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A liberdade e a criação

TEXTO César Colera Bernal

01 de Janeiro de 2011

Ilustração Índio San

[conteúdo vinculado ao especial "Autoria" | ed. 121 | janeiro 2011]

Pureza ou mistura?
Nova criação ou collage de originais? Nossa época parece assistir a um deslocamento do primeiro ao segundo desses polos: no esteio do desenvolvimento informacional, prevaleceria hoje – não sem prejuízo para a verdadeira arte – a mediocridade da criação coletiva frente à singularidade do gênio individual.

Essa tese – uma de tantas a associar modernidade tecnológica e decadência espiritual e cultural – olha para o passado com os olhos de quem consulta um dicionário de homens ilustres, um fichário de luminares em que cada página encerra, explicando-as, as respectivas contribuições. E olha para o presente com o desgosto que provoca a desordem e o emaranhamento, a repetição ad nauseam e a falsificação. Em termos de autoria, passado e presente se oporiam, nessa visão, como o legítimo do sucedâneo, o criar do macaquear, o diáfano do marrom, o assumir-se do esconder-se e – para resumi-lo – o sagrado do profano.

Mas, como todo maniqueísmo, essa é uma tese errada, em desavença com os fatos, pois com raízes em dois prejuízos: contra a mestiçagem e contra a tecnologia.

O primeiro desses prejuízos ignora que nunca existiram arte e autores puros. Na verdade, a hibridação foi sempre a regra, e o original imaculado, uma simplória e interesseira quimera. Prova-se essa afirmação em múltiplas instâncias do binômio autor-obra. Biológica: o genótipo humano já é miscelânea de traços de inúmeras espécies. Biográfica: cada indivíduo é um nó de infinitas e longas influências espaciais, culturais e temporais. Procedimental: toda criação se apoia em recursos (alfabeto fenício, papel chinês, tinta pré-histórica etc.) que a remetem a cenários exóticos. E, finalmente, conteudística: na obra criativa – romance ou catedral, livro revelado ou sinfonia –, recapitulam-se os estros de inúmeras nações, raças e profissões.

A prensa renana e a sabedoria egípcia coproduziram a Bíblia de Gutemberg. Quem é Agostinho de Hipona? Um platônico africano? Um latinista romano e sacerdote de uma religião oriental? Antes, a mistura disso tudo. Cada autor rumina e recicla, mesmo quando sem sabê-lo, toda a produção cultural anterior. Em sua obra, desembarca tropel de outros autores, ressoam os ecos e imagens de tudo o que a experiência humana registrara antes em símbolos e artefatos.

E isso nos remete ao segundo prejuízo, pois, de fato, a arte é sempre artefato. O autor invariavelmente se apoia em técnicas, seja para executar a sua inspiração (até a música, a mais abstrata e evanescente das artes, nasce de instrumentos), seja para lhe dar suporte. Assim, se a ciência é tão antiga quanto a filosofia, a técnica o é tanto quanto o próprio homem. Tecnologia – como linguagem, inteligência ou liberdade – é sinônimo de humano. Malgrado a tecnofobia de tantos, tão grandes e tão influentes pensadores, a tecnologia – do atabaque ao iPad – é liquidamente humana e humanizante, desde que, como em tudo na vida, não se abuse dela. Por quê? Talvez, porque é tão arte quanto tudo o que busca solucionar um problema ou anseio vital pela via da excelência, tão linguagem quanto qualquer símbolo a apontar conceitos, tão lídima expressão da inteligência quanto qualquer manifestação do espírito. Sobretudo porque é tão mestiça quanto o próprio homem: é articulação insólita, aglutinação aberta e dinâmica de plêiade de elementos que, em si, são também misturação do heterogêneo. É, pois, nesse sentido, que se dá patente a um remédio como se registra um romance: apenas reivindicando o último elo, a derradeira costura de relações entre materiais previamente recepcionados.

Talvez o artista medieval, que não julgava necessário assinar a sua obra, compreendesse melhor que nós, hoje, o estrito caráter comunitário e institucional inerente a toda criação. Possivelmente, assim se aperceberia de imediato da falsidade daquela inicial disjuntiva: arte pura ou mistura de estilos? Trata-se, na realidade, de um pseudoproblema, pois são ambas as artes uma só: um compósito de velho-e-novo, de forasteiro-e-próprio, de comunal-e-individual em que sempre cabem os extremos da originalidade e da contrafação, da autoria e da imitação vulgar.

Dê-se, pois, curso amplo, patente legal e apreço público às obras do engenho que os mereçam. E, mais importante, para determinar quais são essas, faça-se da irrestrita liberdade – pois é origem e efeito de toda criação – o fulcro que, desde a perspectiva do espectador/leitor, discrimine com o passar do tempo autoria e pseudoautoria, arremedo de criação e arte verdadeira. 

CÉSAR COLERA BERNAL, mestre em Filosofia pela UECE e professor de Filosofi a na Universidade Católica de Fortaleza.

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