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“A imaginação e a realidade vivem trocando fluidos”

O escritor cuiabano Joca Reiners Terron comenta sobre seu novo romance, onde lança mão de uma linguagem mais enxuta que em suas obras anteriores

TEXTO Ronaldo Bressane

01 de Setembro de 2013

Foto Renato Parada

[conteúdo vinculado à reportagem de "Perfil" | ed. 153 | setembro 2013]

Foi no bairro paulista de Bom Retiro,
no clássico Esquina Grill, onde petiscamos maminhas e fraldinhas, que Joca Reiners Terron concedeu a entrevista a seguir. Ali mesmo ele rabiscou, em um guardanapo com manchas suspeitas, a receita de uma requintada iguaria, baseada em situações e cenas de seu novo romance. Bom apetite.

CONTINENTE Nunca sua linguagem esteve tão enxuta e certeira quanto neste livro, em termos estritamente fabulares, ligados à trama. Por vezes me peguei pensando em livros de Mario Bellatin e Roberto Bolaño. Essas leituras influíram? 
JOCA REINERS TERRON Certamente, mas não só. O que influi com certeza é a falta de tempo para escrever, que acabou me levando ao osso da linguagem, ou ao tutano, que é o que realmente interessa.

CONTINENTE Em seus primeiros livros de ficção é visível o esforço de tornar cada frase impactante. Neste livro houve uma depuração, já sinalizada no anterior Do fundo do poço se vê a Lua. Esse é o caminho para onde se dirige sua escrita?
JOCA REINERS TERRON Se o esforço era visível, era ruim. Infelizmente, não dá para saber ao menos se existirá um próximo texto. Cada dia é uma batalha, que não é perdida apenas quando surge espaço para levar adiante uma narrativa. Mas seria assim, mesmo se eu tivesse tempo. Terminar um livro é quase tão difícil quanto ganhar na loteria.

CONTINENTE A peça que fez para o Teatro da Vertigem foi estímulo para descobrir um cenário para sua narrativa. Por outro lado, mesmo surgindo elementos do “real” (bolivianos, coreanos, judeus), você manteve um pé na imaginação. Este é o norte da escrita, menos que a apreensão do “real”. Concorda?
JOCA REINERS TERRON Para mim, uma coisa não está separada da outra. A imaginação e a realidade vivem trocando fluidos o tempo todo. Se a gente parar para observar, acaba notando que a realidade desenvolveu sua maneira própria de imaginar. É essa capacidade que me interessa, aquilo que Alexander Kluge chama de “o mundo fantástico dos fatos objetivos”.

CONTINENTE Um bairro como o Bom Retiro foi salutar para a inspiração?
JOCA REINERS TERRON Qualquer escapadela do escritório é boa para a imaginação. Sair de casa e andar pela rua é o momento em que escrevo com maior fluência. O problema é que não há registro dessa escrita, então, sou obrigado a voltar correndo e anotar antes que as ideias sumam.

CONTINENTE A São Paulo que você apresenta é uma cidade mais pluralmente étnica do que a cidade normalmente decantada pelos próprios paulistas, orgulhosos de sua NY tupiniquim. Você, apesar de morar em SP há décadas, não é paulista. Ainda se sente estrangeiro nesta cidade, daí sua compaixão pelos gringos que aqui residem?
JOCA REINERS TERRON Me sinto estrangeiro em qualquer lugar, principalmente dentro do meu próprio corpo. Tenho lembranças de um corpo que conseguia saltar e nadar sem sentir dores, então me sinto alienado neste corpo, pensando “onde será que meu eu de antigamente foi parar?”. São Paulo é o lugar onde menos me sinto assim, pois, com raras exceções, ninguém é daqui. Como em toda cidade composta por imigrantes, porém, o nômade chega ao novo mundo e imediatamente o toma para si. É como se tivesse sempre pertencido àquele lugar.

CONTINENTE O livro é cheio de prisões e seres detidos: o leopardo, o taxista, a criatura, o garoto violador, o escrevente sarará — todos seres apartados, deslocados, alheios a um convívio. Por que o Outro é tão inacessível na sua obra?
JOCA REINERS TERRON É o problema essencial de minha vida, que acabou invadindo os livros. Tem a ver com minha história pessoal, ter morado em diversos lugares sem nunca ter tido tempo para me envolver com eles, e também com um passado fugidio de descendente de imigrantes sem lembranças nem contato com suas origens. Quando saio à rua, me pergunto: quem são essas pessoas, do que vivem? É uma preocupação da qual nunca extraio respostas.

CONTINENTE Esse é seu livro mais rápido, não? Isso também influiu no ritmo do texto?
JOCA REINERS TERRON Escrevi em dois meses, mas, entre um mês e outro, o livro ficou esquecido por mais de ano, e acredito que isso tenha sido importante. Escrevi rapidamente, pois surgiu o tempo necessário para isso, e eu queria ter a primeira versão com urgência, pois sabia que o tempo logo desapareceria. Depois de um ano, reli, encontrei os problemas com maior facilidade e reescrevi durante mais um mês. Mas note que o livro tem dois ritmos: um é o dos capítulos ímpares, que reproduz circunvoluções do pensamento do narrador, o escrivão de polícia. O outro é o ritmo em que são narrados os eventos, muito mais factual e cheio de ação. O contraste entre esses dois ritmos faz a narrativa avançar.

CONTINENTE Você é um dos 70 autores que vão representar o Brasil em Frankfurt. O que aguarda da feira? O governo continua tímido nas traduções de obras brasileiras?
JOCA REINERS TERRON Não sei ao certo. Se não me obrigarem a jogar futebol e a sambar, já vai estar valendo. O sistema de subsídio à tradução de obras brasileiras da Fundação Biblioteca Nacional está fazendo sua parte, o mundo é que anda tímido em seu interesse em ler a literatura brasileira.

CONTINENTE O que está cozinhando? Novo romance? O livro de poemas sairá?
JOCA REINERS TERRON Estou ensaiando retomar a escrita de um romance já iniciado, o que é bastante difícil. Tenho vários livros de poemas inéditos, e isso me envergonha um pouco. Não o ineditismo – mas os poemas. 

RONALDO BRESSANE, jornalista e escritor, publicou, entre outros, os livros Céu de Lúcifer e O impostor.
RENATO PARADA, fotógrafo.

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