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Um elo entre a colônia e a metrópole lusitana

O azulejo firmou-se como um elemento característico da arquitetura dos séculos 17 a 19, tornando-se adorno marcante não só nas fachadas, como no interior de casas e igrejas

TEXTO DANIELLE ROMANI
FOTOS ROBERTA GUIMARÃES

01 de Março de 2011

Raro painel com estampa silvestre, encontrado na Igreja Nossa Senhora de Piedade

Raro painel com estampa silvestre, encontrado na Igreja Nossa Senhora de Piedade

Foto Roberta Guimarães

[conteúdo vinculado à reportagem de capa | ed. 123 | março 2011]

O azulejo, do árabe al zuleyche,
é usado como elemento decorativo desde os tempos mais remotos da civilização. Começou a ser largamente utilizado na Península Ibérica por volta dos anos 1200, e se tornaria, nos séculos seguintes, um elemento especial no revestimento de igrejas e moradias brasileiras. “O azulejo foi um importante elo entre a colônia e a metrópole”, explica a arquiteta e pesquisadora Sylvia Tigre.

Bahia e Pernambuco detêm o maior, e mais belo, acervo da azulejaria religiosa nacional. “Os baianos se beneficiaram do fato de terem sido capital colonial. Por aqui, os fatores social, político e geográfico determinaram a disseminação do azulejo. Além disso, depois da expulsão dos holandeses, em 1654, o nosso estado assistiu a um natural sentimento de ufanismo, além do ressurgimento e reafirmação da fé católica. Tal fato, associado aos enormes lucros financeiros proporcionados pelo açúcar, contribuíram para que as Ordens Religiosas recebessem grandes doações financeiras e heranças. E os recursos refletiram-se no embelezamento de nossas igrejas”, conta Sylvia.

Por esses motivos, os prédios religiosos de várias localidades pernambucanas guardam exemplares do que há de mais precioso no país, a exemplo do arco-cruzeiro em azulejos da Igreja de Nossa Senhora do Amparo, em Olinda, provavelmente aplicados em 1630; ou das peças encontradas no atual Seminário de Olinda, que datam por volta de 1659.

Outro destaque é a Igreja de Nossa Senhora dos Prazeres, localizada no Monte dos Guararapes, forrada internamente por azulejos azuis e brancos que formam um “tapete”, considerado pelo especialista português Santos Simões como o conjunto mais importante de azulejaria sacra portuguesa, sem paralelo mesmo em Portugal. “Ele a descreve como o mais importante conjunto de que teve conhecimento em décadas de pesquisa”, aponta Sylvia Tigre.

Igualmente rara é a Igreja Nossa Senhora da Piedade, no bairro homônimo da cidade de Jaboatão dos Guararapes, datada do final do século 17. Lá, pode ser encontrado o único altar azulejado do Brasil. O conjunto azulejar também ostenta um desenho inusitado, com padrões silvestres, com aves, flores, pássaros e animais de vários portes.


Entre os padrões remanescentes, há os temas marinhos e da fauna, dos séculos 17 e 18, e os florais do acervo português e francês, do século 19

Outras preciosidades são os painéis encontrados no Convento de Santo Antônio, na Rua do Imperador, centro do Recife, cuja procedência supõe-se flamenga. “São figuras avulsas, bem representativas da temática holandesa. Existe uma hipótese de que foram trazidos do Palácio de Friburgo”, afirma Sylvia Tigre.

CENAS DE CAÇA
Ao lado desse convento, a Capela Dourada guarda outro tesouro: lá se encontram três painéis, contendo cenas de caça a coelhos, javalis, leopardos e aves – datados de meados de 1703. No maior deles, outra raridade: a assinatura do artista que executou a obra, o que só pode ser visto em mais duas peças brasileiras, ambas localizadas na Bahia.

A vinda da família real para o Brasil e da Missão Artística Francesa, trazida por Dom João VI, iniciou a divulgação local do Neoclassicismo. A presença da Academia de Belas Artes, no Rio de Janeiro, favoreceu a implantação de materiais refinados na construção e o aperfeiçoamento de técnicas dos países europeus nos trópicos. O azulejo acabou firmando-se como uma característica da arquitetura imperial, tornando-se um elemento essencial não só nas fachadas, como no interior de casas e igrejas.

