigliani, em Paris e em Livorno, a discussão entre o italiano e o mexicano foi testemunhada por Pablo Picasso, que permaneceu em absoluto silêncio. O convívio do espanhol com Amedeo era mutuamente frio, provavelmente em consequência das escolhas estéticas em conflito. O cubismo, que tinha em Picasso a sua maior expressão e liderança, era contestado abertamente por Modigliani, que jamais o praticara em sua pintura.

Dan Franck, em seu livro Boêmios, publicado no Brasil em 2004, narra uma das raras aproximações tentadas por Modigliani. Saindo de um café que frequentava, ele caminha junto ao cemitério de Montparnasse, entra no Bulevar Raspail e dobra à direita na Rua Schoelcher. Ali trabalha Picasso em seu ateliê. Bate à porta, que é aberta por Eva Gouel, amante de Picasso. O visitante ingressa no amplo salão, onde se amontoam tubos de tinta, pincéis e palhetas, estoque formado para atravessar todo o período de guerra. Quase 500 telas encostam-se às paredes. O pintor espanhol está de costas. Volta-se lentamente, sem demonstrar grande interesse. Trocam informações vagas sobre o mercado de arte e os pintores que estão no front, engajados no exército francês.

Em dez minutos, o assunto acaba. Escreve Franck que, na época, o artista espanhol estava em pleno voo para a opulência e já abandonara de vez a sua fase de roupas modestas, quase miseráveis, quando morava no Bateau Lavoir. O italiano sente a indiferença com que foi recebido, diz mais umas poucas palavras e retorna ao seu mundo noturno e boêmio, lá fora. Ignorava que Picasso aborrecia-se com o seu temperamento exuberante e suas bebedeiras. Pior: Amedeo jamais saberia que o espanhol, antes de formar o seu amplo estoque de material, recobrira uma tela dele para pintar mais um quadro cubista.


Pintura de Modigliani. Imagem: Reprodução

Dissensões não faltavam entre os jovens artistas que povoavam as colinas de Montparnasse e Montmartre, divididas pelas águas do Sena. Eram poetas, como Aragon, Apollinaire e Blaise Cendrars, músicos como Erik Satie, e pintores, muitos, como Chaim Soutine, Matisse, Rivera, Chagall e Braque, por exemplo. Todos ainda em busca de um lugar na vida. Picasso foi um caso à parte. Tendo chegado a Paris tão pobre quanto os demais, antes da Primeira Guerra começou a enriquecer.

Modigliani, ainda na Itália, quando completou 18 anos de idade, em vez de continuar os estudos formais para se tornar engenheiro, médico ou advogado, decidiu frequentar um curso livre de desenho. Ganhou aptidão rapidamente, mas depois de algum tempo convenceu-se de que nascera mesmo para ser escultor. Um dia resolveu desligar-se da estável e remediada família judia. Recebeu ajuda para deixar Livorno, viver em Paris e aperfeiçoar-se na arte que escolhera. Os pais deram-lhe dinheiro para as despesas iniciais da grande aventura. Em 1906 passou a ser um dos habitantes da Cidade-Luz.

Hospedou-se em bons hotéis e gastou sem contenção todo o dinheiro de que dispunha. Decidido a viver apenas da sua arte, a escultura, depois de algum tempo em Montmartre passou a morar, precariamente, em Montparnasse. Entre 1906 e 1909, como era costume em sua época, encontrou um mecenas. Foi o Dr. Paul Alexandre, burguês bem situado que se encantou com suas telas e esculturas. Logo ficou claro, porém, que esse admirador quase solitário não lograria convencer os seus pares de convívio social a respeito dos predicados artísticos do protegido. Modigliani, ainda sob esta chancela, participou sem êxito de uma Exposição de Outono (coletiva), trocou várias vezes de endereço, ainda em Montmartre, e começou a beber intensivamente em companhia de Maurice Utrillo, outro gênio que somente seria reconhecido na posteridade. 

O escritor Warnod descreve a dupla com palavras entre a censura e a comiseração. Identifica Utrillo como um tipo “popular” e Amedeo pelo que chama de “andar aristocrático”.

Era quase trágico vê-los passear juntos de braços dados num equilíbrio instável; um, pouco seguro, o outro, como se fosse levantar voo a qualquer instante. O desvairado apreciador de suco de uvas e o degustador de drogas orientais que não desdenhava, no entanto, um bom copo de vinho tinto; um com seu aspecto francamente popular, o outro com seu andar muito aristocrático, apesar de suas roupas em estado lastimável. 

Em Montparnasse, outro grande pintor que convivia com Modi (assim chamado pelos amigos) era Chaim Soutine, um imigrante da Lituânia, figura absolutamente antissocial. Tinha dificuldade para se comunicar em francês, aprendia o idioma com professores improvisados nos bares das proximidades. Para comer, sujava-se todo, roia os ossos, lambia os dedos. Quando, por milagre, era levado a visitar as residências de possíveis compradores de quadros, cometia vexames de toda ordem. Urinava nos jardins e, quando repreendido por não usar o lavabo, desculpava-se com o seu forte sotaque: “Casa muito bonita, não quis sujá-la”.

