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Crenças: A fé move montanhas… e bolas de futebol

TEXTO ÁLVARO FILHO
FOTOS JARBAS ARAÚJO JR.

01 de Junho de 2013

Foto Jarbas Araújo Jr.

[conteúdo vinculado à reportagem de capa | ed. 150 | junho 2013]

O atacante do seu time se benze,
o goleiro adversário abaixa a cabeça numa oração solitária, enquanto o juiz faz o sinal da cruz. Ao seu lado, na arquibancada, um torcedor se ajoelha para uma promessa que, provavelmente, não conseguirá cumprir. Mesmo de longe, você vê o técnico, lá embaixo, cruzando os dedos numa figa. O massagista beija uma medalhinha com a efígie de uma santa. No camarote da presidência, o dirigente pega o celular, liga para o babalorixá de confiança e faz um pedido que envolve sacrifício animal. Vale tudo. É decisão de campeonato. Quarenta e cinco do segundo tempo. A bola está na cal, na marca do pênalti. A fé move montanhas, mas será capaz de empurrá-la para dentro ou fora do gol?

É a pergunta que vale um milhão de dólares. O jornalista e ex-técnico da Seleção Brasileira, João Saldanha, disse certa vez que, se macumba ganhasse jogo, o Campeonato Baiano terminava empatado. Mas isso não evitou que o Náutico, durante a campanha do histórico hexacampeonato, em meados da década de 1960, contratasse um pai de santo para fazer frente ao número excessivo de baianos no elenco do rival Sport. O título veio e o trabalho de Pai Edu foi reconhecido pelos cartolas com “bicho” pela conquista, faixa de campeão, volta olímpica e foto oficial.


Cada torcedor se agarra à religião a que pertence pela vitória de seu time

Cinco décadas depois, no início de 2013, o Santa Cruz, além de nutricionistas, fisiologistas, massagistas, médicos e preparadores físicos, requisitou também os serviços de um padre, durante sua pré-temporada, no pequeno município de Sairé, no interior de Pernambuco, que benzeu o elenco e os materiais esportivos. Dois dias depois, o religioso trocou a batina pela camisa tricolor e assistiu, da arquibancada, ao Santinha vencer o amistoso contra o Porto de Caruaru. Mas, se a ajuda divina vai ser suficiente para o time sair do “inferno” da Terceira Divisão, só o tempo dirá.

Certo, mesmo, é que os católicos levam vantagem nas disputas pela taça, ou Santo Graal, da Copa do Mundo. Com os títulos somados do Brasil, da Itália, Argentina, França, Espanha e do Uruguai, ganham de goleada contra os protestantes Alemanha e Inglaterra: 15x4.

Se bem que o status de ser católico nunca ajudou o Vaticano, “lar” do papa e berço da Santa Sé, a ter, inclusive, uma seleção para disputar uma vaga num Mundial. Em matéria de influência divina, por sinal, o islã também passou em branco, apesar dos mais de 1,3 bilhões de seguidores. E o que dizer da Índia? E da China? Quase dois bilhões de adeptos do hinduísmo, xintoísmo e budismo e nada mais do que a parte de baixo do ranking de seleções da Fifa.

A falta de uma prova concreta de que a religião é capaz de promover o milagre da multiplicação de gols e títulos não impede, porém, que os torcedores se comportem como verdadeiros fanáticos religiosos. O caso mais emblemático acontece na Escócia, com a bipolarização entre os católicos do Celtic e os protestantes do Rangers, ambos de Glasgow. O dia em que acontece o clássico entre os dois, o Old Firm, costuma ser o mais violento do ano no país.

No livro Como o futebol explica o mundo, o jornalista Franklin Foer registra que a procura pelos hospitais em Glasgow é cerca de nove vezes maior em dias de Old Firm e, não raro, os incidentes terminam em morte. Para se ter uma ideia, ele cita o caso de um torcedor do Celtic que morreu, ao ser atingido por uma flecha no peito, após um clássico. E não foi na Idade Média, mas em 1999. Apesar do acirramento entre as partes, o lado protestante costuma ter jogadores católicos no elenco, e vice-versa.

Esse tipo de comportamento que mistura o meio-campo entre futebol e fé vem intrigando os pesquisadores. O professor de História Social da Universidade de São Paulo, Hilário Franco Júnior, dedicou boa parte de sua pesquisa ao assunto, no livro de sugestivo título A dança dos deuses, uma verdadeira bíblia para quem quer entender um pouco mais sobre os vários aspectos que envolvem o futebol. Nele, Hilário sugere que a industrialização e o tecnicismo rebaixaram um pouco a importância das religiões tradicionais, mas, como sempre é preciso crer em algo para preencher o “vazio espiritual”, há quem tenha substituído as antigas divindades por times de futebol.

Ainda segundo Hilário, isso explica, em parte, todo o repertório religioso que envolve o universo futebolístico, com defesas que, de tão difíceis, são milagrosas, gols improváveis, ao ponto de serem espíritas, camisas e uniformes tratados como mantos sagrados, e estádios que, de tão místicos para os torcedores, se transformam em templos ou catedrais. Sem falar nas estátuas erguidas em homenagem aos jogadores que fizeram história no clube, não por acaso elevados ao patamar de ídolos que, assim como os deuses mitológicos gregos, vivem eternamente no panteão... da bola.

Fanatismo ou não, parece estar longe o tempo em que a religião vai tirar o time de campo. Se isso acontecer um dia, claro. Enquanto isso, o estádio segue como um verdadeiro altar dedicado ao deus do futebol, a embalar fiéis seguidores em cânticos e orações, exigindo, às vezes, até o sacrifício humano (na maioria delas, o humano com a camisa da equipe adversária) na promessa do paraíso de ser campeão. Até porque, quem nunca apelou para os céus na hora de o time do coração marcar ou defender um pênalti, numa final de campeonato, que atire a primeira pedra. 

ÁLVARO FILHO, jornalista, professor universitário e mestre em Comunicação.
JARBAS ARAÚJO JR.,  Fotógrafo, sócio-fundador do Projeto Lambe Lambe de Fotografias.

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