Em Pernambuco, na terceira década do século 19, a boa fase econômica vivida pelos produtores de cana-de-açúcar e a vocação local de aderir às modas da corte fizeram com que a cidade começasse a se enfeitar de azulejos. O Recife não seria a única. Outras capitais, como Belém, São Luís, Rio de Janeiro e Porto Alegre também utilizaram largamente a técnica, por motivos semelhantes. “Além do aspecto decorativo de embelezar o imóvel, o azulejo tinha ainda a função de proteger contra a umidade. Portanto, as cidades litorâneas, ou as situadas às margens de rios, se valeram amplamente da azulejaria”, diz a arquiteta Sylvia Tigre.

No Recife, em especial, a azulejaria ganhou porte diferenciado, segundo observa o arquiteto Luiz Amorim. “A nossa identidade reside na conjugação entre o nosso sobrado magro e alto com a nova tradição azulejar, como nos imóveis da Rua do Imperador, em consonância com a modernidade dos sobrados neoclássicos ricamente decorados com grandes superfícies azulejadas.”


Painel de Petrônio Cunha Lima pode ser visto na Praça da República,
no Recife

Na capital pernambucana, registros de jornais da época atestam que as primeiras construções civis se iniciaram por volta de 1837. Entre 1840 e 1890, a técnica espalhou-se pela cidade. “A partir de 1860, com a importação em grande quantidade de azulejos franceses, os portugueses perderam o exclusivismo inicial e os padrões começaram a diversificar. Em muito menor escala vieram também azulejos de outras procedências, como os ingleses, hoje praticamente inexistentes”, explica Roberto Carneiro, restaurador e técnico da Fundarpe. Até o começo do século 20, todos os azulejos eram importados, pois inexistia uma indústria nacional.

A diferença entre os azulejos franceses e portugueses, segundo Roberto, dá-se, principalmente, nas dimensões. Os lusos são maiores, com dimensões entre 13,5 x 13,5 e 14,5 x 14,5, enquanto os francos são menores, entre 10,5cm a 11,5 cm de dimensão. Também podem ser percebidas diferenças quanto aos padrões.

“Tanto um quanto o outro apresentam a modalidade azul e branco e a policrômica. O azul e branco português, entretanto, tem o desenho mais nítido. Além disso, o francês contém o padrão na própria peça, enquanto, no português, é comum o desdobramento do mesmo em módulos de dois por dois (quatro peças compõem o desenho) e quatro por quatro (oito peças formam o desenho completo)”, explica Sylvia Tigre, que observa ainda: “Nos portugueses, os padrões têm composições que sempre privilegiam a diagonal, e, nos franceses, os desenhos são sempre delicados: quer em flores, pontos ou guirlandas”.

O uso da azulejaria na arquitetura recifense foi profícuo até o começo do século passado. Na primeira década do século 20, porém, um decreto municipal baniu os elementos das fachadas da cidade. A Lei 546, de 25 de fevereiro de 1909, proibia “o emprego de ladrilho vidrado, chamado de azulejo, na fachada dos prédios que se construírem ou reconstruírem na cidade”. Os motivos da restrição, diz Sylvia, são desconhecidos. Mas, como ela mesma ressalta, a lei acabou sendo inútil, já que a azulejaria mostrava-se incompatível com o estilo eclético, então em moda. Os azulejos só foram revalorizados com o Modernismo.

Belos exemplares do século 19 são o solar da Rua Benfica, que apresenta fachada original de azulejos portugueses no estilo holandês. E uma casa localizada na Avenida Apipucos, que tem como atrativo peças da azulejaria portuguesa em relevo. Outro conjunto belíssimo, mas hoje deteriorado, está na Travessa do Falcão, no Bairro de São José. Lá, pode-se constatar que, mesmo alvo de descaracterização, os azulejos ainda se destacam, evidenciado a urgente necessidade de recuperar e resgatar tão valioso acervo. 

DANIELLE ROMANI, repórter especial da revista Continente.
ROBERTA GUIMARÃES, fotógrafa, sócia da agência Imago, autora de Pernambuco popular – Um toque de mestre.

Leia também:
A arte azulejar moderna e o Recife

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