Já o seu amigo Amedeo Modigliani, alto, bem apessoado, elegante, deslumbrava as mulheres ao entrar no Café La Rotonde. Cumprimentava a todas num francês impecável. Sorria, lia poemas de Dante em voz alta. Usava paletó cintado e um colete de bom veludo encobrindo a camisa de pano surrado. Abancava-se nas mesas, afastava delicadamente xícaras e copos, apoiando uma folha de papel, na qual desenhava, em três minutos, retratos das senhoras mais bonitas. Os detalhes impressionavam pela fidelidade e acréscimos em seus traços que encantavam as contempladas. Oferecia o papel aos seus modelos: “É seu, custa apenas um vermute!”. Desta forma garantia sua bebida e sua comida, todas as noites.

O pobre Chaim, sentado lá no canto mais escuro do café, onde alguém lhe ensinava um francês básico, deslumbrava-se com o desembaraço e a performance do amigo. O dinheiro para comer e beber vinha do mínimo que ele ganhava como carregador de bagagens nas estações de trem. Enquanto Modigliani recitava Dante de mesa em mesa, o lituano bronco ia para a sua mansarda, onde tentava decifrar poemas de Baudelaire.

Modigliani recebia pequenos adiantamentos do Dr. Paul Alexandre. Eram bagatelas com que ajudava financeiramente Soutine e outros necessitados. Fazia isso desde que chegara a Montmartre. Segundo André Salmon, quando o italiano ainda tinha algum dinheiro da família, em 1907, ao conhecer Picasso e vê-lo sem dinheiro, deixou com ele todas as cédulas da carteira e foi caminhando para o seu hotel. Assim continuou procedendo em Montparnasse. Já miserável, mas com a sua generosidade e seu porte de príncipe, era feliz nas noites de La Rotonde.

O escultor Modigliani, por volta de 1907, com o malho e o buril nas mãos, trabalhava a pedra, sob o sol de verão. Desse material extraia cabeças e cariátides (figuras femininas da Grécia antiga). As pedras, marteladas, desprendiam muita poeira, que penetrava seus pulmões já avariados. Não tendo dinheiro para comprar o que precisava nas grandes pedreiras ou casas do ramo, ele pedia calcário aos pedreiros em construções dos arredores. Quando lhe negavam, esperava a noite chegar para invadir os canteiros de obras e simplesmente roubar a matéria-prima que carregava em seu carrinho de mão.

O jovem escultor renegava, também nessa forma de arte, o cânone dominante. Rodin, por sua modelagem acadêmica, importava pouco em suas opções. Os rostos que Amedeo esculpia já revelavam o mesmo alongamento e melancolia que vieram mais tarde em sua pintura a constituir uma expressão reiterada. A pedra trabalhada por ele reinventava elementos da arte negra observada em visitas ao Museu de Etnologia do Trocadero.

Várias mulheres animaram os 14 anos da vida de Modigliani em Paris. Dentre elas, os relatos impressos destacam Simone, Anna, Beatrice e Jeanne, cujos temperamentos eram marcantemente diversos. Parece claro, de tudo que foi publicado, que a última, Jeanne, foi a que ele mais amou e a que mais compreendeu sua arte e seu modo de ser.

Simone Thironx era uma estudante canadense, amor passageiro, que cessou tão logo ela regressou ao seu país. Grávida de um filho que o pintor sempre negou, escreveu-lhe cartas apaixonadas e não respondidas, pois ele guardava então suas atenções para Anna Akhmátova, poetisa e dama da alta sociedade russa, na ocasião em viagem de núpcias na França com outro poeta e milionário, Nicolay Gumilev.

Modigliani foi guia de Anna em visita aos museus de Paris e passeios idílicos em que recitavam poemas de Verlaine um para o outro. Ela representou para ele o que Lili Brik representou para Vladimir Maiakóvski, possivelmente na mesma época. Reza a lenda que o poeta russo dedicou a Lili este verso no mínimo sacrílego para a ortodoxia bolchevique: “A União das Repúblicas Socialistas Soviéticas precisa de pernas longas como as tuas!”. Documentados, que eu saiba, são estes versos para outra aristocrata, Tatiana Yakovleva: “Nós de ti necessitamos em Moscou / um par de pernas / desse porte / raridade se mostrou”.

Os modos elegantes de Akhmátova encantavam Amedeo em Paris e ela correspondia, posando seguidamente para ele e ganhando em troca 16 desenhos, talvez destruídos na invasão da luxuosa residência em Moscou pelos revolucionários, quando o seu marido foi preso e fuzilado.

