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Um belo ornamento em vias de extinção

Desde a década de 1980, sem locais de ensino regular e com poucos interessados em produzi-lo, o elemento vitral pode cair em novo ostracismo

TEXTO Danielle Romani

01 de Dezembro de 2011

Na Catedral de Notre-Dame, um detalhe mostra a complexidade da arte vitral

Na Catedral de Notre-Dame, um detalhe mostra a complexidade da arte vitral

Foto Reprodução

Na atualidade, excetuando-se a produção de Marianne Peretti, a confecção de vitrais é praticamente inexistente no Brasil. “É uma arte em extinção, com poucos artistas interessados em apreendê-la e com poucos em condição de repassá-la. Desde a década de 1980, não temos uma escola oficial, no Recife, que ensine essa técnica. Fui a última professora a ministrá-la na Escola de Belas Artes, onde substituí Aurora de Lima”, critica Suely Cisneiros, professora do departamento de Teoria da Arte da Universidade Federal de Pernambuco.

Existem explicações para o gradual desinteresse dos artistas em relação aos vitrais. Uma delas é próprio surgimento do Modernismo, na primeira metade do século 20, que se contrapôs fortemente ao figurativismo, à inspiração neogótica, à art nouveau, e, principalmente, ao ecletismo – defendido pela Escola Nacional de Belas Artes. Estilos aos quais estavam associados os principais vitralistas do período. Para os modernistas, artistas plásticos e arquitetos, pelo menos os da primeira fase do movimento, o vitral era associado a gêneros ultrapassados, a uma estética que não tinha espaço nos seus projetos.

Antes dos movimentos de vanguarda, porém, no século 18, esse elemento arquitetônico, diretamente associado ao misticismo cristão, havia sido “resgatado” pelos neogóticos ingleses, que procuravam reavivar as formas da arquitetura medieval. Foi com esse impulso que o vitral ressurgiu nas construções na Europa e nos Estados Unidos, com seu uso estendido ao longo do século 19, dentro do movimento romântico.

O crescente interesse pelo medievo – que também teve repercussões na literatura, como se observa em Notre Dame de Paris, de Victor Hugo – estimulou a construção de catedrais com características arquitetônicas do período, o que fez com que artistas e artesãos começassem também a produzir mobiliário, elementos decorativos e construtivos referentes à Idade Média, entre os quais os vitrais.

Arquitetos como Eugène Viollet-le-Duc (que desenhou plantas de aspecto medieval com recursos, à época, modernos, como o ferro) são referências do período. Outro artista que sofreu influências do estilo foi Antoni Gaudí. O neogótico pode ser visto tanto nas formas quanto nos vitrais presentes em sua obra mais emblemática, a igreja Sagrada Família, em Barcelona, ainda hoje em construção. Todo o interesse pelo estilo fez com que surgissem, na Europa, oficinas e artistas dedicados exclusivamente ao vitralismo. E foram alguns desses, justamente, que migraram para o Brasil e aqui desenvolveram criações coloridas e luminosas em igrejas e residências.

Os vitralistas brasileiros seguiram, basicamente, a fórmula do medievo: narrativas religiosas ou históricas deram a tônica de seus trabalhos. Apenas Marianne Peretti, no segundo período do Modernismo, ousou, ao utilizar o abstracionismo e as formas orgânicas para adornar catedrais, espaços públicos e casas particulares. Ela, como costumam dizer especialistas, reinventou a arte de fazer vitrais.

Não se pode precisar a data de surgimento do vitral. Mas ele está intrinsecamente ligado às igrejas e catedrais góticas, tanto no que diz respeito à iluminação desses templos – pois era uma solução para as estruturas altas e estreitas –, como se prestava à catequese dos fiéis, uma vez que os painéis, normalmente, reportavam episódios bíblicos.

Um dos marcos da arquitetura gótica é a Basílica de Saint-Denis, erguida em Paris em 1140, sendo um dos últimos exemplares do estilo a Capela de Henrique VII, da Abadia de Westminster, construção do início do século 16. O ápice do estilo se deu entre os séculos 12 e 15, com o apuro e a delicadeza de catedrais como as de Augsburgo, na Alemanha; Saint-Denis e Angers, na França.

A exemplaridade máxima, no que diz respeito à arte vitral, está na catedral francesa de Chartres, considerada o “museu dos vitrais”, com seus 2.600 metros quadrados de superfície, ricos em originalidade e perfeição. Notre-Dame de La Belle Verrière é outra obra-prima, assim como Saint-Chapelle e Notre-Dame, ambas em Paris. 

Leia também:
Marianne Peretti: Linguagem moderna para a arte vitral

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