Anna deixou vários depoimentos sobre Amedeo, que ela sabia pobre e sem glória. Um trecho: “Ele morava então no Impasse Falquière. Era um indigente, por isso no Jardim de Luxemburgo sempre nos sentávamos em bancos e não em cadeiras, que era preciso alugar. Ele não se queixava de nada, nem do fato de não ser reconhecido”.

Em 1914 iniciaram-se duas grandes guerras: a primeira, mundial, entre países; e a segunda, particular, entre Modigliani e Beatrice Hastings, um novo e tumultuado amor em Paris. O pintor, no auge de sua falta de dinheiro e desesperado apego à bebida; e ela, bem situada em sua profissão de jornalista, correspondente na França do jornal londrino The New Age, para o qual escrevia sobre literatura, pintura e outras artes. O casal compartilhava, porém, o gosto por baladas prolongadas, o ciúme e as explosões de temperamento.

Vivendo em Montmartre, Beatrice hospedava o pintor no final das madrugadas, quando era possível carregá-lo. Trocavam carícias e desaforos, em público, o que não impedia tórridas intimidades na cama. Às vezes iam às vias de fato no Dome e no La Rotonde. Voavam pratos, copos e cadeiras. Modigliani abandonava sua oponente nessas batalhas. Saía pelas ruas cantando, fazendo piruetas, abordando os transeuntes. De vez em quando adormecia nos depósitos de lixo, dos quais era expulso pelos lixeiros da Prefeitura ao raiar do dia.

Beatrice, tempos depois do rompimento definitivo, chamou-o com muita ênfase de “boêmio puro-sangue”, seja lá o que isto signifique. Prometendo contar tudo sobre o seu relacionamento com Modi em livro que ficou de escrever, sempre foi muito escrupulosa em suas matérias para o The New Age. Apenas uma vez referiu-se ao amante, com discreto elogio sobre uma exposição coletiva. O livro prometido aparentemente não apareceu. Um depoimento dela, mais tarde, foi um primor de ambiguidade:

Ele tinha um caráter complicado, um porco e uma pérola. Eu o conheci numa leiteria-restaurante. Estávamos sentados um na frente do outro: haxixe e conhaque, eu não sabia quem ele era. Ele me pareceu feio, com a barba comprida, feroz. Depois, vi-o novamente no La Rotonde e seu aspecto estava bem diferente: bem barbeado, gentil, ele tirara o chapéu com um belo gesto e pedira-me para ir ver seu trabalho.

Durante a “gestão” do Dr. Alexandre, Modi participou do Salão dos Independentes. Críticas favoráveis, nenhum comprador. Chega a montar sete cabeças em pedra no Salão de Outono, com igual insucesso. Começa a trabalhar para o marchand Georges Chéron, com quem se desentende rapidamente. Passa uma temporada contratado por Paul Guillaume, dedicando-se à pintura, mas com baixíssimo retorno em dinheiro. Par­ticipa de saraus literários animados por Jean Cocteau e Blaise Cendrars, e agrada muito. Diferentemente da maioria dos pintores de Montmartre e Montparnasse, Amedeo tinha razoável cultura geral, obtida ainda em Livorno, usando a biblioteca da família. Mostra nos saraus bom conhecimento das obras de Mallarmé, Baudelaire, Rimbaud, Verlaine, Bergson e Lautréamont. Lera, e levava sempre no bolso, A ética, de Spinoza.

Em 1916, a obra de Modigliani, em escultura e pintura, passa a ser administrada pelo poeta polonês Leopold Zborowsk. Na mesma época, Jeanne Hébuterne entra em sua vida para sempre. Mas, por enquanto, fiquemos com Zbo, assim chamado por amigos. Quase não tinha dinheiro e jamais fora marchand, embora sendo um fanático admirador dos quadros do pintor. O encontro dos dois tem destaque entre todos os livros que tratam dele e de sua geração.

O encontro aconteceu quando Modigliani estava no fundo do poço. Como seu amigo Soutine, já não pintava sobre telas novas. Comprava quadros sem valor no Mercado das Pulgas, cheios de crostas, e os recobria com pinceladas. Quando o resultado não satisfazia, rasgava com uma faca o que conseguiu pintar. Algumas vezes, sem dinheiro até para ir ao Mercado das Pulgas, usava linha e agulha, pacientemente, recosturando pedaços. Sobre a superfície, pintava e repintava obstinadamente.

Desalentado, o italiano vagava sem rumo numa exposição de Lyre et Pallete quando foi apresentado àquele estudante da Sorbonne que, sob a elegância aparente, escondia uma pobreza quase igual à dele. Zbo não escondeu a sua admiração: “Você vale duas vezes mais do que Picasso!”. Modigliani respondeu: “Você pode provar isso?”. A empatia foi imediata. Dirigiram-se então para o bar do Petit Napolitain.

Modigliani acabara de ganhar duas cédulas numa dupla sessão de pose. Uma delas, ele deixara no chapéu que recolhia donativos para artistas vitimados na Guerra. Logo que se sentou no bar com Zbo, foram abordados por um jovem pintor que ali esmolava. Modi enfiou a mão no bolso e deu-lhe a cédula restante: “É sua! Acabo de achar debaixo da mesa!”. O jovem tentou honestamente dividir o dinheiro. “Nem pensar!”, gritou o italiano, e passou a tratar de negócios com Zborowski.

— Quinze francos por dia, mais o pagamento de modelos e compra do material!

As palavras de Zborowski, com o sotaque polonês que não fora domado na Sorbonne, soaram como epifania para Modigliani. O impacto da proposta foi tamanho que o pintor logo pensou em Soutine e outros companheiros de infortúnio, para colocá-los também sob os cuidados deste bem-vindo samaritano. Zbo tentou explicar: “Preciso dizer, com toda franqueza...” Modigliani cortou suas palavras: “Tenho amigos talentosos que também podem ser contratados”. O provável marchand abriu o jogo: era um pronto, igual ao pintor. A Guerra o surpreendera estudando literatura em Paris. A arte do italiano, e somente ela, proveria o seu futuro como marchand. Olhou firme para o pintor, insistiu na proposta e perguntou:

— Sim ou não?

Na mesa do bar estava um bloco em que agora Modigliani desenha calmamente o rosto de uma turista na mesa do lado. Em três minutos de silêncio, o retrato fica pronto. O italiano levantou-se, abordou sua modelo em inglês. Ofereceu o desenho: “É seu, custa três copos de cerveja!”. Volta para sua mesa. O polonês repete:

— Sim ou não?

A americana estava feliz com o trabalho de Modi. Os copos de cerveja foram servidos e pagos. A moça ergueu-se para sair e pediu a Modigliani: “Quero sua assinatura, talvez um dia você fique famoso”. Ele retomou o desenho e recobriu, em letras garrafais, todo o rosto desenhado. Devolveu o papel inútil à modelo ambiciosa, que o rasgou, indignada, e se retirou do bar. O pintor sorriu feliz como se inaugurasse uma nova era em sua vida obscura. Voltou-se para Zborowski, bate o seu copo no dele e responde categórico: 

— A resposta é sim!

Em 2017, a primeira grande iniciativa do esforçado e novato marchand foi realizar uma grande exposição individual de Modigliani. Conseguiu sensibilizar a famosa Berthie Weil e a mostra se deu em sua galeria da Rua Taitbout. Weil teve a ideia de expor vários nus do pintor na vitrine – o que reuniu mais pessoas fora do que dentro da galeria. Eram, em maioria, transeuntes conservadores e revoltados contra o que julgavam como ofensa à moral pública. Os quadros foram retirados da vitrine, mas a questão somente foi resolvida na Chefatura da Polícia.

O escândalo repercutiu bastante na imprensa e rendeu alguma visibilidade ao pintor italiano. Um respeitado crítico, Francis Carco, elogiou os “impressionantes estudos cuja nudez parece revelar apenas alguns relevos do ventre, dos seios ou o sorriso de bocas mais ambíguas que um sexo”.

Berthie, para consolar Modigliani ou para fazer um bom investimento, comprou cinco quadros da exposição. Ela sempre teve um bom olhar para descobrir grandes nomes. Dez anos antes fora responsável pela notoriedade de Picasso. Adquiriu vários quadros dele por 50 francos cada um, em média. Isso corresponderia, em 2018, na cotação do euro, a mais ou menos R$ 200,00. Weil era uma pessoa excêntrica e generosa, mas não rasgava dinheiro.

Seguiu-se, em 1918, uma fase animadora para Modigliani. O grande colecionador William Kundig comprou um de seus nus por 300 francos. Ele fez um retrato de outro renomado colecionador, Roger Dutilleul. O banqueiro Schnemayer foi ao apartamento de Zborowski e, depois de exaustivas negociações, adquiriu uma série de bons retratos pintados por Amedeo. O crítico Gustave Coquiot, atento observador de novos artistas, comprou três grandes nus. Tudo isso não impediu que o pintor continuasse as bebedeiras, agora com o pretexto de comemorar os negócios. Mas, animado com os esforços de Zbo, ele próprio trabalha intensamente.

De repente, chegou a notícia de que a sua nova companheira Jeanne, que ele já amava profundamente, esperava um filho. Amedeo jamais se sentiu como pai de família e a revelação lhe trouxe alegria e certa instabilidade emocional. Ademais, o casal estava morando em um ateliê conseguido por Zborowski. O local, embora muito espaçoso em comparação com as choças que ele usara antes, não era propício à hospedagem do futuro bebê. Ao anúncio da gravidez somaram-se problemas de saúde do pintor, cujo médico aconselhou uma temporada na praia (Côte d’Azur), que também seria benéfica para Jeanne. Leopold Zbo assume todas as providências e despesas: hospedagem, alimentação e custo da viagem. Para tanto, se venda não houvesse, empenharia joias da mulher, seu pequeno salário, ganharia no jogo de pôquer, tomaria empréstimos, faria qualquer sacrifício. Estava disposto a tudo para garantir o sossego do seu contratado.

Essa generosidade não foi compreendida pelo poeta Blaise Cendrars. Entrando rapidamente na história, o autor destas páginas decepcionou-se ao encontrar esta informação em suas pesquisas. Acompanhei, em outras leituras, a visita do poeta ao Brasil e seu decidido apoio a Oswald e Mário de Andrade, além de boas palavras que disse sobre a arte brasileira, enquanto esteve entre nós. Tenho agora, diante de mim, esta nota venenosa escrita por ele e publicada em 1948.

Esse maldito Zborowski, que não temia cometer um crime para fazer fortuna, tinha medo de algumas granadas que a Grosse Bertha lançava sobre Paris e só tinha uma vontade, a de dar o fora. Mas como Modigliani não queria sair de Paris de jeito nenhum, Zbo teve a astúcia de levar o pintor a um médico, que declarou a Modigliani que ele só teria três meses de vida se continuasse a beber como fazia. O médico talvez tivesse razão. Modigliani parou imediatamente de beber e se deixou levar para o Midi por Zborowski e seu séquito.

Havia entre o leitor jovem que eu era e os personagens das narrativas uma relação unilateral de afeto ou de raiva, dependendo sempre do que estes faziam ou deixavam de fazer nos livros de ficção ou não ficção. Blaise Cendrars, pelo que li no passado, era um poeta suíço incorporado às artes novas que surgiam na França e no mundo. E os mensageiros do novo, para mim, eram pessoas de grandes qualidades, incapazes de torpezas como as que você acaba de ler. Quando as li, na preparação deste livro, decidi enterrar definitivamente o apreço juvenil pelo poeta no meu vasto cemitério de ilusões.

Faça-se agora uma pausa sobre a estadia de Amedeo e Jeanne em sua nova morada, o trabalho do pintor renascido e outros acontecimentos. É hora de falar um pouco mais a respeito da moça que deu mais sentido aos últimos anos de uma vida que durou apenas 35 anos e naquele remoto 1918, estava quase acabando, um final da qual ela compartilharia, tragicamente.

Chamava-se Jeanne Hébuterne, era aluna da Academia Colarossi. Tinha apenas 19 anos em dezembro de 1916, quando teve o seu retrato pintado por Amedeo. Não usava qualquer maquiagem. Rosto lavado, sem batom, ruge ou pó de arroz. Com habilidades para a pintura, sonhava matricular-se na Escola Nacional de Artes Decorativas. Criatura doce, bonita, magricela, com grandes olhos cor de amêndoa. Desde o término do retrato, Modigliani passa a esperá-la na saída das aulas, ansioso como um adolescente. Ele comentava com os amigos: “A felicidade é um anjo de olhos tristes”.

A pequena família de Jeanne opunha-se ferozmente à relação dela com Amedeo. O pai, contador-chefe de uma grande loja, com todos os traços comportamentais do segmento social a que pertencia; a mãe, dona de casa, obedecendo cegamente às opiniões do marido; e o irmão, jovem pintor aquarelista, certamente associando censura estética e intolerância à boemia do provável cunhado. Queriam para ela um marido com atividade rentável e bem situado na vida, pouco importando as questões de sentimento. Achille Casimir, o chefe da família, irritado com o fato de Jeanne passar algumas noites fora de casa, explodiu: “Ou deixa esse homem ou deixa nossa casa”. Ela escolheu Modigliani.

Na mesma noite desse episódio, os dois enamorados estavam juntos no La Rotonde, chamando a atenção pela serenidade, olhos nos olhos, mãos nas mãos, durante longo tempo. Embora sem abandonar a bebida, e ainda morando pobremente, o pintor parecia ter encontrado um porto existencial para ancorar em definitivo. Em 1917, no meio do ano, Zbo alugou para o casal um local decente na Rue de La Grand-Chaumiére. Finalmente o artista dispunha de um ateliê, com a luz corretamente filtrada, material suficiente para o seu trabalho, e perto dele a mulher que, na expectativa do marchand, poderia salvá-lo. De fato, o artista retomou intensivamente a pintura. Vários quadros tiveram Jeanne como sua modelo. Usava tinta e desenho, intercalados. Um dos quadros foi exposto em Bruxelas, em retrospectiva individual. E houve, no final do ano, a já relatada exposição na galeria de Berthie Weil.

Agora que conhecemos Jeanne um pouco mais, retornemos à Côte d’Azur, para onde o casal partiu, levando consigo a mãe dela, repentinamente decidida a apoiá-la no período de gravidez. Modigliani enfrentou, com dificuldade, as crises de abstinência, em consequência da dieta recomendada enfaticamente pelos médicos, mas conseguiu domar a sede. A vida seguiu, Zbo trouxe boas notícias.

Em Marselha, o grande colecionador e marchand Jacques Netter comprou um lote de telas de Amedeo por um preço elevado. A compra fora decidida quando ele viu o quadro Bambina in Azurra (Menina em azul). Animado com isso, Modigliani produziu vários quadros com crianças, talvez imaginando, no processo criativo, contornos do rosto da filha que nasceria em breve. Mas, para aflição de todos, o pintor recomeça a bebida.

Houve, em 1918, um desastroso encontro dele com o grande pintor Auguste Renoir, por iniciativa, a seu pedido, de Andres Osterlind, que também estava na Côte. O mestre, então com 77 anos, vivia semiparalisado, numa cadeira de rodas. Zborowski, empolgado, incorporou-se à visita. Estavam os três visitantes diante do lendário artista, na grande residência da Vila Les Colletes. Renoir, com um grande xale no pescoço e gorro na cabeça, olhou fixamente o jovem colega de arte e iniciou o que pretendia fosse um diálogo: “Você também é pintor, meu caro jovem?”. Modigliani simplesmente não respondeu. Renoir continuou, perguntando e aconselhando ao mesmo tempo: “Você pinta com alegria, a mesma alegria que sente quando ama uma bela mulher? Você acaricia suas telas?”. Amedeo mudo estava e assim ficou. Renoir então, usando a linguagem desinibida e própria dos jovens daquele tempo, tentou descontrair a situação: “Eu coço o traseiro quando estou pintando”. Modigliani, tenso, levantou-se com ímpeto e retirou-se, dizendo secamente: “Eu, senhor, não gosto de traseiros”. Zbo e Osterlind ficaram arrasados, mas Renoir continuou a conversa, como se nada tivesse acontecido.

As telas de Modigliani vendem um pouco mais para a alegria de Jeanne, sua mãe, Zbo e outros amigos próximos. Em novembro de 1918 acaba a Guerra, para alegria geral. Festeja-se também, naquela casa, o nascimento de Giovanna, filha de Jeanne e Amedeo. O pai comemora sem parar, nos bistrôs e bares da vizinhança. Bebendo intensivamente, como sempre, apesar dos alertas do médico e do seu organismo.

Em dezembro chega outra boa nova: quatro obras dele foram expostas com grande sucesso na Galeria de Paul Guillaume. Vernissage repleto de escritores famosos, grandes colecionadores, marchands, jornalistas e críticos de arte, extraordinária repercussão na imprensa. Nas paredes da galeria, telas de Picasso, Matisse, Vlaminck, Utrilo e Modigliani. Este começa a aparecer nos jornais com os mesmos elogios destinados a Picasso e Matisse.

Na Côte, novas tentativas do artista emergente para beber menos e trabalhar mais. Para superar a inexperiência do casal no trato com o bebê, contrata-se uma babá. Não poderia ser melhor: jovem, carinhosa e... italiana. Tudo ia muito bem quando, no último dia do ano, o pintor deixa Giovanna e Jeanne em casa para festejar o Réveillon no circuito boêmio. Perde na rua todos os documentos e sua carteira de dinheiro é roubada – o que demanda grandes esforços de Zborowski para conseguir novos papéis e reorganizar as finanças do seu contratado.

Em maio de 1919, com o mercado de arte em franca recuperação, crescem também as vendas das telas de Modigliani, que ganham valorização. O amor entre Amedeo e sua mulher também evolui e a presença dela em sua obra torna-se cada vez maior. Um detalhe destacado por seu biógrafo Christian  Parisot: “Das amantes que teve, Jeanne foi a única que ele jamais fez posar nua”. O pintor, animado com os preparativos em Paris para a grande Exposição de Londres, despede-se dela e da filha para integrar-se ao planejamento de sua participação.

Em Paris, ele se encontra diariamente com Zborowski para combinar os mínimos detalhes do que chamam de “A Campanha da Inglaterra”. O seu sonho, diz ao marchand, é ganhar muito dinheiro para viver novamente em Livorno, Itália, numa bela casa com amplo jardim para Giovanna brincar, enquanto ele e Jeanne conversariam sobre a arte e o futuro. Mas, em junho, ele recebe um telegrama da mulher comunicando que viajaria imediatamente para Paris. Na chegada, informou que estava novamente grávida. Embora um tanto assustado, Amedeo, numa pequena reunião familiar, tomando como testemunhas Lunia, nova babá de Giovanna, e Zborowski, escreveu numa folha de papel: “Eu me comprometo, hoje, dia 7 de junho de 1918, a desposar a senhorita Jeanne Hébuterne assim que os papéis chegarem”. 

A Exposição de Londres, mostrando quadros dos grandes pintores franceses, realizada na Mansard Gallery e organizada por dois aristocratas ingleses, os irmãos Sitwell, foi um retumbante sucesso. Reuniu cerca de 30 mil visitantes. Numa extensa lista de 39 pintores encabeçada por Pablo Picasso, Amedeo Modigliani, com 59 obras, foi o artista mais bem representado. No prefácio do catálogo, o reconhecido escritor Arnold Bennett comentou: “Suspeito firmemente que os sujeitos figurativos de Modigliani se pareçam com autênticas obras-primas”. Ele adquiriu, no vernissage, gastando a pequena fortuna de mil francos, um retrato que Amedeo fizera de Lunia, babá de sua filha. Osbel Sitwell declarou à imprensa: “Meu irmão e eu podemos reivindicar a honra de ter apresentado Modigliani pela primeira vez ao público inglês. Seus quadros foram uma verdadeira revolução”.

Em Paris esse sucesso tem grande impacto. Ensaia-se uma especulação no mercado de arte para eventual falecimento do artista. Queriam segurar as transações para “vender na alta”. Modigliani, embora  enfermo, não interrompera seus giros noturnos regados a vinho. No final do ano experimenta uma piora muito preocupante em seu quadro de saúde. Recolhe-se à casa da Rue de la Grande-Chaumière. Deita-se com a mulher sobre um catre e ambos parecem desistir de tudo. Alimentam-se, quando muito, com latas de sardinha. Chama-se um médico e este determina imediata internação do pintor em hospital.

No caminho, dentro da ambulância, ele murmura para o pintor Ortiz de Zárate, seu acompanhante: “Só tenho mais um pedacinho de cérebro... beijei minha mulher, e estamos de acordo para uma alegria eterna”. A meningite tuberculosa no hospital concluía sua macabra tarefa. Amedeo Modigliani morreu em 24 de janeiro de 1920, às 20h50. Sem sofrimento, por estar completamente sedado.

Jeanne, que ficara em casa, foi imediatamente avisada. Correu para o hospital, acompanhada pelo irmão André, sempre ao seu lado para confortá-la. A moça postou-se longamente junto ao corpo imóvel do companheiro, mirando-o fixamente, sem desviar dele os olhos de amêndoa. Cortou uma mecha dos cabelos e colocou-a sobre o peito do artista. Saiu do hospital sem falar com ninguém para se juntar aos poucos amigos que a esperavam no ateliê. À noite recolheu-se à casa dos pais, onde passaria a residir.

De madrugada, o irmão que velava por ela adormeceu, exausto. Jeanne aproveitou esse breve descanso e atirou-se pela janela do quinto andar. Seu corpo frágil despedaçou-se lá embaixo. Cumpria-se o que parece ter sido um pacto de morte, sinalizado nas palavras sussurradas por Amedeo a Ortiz de Zárate, na ida para o hospital: “Beijei minha mulher, eestamos de acordo para uma alegria eterna.” Alegres, na outra dimensão em que ambos acreditavam, acompanhariam a glória que não puderam desfrutar.

Cerca de mil parisienses acompanharam em silêncio o cortejo fúnebre de Amedeo Modigliani, puxado por quatro cavalos negros. Na multidão, numerosos pintores, escritores e poetas. Picasso disse ao ouvido de Francis Carco: “Veja, ele foi vingado”. Leon Indenbaum tinha outra opinião: “No fundo, Modigliani se suicidou”. Léopold Zborowski repetia o que Amedeo lhe dissera pouco antes de partir: “Não se preocupe. Deixo-lhe Soutine, um homem de gênio”. O enterro de Jeanne, por exigência dos pais dela, foi discreto. Estavam presentes alguns amigos do casal, incluindo o fiel Zborowski, Kisling, André Salmon e André, o irmão da morta. Seguiram o carro fúnebre até o cemitério, e não há registro de qualquer comentário. Somente muitos anos depois se decidiu juntar, no mesmo túmulo, os ossos de Jeanne e Amedeo.

Em 31 de janeiro, numa longa e atenciosa carta aos familiares de Amedeo, seu dedicado marchand, a quem coubera ficar com a menina órfã, comprometeu-se a entregar Giovanna a seus tios e avós na Itália. A Giuseppe Emanuele, irmão do pintor, ele mandou este recado: “Agora, sou eu que cuido dela. Minha mulher e eu a tomaríamos de boa vontade como nossa filha, mas você, para substituir os pais, é o único. Amedeo sempre expressava o desejo de que ela fosse criada na Itália”. Depois de todos os trâmites burocráticos, Giovanna seguiu para Livorno e passou a usar o nome de Modigliani.

Com a morte do pintor, exposições com a sua obra sucederam-se em ritmo frenético, na Europa e nos Estados Unidos. A Itália, sob o regime fascista, resistia a reconhecer o seu enorme talento – o que somente veio a ocorrer sete anos depois, em 1930, na XVII Bienal de Veneza. É lá que a garota Giovanna Modigliani, com dez anos, levada por sua tia Margherita, vê pela primeira vez a obra imortal do pai. O tio Giuseppe, refugiado em Paris em razão de sua militância socialista, em vão tentou comprar pelo menos um quadro de Amedeo. Os preços tinham chegado à estratosfera.

E o que aconteceu com Zborowski? Ele, como vimos, deu a Modigliani o mínimo conforto material para realizar, entre 1916 e 1920, quase toda a obra valorizada e consagrada extraordinariamente depois de sua morte. Pouco se soube do polonês. Um historiador de arte, Daniel-Henry Kahnweiler, deu algumas pistas, acusando-o de amadorismo e negligência, mas não explicou muito. Sabe-se apenas que, 12 anos depois de Modigliani, Zbo morreu completamente falido. Tão pobre quanto Amedeo, naquele dia em que os dois decidiram trabalhar juntos. O mercado é cruel. Não perdoa gente com boas intenções e sem dinheiro.

Quando se vai um grande amigo para o além da vida, os que ficam no mundo às vezes se juntam com o intuito de lembrá-lo. Não em culto fúnebre, missa, homenagem, ou qualquer cerimônia solene, mas numa conversa vadia de bar ou bistrô. Isso vai acontecer agora, na cena final deste capítulo, pois o morto era Amedeo Modigliani, figura maior da boêmia parisiense no século passado. 

Imagine o leitor esse encontro regado a vinho e falas de depoimentos deixados por quatro amigos do grande pintor: Paul Alexandre, comprador de quadros, fala de sua dedicação à arte, excluindo qualquer hipótese de outra ocupação paralela; o ilustrador Gabriel Fournier, frequentador do La Rotonde, observa o artista desenhando retratos em troca de bebidas; Maurice Vlaminck, outro grande pintor do tempo, amigo de todas as horas; e Jean Cocteau, poeta, comenta a seu modo, poeticamente, a obra superior e indefinível do artista:

Paul Alexandre – “Alguns artistas pobres, Brancusi e outros, ganhavam dinheiro lavando de vez em quando a louça nos restaurantes, trabalhando como estivadores nos cais, encerando parques ou fazendo as camas nos albergues. Para Modigliani, nem se falava no assunto. Ele era um aristocrata nato. Ele tinha o jeito, os gostos. Este foi um dos paradoxos de sua vida: amando a riqueza, o luxo, as belas vestimentas, a liberalidade, ele viveu na pobreza, se não na miséria. Ele tinha uma paixão exclusiva por sua arte, era impensável afastar-se, nem que por um instante, para tarefas que a seus olhos pareciam sórdidas”.

Fournier – “Quando a porta do La Rotonde se abria, com um gesto largo, era bonito ver entrar teatralmente Modigliani. (...) O amigo que ele parecia procurar, uma vez encontrado, Modigliani ia até ele, atraído pelas particularidades de um caráter, instalava-se na ponta da mesa (...) Abria sua pasta, acariciava com a mão a folha de papel. Então seu olhar mergulhava com dureza nos olhos do seu modelo, que parecia fasciná-lo. Depois, o lápis começava a correr em todos os sentidos sobre a folha, enquanto ele se acalmava cantarolando. Os arabescos eram escritos espontaneamente e, de repente, ele parava, esfregava o papel com a palma da mão e retomava um detalhe com obstinação. Se ficasse insatisfeito com seu primeiro jorro, Modigliani assumia um ar de indiferença cínica, olhava para tudo a sua volta antes de atirar-se nervosamente sobre uma folha virgem, que ele arranhava com violência. Então, levando a cabeça mais para trás ainda, ele assinava com indiferença seu desenho antes de oferecê-lo ao modelo por um copo de gim e desaparecia”.

Vlaminck – “Eu conheci bem Modigliani, eu o conheci tendo fome, eu o vi embriagado. Eu o vi com algum dinheiro. Em nenhum caso vi faltar-lhe grandeza e generosidade. Jamais descobri nele o mínimo sentimento baixo; mas o vi irascível, irritado, em constatar que o poder do dinheiro que ele desprezava tanto contrariava às vezes sua vontade e seu orgulho”.

Cocteau – “O desenho de Modigliani é de uma elegância suprema. Ele era nosso aristocrata. Nunca sua linha, geralmente tão pálida que parece um espectro de linha, encontra uma mancha. Ele as evita com uma suavidade de gato siamês. Modigliani não estira os rostos, não acusa suas assimetrias, não fura um olho, não alonga um pescoço. Tudo isso se organiza em seu coração. Assim ele nos desenhava às mesas do La Rotonde, assim ele nos julgava, sentia, amava e contradizia. Seu desenho era uma conversação silenciosa”.

ALUÍZIO FALCÃO, natural de Pernambuco, é jornalista e trabalhou na imprensa recifense de 1955 a 1964. Presidiu o Sindicato dos Jornalistas Profissionais do Recife. Integrou o Conselho de Direção do Movimento de Cultura Popular (MCP) na gestão de Miguel Arraes, de quem veio a ser secretário particular quando o então prefeito do Recife elegeu-se governador de Pernambuco.

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